Um dia na vida de Baden Powell

Juarez Fonseca lembra uma das ultimas vindas de Baden Powell a Porto Alegre há 30 anos, com um texto publicado originalmente no dia 28 de novembro de 1988

Para ser lido ao som de Baden Powell em Berimbau

Baden em show realizado na Alemanha (Foto: Malte/CC BY 3.0/Wikimedia Commons)
Baden em show realizado na Alemanha
(Foto: Malte/CC BY 3.0/Wikimedia Commons)

Quando um grande músico está no palco, o espetáculo é sempre surpreendente. Sábado, no Teatro da Ospa, a surpresa de Baden Powell foi ter deixado de lado todas as possíveis novidades. Não tocou sequer um tema inédito ou desconhecido, preferindo incursionar pelos arquétipos da música popular brasileira. O público assistiu a uma viagem de saudade e prazer de tocar. Talvez por ter passado um bom tempo sem vir ao Brasil, Baden mostrou-se especialmente nostálgico e transbordava afetividade. Na primeira metade do recital, depois de claros pontos de referência como Samba do Avião (Tom Jobim) e Das Rosas (Caymmi), confessou que seu coração estava feliz e visitou Garoto, Ernesto Nazareth, Patápio Silva, Luiz Gonzaga (seu arranjo para Asa Branca é definitivo), Pixinguinha. Deteve-se ao falar de Pixinguinha, para ele o criador do choro e o compositor do século. Antes de Naquele Tempo, avisou: “Vou tocar mais em forma de saudade que de choro”. Depois, pensou alto: “Pixinguinha era um santo, né?”. 

A segunda metade foi dedicada praticamente a Vinicius de Moraes. Baden lembrou muitas histórias de seu relacionamento com o poeta, fez o público rir. No primeiro encontro, por exemplo, estavam em um bar, e Vinicius o chamou para mostrar a letra que tinha feito para ser uma marcha-rancho, o Rancho das Flores. Seu parceiro musical tinha morrido há séculos.  Era João Sebastião Bach. E a partir daí Baden incorporou Jesus Alegria dos Homens ao seu repertório. Quando cantada, tornava-se o Rancho das Flores. No sábado, tocou Bach também porque “meu coração está pedindo”. Tocou e cantou uma de suas mais reverenciadas parcerias com Vinícius, Samba em Prelúdio. A história dessa música, segundo Baden: chegou uma noite na casa do poeta com a melodia pronta, para fazerem a letra. Depois de quatro garrafas de uísque, letra pronta, Vinícius encasquetou que a melodia era plágio de alguma coisa de Chopin. O final da discussão foi decretado pela mulher de Vinícius, que sabia tudo de Chopin. Acordada, pois já era manhã, ela saiu em defesa de Baden: plágio coisa nenhuma. Mas Vinicius não se deu por vencido: “Se Chopin não fez essa música, foi porque esqueceu de fazê-la”. 

Baden também canonizou Vinicius: “São Vinicius de Moraes, protetor das mulheres grávidas”. O final do recital foi com o Samba da Bênção; Baden recordando com “saravás” toda a galeria dos pilares, mortos ou vivos, da música brasileira. Ele deu verdadeiramente uma aula, sublinhada pelo gênio de suas mãos de maior violonista brasileiro de todos os tempos. Embora tivesse tocado só passado, soube torná-lo presente o tempo todo. Sem mudar, mudando. E só para constar, uma opinião de Baden que contraria a história corrente da bossa nova: “Não tem influência de jazz, não tem nada disso; essa história é uma mentira muito grande”. Na verdade, a bossa sofreu influência jazz. Mas na música de Baden Powell, um dos compositores e instrumentistas que simbolizam o movimento, realmente o jazz passa ao largo: “A bossa nova é genial”, disse ele, “mas o balanço da Velha Guarda é fundamental”. 

Abandonando a expectativa do novo, Baden parece alimentar-se, cada vez mais da saudade do eterno.

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