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Eduardo Osório Rodrigues abre para a AmaJazz um dos capítulos de seu novo livro

Para ser lido ao som de Ethel Ennis em Lullabies for Losers

Sobreviver é esquecer. Esquecer um pouquinho, mas esquecer, dizia Ivan Lessa, referindo-se às perdas involuntárias que ocorrem na memória e das quais só nos restam vagas lembranças. Bom mesmo seria lembrar para sempre, sempre que possível, de um amor, de um sabor, de uma voz. Da voz de Ethel Ennis. Negra, pianista, cantora. Esquecida. Anos 1950-60, por aí.

À luz dessa revelação, investiguemos o caso partindo de uma premissa: alguém poderia imaginar que as largas, extensas e iluminadas avenidas do Jazz condenariam, no futuro, ótimas cantoras como Ethel à solidão no acostamento? Durante muito tempo, ela foi um dos segredos mais bem guardados do gênero musical que consagrou os grunhidos de Billie Holiday e a voz tecnicamente perfeita de Ella Fitzgerald. O timbre de Ethel tinha sutilezas que acariciavam as canções. Elogiada por Sinatra, Miles e Billie, sua colega e conterrânea, Ethel penou na obscuridade. Em parte, por culpa dela própria, que não lidava bem com a exposição pública. Preferia a discrição do lar às luzes da ribalta.

Nascida em Baltimore, no Estado norte-americano de Maryland, Ethel cantava no circuito de clubes da Costa Leste e de sua cidade natal. Era, portanto, uma cantora de saloon para uma plateia pequena, adulta e sofisticada. Nas décadas de 1950-60, gravou LPs com pequenos grupos e orquestras e chegou a excursionar com Benny Goodman e Duke Ellington. Foi eleita melhor cantora de Jazz pela Playboy em 1960, participou de festivais e se apresentou na TV, mas saiu de cena como se nada disso tivesse acontecido.

Sucessivos intervalos em sua carreira contribuíram para excluí-la da memória dos fãs da arte vocal. Ninguém mais se lembrava dela e dos ótimos discos de sua fase inicial havia muito fora de catálogo. Seus primeiros LPs viraram peças raras nas mãos de jazzófilos chegados à arqueologia musical – Indianas Jones modernos que não medem esforços em busca do Santo Graal, seja ele qual for e esteja o tesouro onde estiver.

Na década de 1980, a cantora ensaiou um retorno. Gravou um disco ao vivo e fez alguns shows, mas voltou à vida doméstica. Em 1994 e 1998, lançou mais dois LPs e desapareceu novamente nas brumas do tempo. Sua gravação mais recente é de 2005 (Ennis Anyone? – Ethel Ennis Live at Montpelier).

A redenção ocorreu somente em 2012 com o lançamento do material que gravou para a Jubilee, um selo independente de Nova York, e para a mítica Capitol Records, entre 1955 e 1958. Sim, é uma coletânea intitulada Ethel Ennis Sings. Mas uma senhora coletânea: um CD duplo com encarte biográfico de 12 páginas, contendo textos e fotos originais e 36 faixas de seus três melhores discos – Lullabies for Losers (1955), Change of Scenery (1957) e Have You Forgotten? (1958). As músicas mostram a qualidade vocal de uma artista madura no domínio de seu ofício. Ouça Dreamer-DreamerOff ShoreCasuallyI Still Get a ThrillMy Apple Pie GuyHave You Forgotten? e Serenade in Blue para entender o porquê do culto tardio a esta dama da canção. Lançado pela Fresh Sound Records, gravadora espanhola que olha com carinho para artistas menos badalados do Jazz, o CD foi o raio de sol que iluminou seu caminho de volta à estrada. Da noite para o dia, seu nome voltou a circular e suas músicas entraram na playlist das rádios especializadas.

A cantora que havia impressionado músicos como o pianista Hank Jones e o baterista Kenny Clark, duas lendas do gênero, finalmente estava sendo descoberta, aclamada e valorizada por uma geração que nunca a tinha ouvido na madrugada morta, no escuro do quarto. Seu público, antes reduzido a meia dúzia de gatos-pingados, tornara-se infinitamente maior. Do tamanho de seu talento. Pela primeira vez em décadas, Ethel saía da beira da estrada em que foi deixada, no passado, para circular em alta velocidade na grande via do Jazz. Até o final de 2018, aos 86 anos, aposentada e longe dos microfones, a velha cantora de Baltimore olhava para trás com orgulho – e pelo retrovisor.

Ethel Ennis morreu em fevereiro de 2019.


Música para ouvir (e ver)

O texto que Márcio Pinheiro escreveu e que serve de prefácio ao livro Negras Melodias – Música de Feiticeiras e Santos Pecadores

A música – talvez a mais abstrata das artes – produz imagens. O Jazz – talvez o mais abstrato dos estilos musicais – revela novas imagens muitas vezes escondidas atrás de imagens já conhecidas. Negras Melodias – Música de Feiticeiras e Santos Pecadores, que chega ao segundo volume, é uma jam session e também uma exposição artística. Aguça os sentidos, transcende as fronteiras do Jazz e se espalha por outros estilos próximos: o Funk, o Soul, o Blues, a Blaxploitation do começo dos anos 1970 do século passado.

Eduardo Rodrigues gosta de sons e imagens. Tenho o prazer e a alegria de tê-lo ao meu lado como um dos conselheiros da AmaJazz, site que edito há quase dois anos e do qual Eduardo se colocou como colaborador desde os primeiros dias. O que ele revelou aos leitores do site vem revelar aqui também: seu gosto pelos personagens, alguns por demais conhecidos (Miles Davis, Thelonious Monk, Dexter Gordon, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Isaac Hayes…), outros íntimos de apenas alguns iniciados (Ray Crawford, Charles Freeman Lee, Harvey Fuqua…) e até algumas surpresas com alguns nomes conhecidos fora de seu habitat natural – como a paixão de Sammy Davis, Jr. pela fotografia. Um artista tão genial atrás das lentes quanto foi atrás dos microfones.

Eduardo Rodrigues também gosta de “viajar” e de fazer listas. Prova disso é o texto dedicado ao Samba Jazz, em que ele sonha com uma viagem no tempo em que aterrissa nos becos de Copacabana da primeira metade da década de 60. Lá, ele lista algumas de suas admirações da música instrumental feita no Brasil: Raul de Souza, Dom Salvador, Os Cobras, Sergio Mendes e Dom Um Romão. Sons de um Brasil que sonhava grande.

O que Eduardo Rodrigues nos convida a partir de agora é afinar os ouvidos (e também os olhos) para passear com ele por esta galeria. Este marchand musical faz uma seleção original e extremamente pessoal de suas preferências sonoras. Quadros que num primeiro momento causam estranhamento, mas que no final se completam – como deve ser o Jazz.

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