Uma questão de sobrevivência

Roberto Muggiati, no dia do centenário de Art Blakey, lembra como o baterista recebeu uma proposta irrecusável para trocar de instrumento

Para ser lido ao som de Art Blakey em Night in Tunisia no álbum gravado ao vivo do Birdland

Arte: Daniel Kondo

Depois do elegante Kenny Clarke e do versátil Max Roach – que estabeleceram as bases da bateria moderna nos anos do bebop, Art Blakey – que hoje estaria completando 100 anos se não tivesse no deixado repentinamente em 1990 – surgiu no cenário do hard bop como um verdadeiro furacão. Um dos bateristas mais completos na história do jazz, criou várias inovações técnicas que legiões de imitadores tentavam, mas não conseguiam tocar como ele. No início da carreira, porém, Blakey não queria saber da bateria, seu negócio era tocar piano. Começou tocando para mineiros na região de sua Pittsburgh natal e ganhava gorjetas tão generosas que formou uma banda de 14 figuras tocando de smoking num clube noturno. Certa noite, veio uma dupla de artistas de Nova York e Blakey empacou na parte do piano. Admitiu para os companheiros: “Ora, seus filhos da mãe, todos vocês sabem que eu não leio partitura!” Um garoto baixo e franzino saiu de um canto e pediu: “Deixem-me tentar”. Blakey conta que o menino arrasou. Era Erroll Garner, que também não sabia ler música, mas tocava de ouvido como ninguém. Blakey comenta: “Eu estava sempre ensinando ao nosso baterista, Skippy, como tocar o instrumento. Não tinha uma bateria, mas gostava da coisa. O dono do clube, sentado num canto, me chamou e disse: ‘Ei, Art, acho que o garoto (Erroll) devia tocar o piano e você a bateria”. Retruquei: “Escute aqui, cara, a banda é minha, não vai querer me ensinar o meu riscado, não é?” Ele respondeu: “Há quanto tempo está por aqui? Quer continuar, não quer?”. Ele tinha uma Magnum 350 enfiada no cinto. Eu disse: “Mas é claro que quero ficar!” Ele falou: “Então vai lá, seu babaca, e senta naquela bateria”. “Venho tocando bateria desde então. Uma simples questão de sobrevivência”.

***

Anos depois, no verão do sol da meia-noite na Finlândia em 1961, ao visitar uma torre panorâmica em Helsinque, assinei no livro de presença o nome islâmico dele, Abdullah Ibn Buhaina.

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