Nat King Cole não foi rei só no nome

Sérgio Augusto retorna à AmaJazz para celebrar o centenário de um dos maiores nomes da canção americana de todos os tempos.

Para ser lido ao som de Nat King Cole em Nature Boy

Arte: Daniel Kondo
Arte: Daniel Kondo

Os bem informados fãs de Nat King Cole sabem que ele não nasceu em 1917, como consta da Penguin Encyclopedia of Popular Music), que a música que o revelou, Straighten Up and Fly Right, fazia referências a drogas, e que um de seus primeiros sucessos solo, Nature Boy, era inspirado num tema do folclore judaico.

Na verdade, os mais bem informados fãs de Nat King Cole sabem que ele nasceu em 1919 (no dia 17 de março, para ser mais exato), que Straighten Up and Fly Right; nada tem a ver com drogas, e que Nature Boy saiu de um musical da Broadway. Qualquer dúvida, é só consultar Unforgettable: The Life and Mystique of Nat King Cole, biografia do cantor escrita por Leslie Gourse, a mesma que há tempos contou a vida de outro rouxinol do jazz, Joe Williams.

O que fazia aquele macaco na letra de Straighten Up and Fly Right? Ele de fato era metafórico, mas não derivou da expressão “monkey on my back” (“um macaco nas minhas costas”), que na subcultura da droga identifica um viciado. Sua origem não podia ser mais morigerada: uma parábola religiosa — envolvendo um macaco espertalhão que pega carona num pássaro e pede que ele se aprume (“straighten up”) e alce voo (“fly right”) – que o pai do cantor costumava contar em seus sermões. O senhor Cole era pastor de uma igreja batista de Chicago.

Não vem ao caso o sentido da parábola. Mais interessante foi a leitura feita por Lucille Ball. Convidado a participar de um filme produzido e estrelado pela atriz, Nat abriu seu naipe de ofertas musicais com Straighten Up and Fly Right. Quando terminou, Lucille Ball mais parecia um pimentão. “Esta é a canção mais suja que já ouvi na minha vida!”, berrou, encerrando ali a transação com o cantor. Ela havia entendido que o macaco pedia ao pássaro uma ereção.

Quanto as origens de Nature Boy, suas raízes são mesmo judaicas, mas seu autor, Eden Ahbez, não surrupiou notas de domínio público. Originalmente, era uma canção íidiche, intitulada Shvayg Mayn Hats (Acalme o meu coração), composta por Herman Yablokoff, para um musical (Papirosn) encenado na Broadway nos anos 30. Ahbez pensou que se tratava de um tema folclórico e escreveu para ela uma letra com imagens que me lembram O Pequeno Príncipe e tocariam fundo na sensibilidade de milhares de gays americanos, em parte por ter sido a canção favorita de James Dean. E também, honni soit qui mal y pense, de Vinicius de Moraes.

Os produtores de Nat não gostaram dela, mas o cantor cismou de gravá-la. Nature Boy, que acabaria sendo a canção-tema do primeiro longa de Joseph Losey, O Menino de Cabelos Verdes, chegou às lojas na primavera de 1948 como o lado B de Lost April. Para surpresa geral, o presumido osso do filé puxou as vendas: quase 2 milhões de cópias em poucos meses.

Um jazzman pragmático, adaptável e sem preconceitos musicais – assim é o Nat King Cole pintado por Gourse. Ele nunca deu à sua cooptação pela música pop a mesma importância que lhe deram alguns puristas. Seu argumento mais convincente era uma pergunta: “Você quer que eu acabe como Bud Powell?”. Não, ninguém queria que ele encurtasse sua vida intoxicando-se com drogas e frustrações. Ou a infernizasse com subempregos, como ocorreu com Oscar Moore, o primeiro guitarrista do King Cole Trio, que por uns tempos trabalhou como pedreiro.

Apesar de idolatrado na América (Gourse dedica um dos capítulos do livro a um casal, branco, que tinha a mania de marcar seus encontros nos clubesonde o cantor se apresentava), Nat não foi poupado pela canalha racista. Membros do White Citizens Council deram-lhe uma surra durante um concerto em Birmingham (Alabama) em 1956. Pouco depois, uma série de programas de TV com o cantor teve de ser cancelada porque seus patrocinadores, receosos de um boicote organizado por fanáticos antinegros, arrepiaram carreira. Não bastasse, gravaram a fogo a palavra “nigger”; no gramado da casa do cantor, em Hancock Park, perto de Beverly Hills (Los Angeles).

Gourse entrevistou um bocado de gente. Ninguém soube precisar quando e onde, exatamente, Nat começou a cantar. Todos, porém, sabem o quanto essa opção significou para a música popular. O cantor Nat influenciou até o jeito de Miles Davis tocar trompete.

(Texto cedido pelo autor e originalmente publicado pela Folha de S. Paulo, em março de 1992)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.