Paulinho Trompete tinha um nome a zelar

Reinaldo Figueiredo lembra o som inesquecível de um amigo genial

Para ser lido ao som de Paulinho Trompete em Marina, de Dorival Caymmi

Gosto de imaginar que Paulinho Trompete, quando ia preencher sua ficha na recepção de um hotel, escrevia simplesmente “Paulinho Trompete” e deixava em branco a linha reservada para “ocupação”. O cara tinha a música no nome, e não precisava explicar mais nada. Infelizmente, esse músico genial não está mais neste planeta. Mas seu som é inesquecível.

Nós, da CEJ (Companhia Estadual de Jazz), tivemos o prazer de gravar duas faixas com ele, em 2007, no CD Via Bahia. Uma delas foi Falsa Baiana, ou Salsa Baiana, um trocadilho em busca de um arranjo. Naquele dia, Paulinho Trompete chegou no estúdio trazendo o seu sobrenome numa caixa e, numa outra, um trombone de pisto, aquele trombone que não tem vara, mas tem válvulas, e parece um trompete gigante. Na nossa Salsa Baiana, ele usou esse trombone e ainda inventou uns naipes, gravando seu
instrumento em vários canais. O solo que ele fez nessa faixa é incrível. Ouvi tantas vezes que até já decorei.

A outra faixa foi São Salvador, de Durval Ferreira. Paulinho adorou ter sido escalado para tocar nesta gravação. E aí relembrou seu início de carreira, nos anos 60, tocando em bailes no conjunto de Ed Lincoln. Durval Ferreira era seu colega no grupo e Paulinho contou que essa era a música preferida da galera da pista de dança. Enquanto os casais dançavam, lá no palco os músicos tocavam o tema milhões de vezes, e os solos improvisados rolavam sem parar… Um legítimo baile de samba jazz era assim. Lembro também que ele estava muito animado com um projeto: gravar um CD só com
composições de Durval Ferreira. Este CD, Paulinho Trompete e Banda Sambop: Tema Feliz, acabou sendo lançado em 2008 e, felizmente, Paulinho ficou feliz com o resultado.

Num momento como este, é melhor não fazer um minuto de silêncio. Sugiro aumentar o volume e ouvir o som do Paulinho Trompete.

* P.S.: Aproveito a oportunidade para contar que ele ficava muito injuriado quando escreviam o nome dele assim: Paulinho Trumpete. “Pô, não existe trumpete com U!”, ele dizia. E é verdade, isso aí é uma adaptação errada da palavra trumpet, em inglês. Paulinho, pode deixar comigo, que eu estou ligado. No que depender de mim, isso não se repetirá.

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