Uma vida de muitas vidas

Documentário recupera as sete décadas de dedicação à música de Quincy Jones, o maior símbolo da força do showbiz mundial

Para ser lido ao som de Quincy Jones em Summer in the City
Foto de Platon Antoniou, publicada na página de Quincy Jones no Facebook (http://goo.gl/9cBWDT)
Foto de Platon Antoniou, publicada na página de Quincy Jones no Facebook (http://goo.gl/9cBWDT)

A câmera desliza pela imensa parede. Lentamente vai mostrando: dezenas de capas de discos, fotos autografadas, bilhetes, cartas, diplomas, documentos, recordações. Todos os personagens são facilmente identificáveis: Stevie Wonder, Count Basie, Dizzy Gillespie, Michael Jackson, Frank Sinatra, Paul McCartney, Dinah Washington, Duke Ellington… Em meio a tanta informação, Dr Dre, rapper, produtor musical e responsável por conduzir a entrevista que virá a seguir, se espanta com a quantidade de registros e de homenagens – são 27 Grammys, mais de mil composições, mais de 300 álbuns gravados “Nossa!”, diz ele, para logo em seguida apresentar o tema do documentário e dono da casa onde fica a parede: Quincy Jones.

O superlativo produtor, compositor, arranjador e trompetista é, aos 85 anos, o maior símbolo da força do showbiz mundial. De Los Angeles, ele conduz um império artístico que influencia a produção musical de todo o planeta. “Em cada estágio de sua notável carreira, ele foi o primeiro. Foi alguém que passou por aquela porta antes de todo mundo. Isso dá às pessoas atrás dele uma enorme confiança”, diz, lá pela metade do documentário, o ex-presidente Barack Obama, um homem que sabe que muito da sua chegada à Casa Branca passa pelo pioneirismo de Quincy.

O documentário, dirigido por Rashida, uma das seis filhas de Quincy (ele ainda tem um filho homem, que carrega o mesmo nome do pai), se estrutura em memórias e fatos atuais. Quincy recorda a infância pobre em Chicago, as crises de loucura da mãe (internada e levada de casa numa camisa de força), a dificuldade para conseguir comida e as barreiras que precisou romper.

Não é um homem amargurado. Pelo contrário. Demonstra grande felicidade e gratidão, parece ser gregário com parentes e amigos, agradece constantemente a Deus pelos sucessos alcançados e aproveita bastante a vida – até das internações hospitalares parece tirar graça.

Há anos, Quincy quase morreu devido a um aneurisma cerebral que exigiu duas neurocirurgias. Ele se recuperou, apesar de uma chance em 10 de sobrevivência, mas ficou proibido de se aproximar de duas paixões: o trompete, pelo problemas que poderiam ser causados pela pressão, e as bebidas alcoólicas. Essas, aliás, o levaram a um coma diabético que quase lhe tiraram a vida aos 82 anos – relato que marca o início do documentário.

Das belas recordações que juntou em mais de sete décadas de atividade musical, Quincy lembra de Duke Ellington e Lionel Hampton, com quem começou a excursionar. Ri dos arranjos que fazia por 12 dólares – está tudo anotado num caderno – mas, ao mesmo tempo, tem certeza de que ter aceito aqueles trabalhos lhe garantiram visibilidade e convite para novos trabalhos. Depois, nunca mais seria mal remunerado.

No início da carreira, Quincy também foi favorecido pela proximidade com dois astros em ascensão, Ray Charles e Dinah Washington, que seria decisiva para sua entrada na gravadora Mercury. Ainda não tinha 30 anos quando resolveu dar uma guinada na carreira. Mudou-se para Paris e matriculou-se como aluno da pianista Nadia Boulanger, figura importante nas carreiras de Igor Stravinsky, Leonard Bernstein e Astor Piazzolla.

“Nadia Boulanger costumava me dizer: ‘Quincy, há apenas 12 notas. E até que Deus nos dê 13, eu quero que você saiba o que todo mundo fez com aqueles 12’. Bach, Beethoven, Bo Diddley, todo mundo… são as mesmas 12 notas. Não é incrível? É tudo o que temos, e cabe a você criar seu próprio som único através de uma combinação de ritmo, harmonia e melodia. Como a música está em constante mudança, é impossível obter o mesmo resultado duas vezes, e estou sempre fascinado por ouvir os diferentes resultados que você pode criar com apenas 12 notas.”

Além dos ensinamentos de Madame Boulanger, a temporada francesa seria fundamental para Quincy, principalmente por encorajá-lo a organizar um grupo e sair tocando pela Europa. A decisão seria ótima como experiência porém um fracasso como negócio, deixando Quincy com uma dívida de mais de 100 mil dólares. Como a derrota também inspira, Quincy decide voltar aos Estados Unidos e enveredar pela música pop.

Sua primeira aposta foi Lesley Gore, uma garota de 16 anos de Nova Jersey. Foi um sucesso absoluto. Quincy se recuperou financeiramente e passou a adotar uma estratégia que o acompanharia pelo resto da vida: a capacidade de ouvir o máximo de composições para só então, a partir da imensa quantidade de material avaliado, começar a podar até chegar ao número ideal que merecesse ser gravado.

O grande salto viria com Sinatra, fascinado pelo trabalho que Quincy já desenvolvera na orquestra de Count Basie. Quincy adotou Las Vegas como lar – contando com o empenho de Sinatra para combater o racismo que ainda impedia que os músicos negros frequentassem hotéis e cassinos senão como empregados – e deu uma nova dimensão ao seu trabalho. Logo depois, Los Angeles seria o caminho natural, com Quincy atraído pelo fabuloso mercado das trilhas sonoras para cinema e TV. Na Califórnia, daria um salto ainda maior ao se aproximar de Michael Jackson e produzir Thriller, o maior fenômeno da história da indústria fonográfica.

Como que fechando um ciclo, ao final do documentário, Quincy visita um museu dedicado à cultura afro-americana que seria inaugurado com em cerimônia com direção musical sob sua responsabilidade. Chegando ao local, numa referência direta à parede de fotos do início, Quincy vai se emocionando com o acervo, reconhecendo velhos amigos. Parceiros não de uma vida – mas de várias.

Anúncios

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

Nenhum pensamento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s