Um dia branco com os Beatles

João Luiz de Albuquerque* estreia na AmaJazz e lembra o dia em que se sentiu um penetra entre as múmias

Para ser lido ao som de Beatles ao vivo em 1964

Arte: Gilmar Fraga

Teve um dia lá, na esquina da Abbey Road, vai ver com a avenida Rio Branco, quatro caras ingleses atravessaram a rua sem olhar para os lados, porque:

1. Carro nenhum ia atropelar gente passando certinho em cima da faixa de pedestre.

2. Era na Inglaterra e não no Brasil.

Um atrás do outro como patinhos em linha reta atrás da mamãe pato, bico empinado. Três ternos com assinatura de Tommy Nutter, O primeiro da fila vestia terno branco de bicheiro, depois um narigudo de preto, o terceiro foi aquele que a Tereza nem deu a mão, era o de cinza, deve ter mandado ver coisa da melhor, yeah!, acabou saindo descalço. O do fim da fila, jeans da cabeça aos pés.

Um fotógrafo escocês, do alto de uma daquelas escadas caseiras de ajudar a limpar direito o em cima do armário, fez umas fotos dessa cena comum, tão cotidiana do dia a dia: tem uma calçada, a loja que você quer está na calçada em frente, atravessar a rua faz-se necessário. Foi só isso. Um escocês com uma Nikon, quatro ingleses atravessando a rua, tinham coisa para fazer do outro lado.

Fazendo 50 anos com alguém lembrando daquele ato, corriqueiro, banal, trivial, ordinário, tão sem graça, até? E comemorando, o mundo todo em festa por uma atravessada de rua? Para com isso, fake news!

Deixa de ser presidente dos Estados Unidos porque aquela foto virou capa de um troço que chamava LP. Também e, principalmente, aqueles quatro ingleses, britanicamente atravessando uma rua na faixa de pedestre zebrada de branco eram os Beatles.

Foi quando, discreta modéstia, até me deu vontade de comemorar os 55 anos daquele gelado fim de tarde, em Washington D.C, quando dividi o mesmo palco com aqueles quatro ingleses que, cinco anos depois, iam atravessar a tal rua, etc, etc, etc.

Foi assim: me lembrei de um cara, um jornalista brasileiro que entrevistou os Beatles na primeira viagem aos Estados Unidos e, anos depois, fez o mesmo com um desiludido George Harrison. Será que ele gostou dos Beatles? Aí descobri o seguinte.

Naquela manhã de 11 de fevereiro de 1964, o cara olhou pela janela e viu que Washington DC estava sendo enterrada pela neve. Péssimo sinal para quem, até há pouco, torrava ao sol do Arpoador e do Castelinho. Horas depois pintou na Union Station, a gare Pedro II da capital americana, porque os Beatles estavam chegando para o seu primeiro show americano. De trem, porque George Harrison tinha se apavorado com a branca tempestade e avisado: “com essa fucking blizzard (nevasca alguma coisa), não levanto voo!”. A imprensa local preferiu esperar o grupo diante do palco do Coliseum Sports Arena, local da entrevista coletiva e do espetáculo daquela noite. Deveria ter ficado na redação. O mais novo era quarentão, todas as repórteres-matronas usavam chapéu e aquele grotesco júri da escrita já tinha chegado com o veredito pronto: esses Beatles não duram até o próximo inverno. Só fizeram perguntas tolas e agressivas.

O cara, um ano mais velho do que John, subiu no palco para conseguir melhores fotos, foi se chegando e ouviu do John: “São umas bestas velhas e burras! Como é que deixaram você entrar neste festival de múmias? Você falsificou a identidade?”. Entre um clique e outro, rolou um papo musical paralelo, pleno de humor anárquico. É, os Beatles já sabiam das coisas, raciocinavam a mil e estavam apavorados com o início da beatlemania. Para quem tinha passado os últimos anos nas noites do Beco das Garrafas ou escutando o Tom, em casa, compondo sua bossa nova, difícil foi manter a mesma opinião elevada diante da música vinda do mesmo palco naquela noite: levada num tempo louco, às vezes até desafinada. O cara pensou: esta música não combina com o talento e a cuca deles. Na confusão final, ele não conseguiu pegar, com o John, a senha prometida para entrar na boca livre da embaixada da Inglaterra.

Só em 1979, quando os Beatles já eram, o cara voltou a encontrar-se com um deles. George veio ao Brasil badalar o lançamento do seu George Harrison, aquele que tem a homenagem aos pilotos de Fórmula 1, Faster. A tal da rara entrevista exclusiva aconteceu numa suíte do São Paulo Hilton. Longa conversa, o George até que falou nos Beatles, meio a contragosto, é verdade. Confirmou as histórias de uso e abuso das drogas, a preferência geral pelo ácido, a cizânia armada pela Yoko e a Linda, aquelas coisas todas. O papo continuou no dia seguinte, durante a corrida de baratinhas, no autódromo local, mas o George só falava de sua maior frustração: a de não ter conseguido liberar e distribuir a fortuna arrecadada com o Concerto para Bangladesh, presa pela briga dos advogados. Por todo esse mero pouquinho, que viu, conversou e viveu nas longínquas beiradas dos Beatles, fiquem sabendo que o cara adorou tudo isso. Tanto que assinou lá em cima.


* João Luiz de Albuquerque é jornalista, fotógrafo, produtor musical de shows e de discos, diretor e apresentador de TV e documentarista que reescreve a história com os filmes Brasil Campeão do Mundo de 1950, que impede o Maracanazo, e, Casablanca, em que obriga Humphrey Bogart a dizer, “Play it again, Sam!” e cria um final feliz para Bogart e Ingrid Bergman


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