A vida tá pouca e eu quero muito mais

Moraes Moreira injetou agitação e alegria na MPB e morreu dormindo aos 72 anos

Moraes Moreira me reafirmando que era preciso ser amor da cabeça aos pés, em julho de 2011, em Porto Alegre

Para ser lido ao som de Moraes Moreira em Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira

Se existe hoje AmaJazz é porque houve Moraes Moreira. A comparação exagerada e talvez despropositada se explica pelo fato de que Moraes Moreira está no nascedouro do meu interesse musical. Foi no começo dos anos 80, no Brasil imediatamente pós-anistia, que eu, adolescente, comecei a ficar fascinado pelo músico que estava renovando o samba ao misturá-lo com afoxé, frevo e forró. Seu manifesto estava em Bazar Brasileiro, primeiro disco dele que comprei e que marcava uma nova fase em sua carreira como um dos representantes da forte gravadora alemã que se instalava no país. No mesmo período, Moraes Moreira também começava a revolucionar as músicas de Carnaval. Seu estilo alegre e agitado – sozinho ele “era” um trio elétrico – ganhava a melhor tradução em músicas como Eu Sou o CarnavalChão da Praça e Bloco do Prazer. Como para ele a vida era uma festa, até os folguedos de São João – tão presentes na cultura nordestina – receberam de Moraes Moreira sua homenagem na instantaneamente clássica Festa do Interior.

Foi gravado por todo mundo que importava (Gal Costa, Simone, Baby Consuelo, Pepeu Gomes) e se consolidava como herdeiro de uma tradição do samba baiano que começava em Dorival Caymmi e passava por João Gilberto e ainda abria generosos espaços para outros bambas que  Moraes Moreira sabia reverenciar, como os conterrâneos (Assis Valente e Batatinha) e os sambistas cariocas (Herivelto Martins e Ataulfo Alves). Quase como um Jorge Ben Jor, Moraes Moreira dava impressão de que seria incapaz de fazer uma música que não fosse alegre. Porém, sabia ser lírico e suave em canções de clara influência de João Gilberto (Alto-Falante e Asas de Brasília) ou em sambas ralentados, como Meninas do Brasil e Mentira, em que ensinava que “Para fazer um samba-canção/Dentro da tradição emocional brasileira/Não me falta dor/Tenho o pranto e o rancor…”.

Nos últimos tempos, parecia ter diminuído o ritmo. Gravava menos, já não lotava tantos teatros (pelo menos em Porto Alegre, onde durante muitos anos ele foi um fenômeno) e o que se lia sobre ele era em entrevistas polemizando com Baby Consuelo sobre quem era o “dono” dos Novos Baianos. Parecia ter deixado a alegria de lado e se mostrava cada vez mais distante dos versos que tão bem cantou em Bloco do Prazer: a vida tá pouca e eu quero muito mais.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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