A sabedoria de Nina

Cláudia Beylouni Santos* mostra como e por que Nina Simone viveu e vive o que fala e não deixa decantar – nem de cantar –, pois tudo nela é energia

Para ser lido ao som de Ain’t Got No, de Nina Simone
Foto: Ron Kroon/Anefo [CC0]/Wikimedia Commons
Foto: Ron Kroon/Anefo [CC0]/Wikimedia Commons

Uma voz que se impõe pela força de seu caráter e de seu talento, expressando a verdade da sua alma, Nina Simone é a estrela do jazz que traduz a arte que não tem como ser calada. Como sói aos grandes gênios da humanidade, traz à luz  a beleza da essência das vísceras humanas em sua odisseia terrena.  E o faz com a requintada estética alcançável pelos dons naturais que se lapidam por meio de muito empenho e trabalho.

Não se engane quem chegou de  relance ao jazz, ainda sem o ouvido educado de modo a conseguir desfrutar reconhecendo a viagem sonora que se oferece. Improviso não é desleixo, nem desordem, nem acaso. Improviso é o traço treinado desde a infância de Picasso sendo encontrado pela inspiração no seio da transpiração do seu trabalho. Porque soube pintar a cesta de pão com que disputou o domínio da luz com os grandes mestres que o precederam, Dalí tem o domínio de si para ser o criador livre  que é. Só improvisa e cria quem sabe. O resto é catarse que serve apenas a quem expele o que é barulho para quem recebe.

Mas Nina sabe. Sabe tanto que pode desafogar em notas musicais toda a fúria da dor de seres humanos segregados, hostilizados e privados de possibilidades em face da sua melanina, transformando essa pungência em joia ao escorrer pelo leito de ouro de sua garganta. Então o grito da insurgência do escravo acaba por cativar mesmo o ouvinte que se pensava livre: atingido nevralgicamente na sua sensibilidade, é rendido à inescapável compaixão diante da injustiça  sofrida pelo irmão, à inescapável empatia àquela causa tão justa quanto bela, a qual, se eventualmente até ali cogitada como do outro, aqui finalmente percebida  antes de todos, dado que humana, uma vez que a indignidade que um homem cometa contra outro, comete-a contra toda a humanidade, e que a indignidade sofrida por um homem, sofre-a, maculada, toda a humanidade.

Nina conhece, sabe e sabe que sabe. Sabe o quê e sabe o  verdadeiro saber dos sábios, o porquê. Não fugindo à regra do percurso de grandes jazzistas da história, teve seus primeiros contatos com a música e com o aprendizado de piano na Igreja onde sua mãe era pregadora, e, notada em sua qualidade precoce, foi amadrinhada com a chance de muitos anos de estudo nos mistérios do piano, o que levou a sério e com muita determinação.   Sim, nesse estudo aprofundado compreenda-se Bach, muito Bach, sem que seja surpreendente que nada menos que o homem que tocou Deus esteja na substância da construção dessa artista divina.

E Nina sabe, porque, ademais, não se limitou a ler e a ouvir falar. Nina viveu e vive o que fala e não deixa decantar, pois tudo nela é energia, mesmo quando contida, é movimento, é atitude, é vida vivida à exaustão. Nina convence porque é – como testemunha sua filha, não existe uma personagem no palco, senão a pessoa que se vive por inteiro 24 horas dos sete dias da semana. Nina não atua, age, conhecedora real da vida que  não se dobra ideal à vontade, sequer às vontades mais justas.

Ocorre que Nina, porque é vida, tampouco se dobra. Se o preconceito fechou mesquinho as portas ao seu sonho na carreira erudita,  seu destino de brilhar, soberana, realizou-se através dos caminhos alternativos do jazz.  A grandiosa menininha que negou a graça de sua música àqueles que humilharam sua mãe  enquanto não lhe permitiram assistir à filha na devida primeira fila, já provava que a fibra e a altivez da artista não são jogo de cena, que  não viver por inteiro o conteúdo do seu canto não lhe é uma opção.

Essa mulher que tampouco foi poupada de experimentar a violência do marido, contando com a  própria violência ora como adversária, ora como aliado combustível à sobrevivência, mais do que sabe resistir, lutar e avançar. O imperativo de sua própria natureza é lutar, tanto contra os inimigos externos, como contra seus monstros internos. Tudo isso, enquanto a fêmea que é, sensual,  simultaneamente ao animal que se reconhece, sexuado, deleita-nos a audição dos mortais com a delícia e a volúpia de um timbre claro e firme sarandeando decidido e fluido pelos mais excitantes volteios melódicos. E, para gozo da nossa alma efêmera, com a força da pulsão vital  carregando a musicalidade dessa voz, a qual, antes de ser de uma mulher, é de uma pessoa negra, mas, acima de tudo, é de um ser humano, que, artista de primeira grandeza, toca na carne as nossas paixões ao expressar as suas com a contundência da beleza de quem sabe que não precisa ter nem sapatos, nem nada mais além de si mesma, para ter-se a si própria.

* Especialista em direito ambiental nacional e internacional, estudante de filosofia e letras clássicas, Cláudia Beylouni Santos é oficial de justiça, mas, na AmaJazz, é conselheira porque desconhece o que seja mundo sem jazz ou sem artes – uma herança que recebeu de seus pais e passou para a filha.

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