falaJazz | Jaques Morelenbaum

“Nenhum instrumento combinará mais com o jazz do que o violoncelo”

Para ser lido ao som de Casa, disco de Jaques Morelenbaum e Ryuichi Sakamoto
Jaques Morelenbaum-13 © roberto cifarelli
Foto: Roberto Cifarelli/Arquivo pessoal de Jaques Morelenbaum

Um dos mais ativos músicos em atuação no Brasil, Jaques Morelenbaum tem um extenso currículo como violoncelista, arranjador, maestro, produtor musical e compositor desde que começou a carreira como integrante de A Barca do Sol. Se este primeiro grupo foi sua escola, sua pós-graduação foi ao lado de Tom Jobim, a quem acompanhou por uma década. Outro parceiro frequente – a quem lembra com admiração e carinho na entrevista a seguir – é o japonês Ryuichi Sakamoto. Fala aí, Morelenbaum!

Tem violoncelo no jazz?
Sim, com certeza, mas isso depende exclusivamente do cellista. Isso porque o violoncelo é apenas um instrumento, não passa de um instrumento, instrumento este incrível, privilegiado por uma sonoridade robusta, extremamente humana, lânguida, romântica, pungente, profunda, favorita de uma enorme lista de compositores que a usam em seus momentos mais apaixonados… mas,  volto a dizer, o violoncelo é apenas um instrumento da vontade do artista, de suas inclinações, inspirações, discurso. Então eu diria que se o cellista combina com jazz, é isso que ele dirá através de seu instrumento. E se ele for bom, claro e extremamente virtuoso no que faz, nenhum instrumento combinará mais com o jazz do que o violoncelo.

 Você vem de duas escolas muito fortes, Villa-Lobos e Tom Jobim. O que há de jazz em cada um deles?
Creio que Tom escutou mais jazz do que Villa-Lobos, e também que os jazzistas ouviram mais Tom do que Villa-Lobos. Então essa conversa se tornou mais fluente e natural. Mas na essência, Villa também tem a chama do jazz, que bebe nas fontes populares, nos cantos de trabalho, na melancolia “azul” do blues, e transforma essa matéria prima em algo muito sofisticado, ao mesmo tempo visceral e cerebral, espiritual e com espírito de dança!

Algum jazzista em especial te influencia? E te emociona?
Tantos! Incontáveis! Miles, os Evans: Gil e Bill, Coltrane, Shorter, Hermeto Pascoal, e mais atualmente Gonzalo Rubalcaba.

Você se apresentou em importantes locais do jazz, clubes de Nova York e Tóquio, para ficar só em alguns. Conte-me uma história curiosa, interessante?
Não sei se esta seria propriamente uma história interessante para outras pessoas, mas pode revelar-se curiosa. Para mim foi mais que emocionante! Em maio de 1990, eu estava em turnê com o Egberto Gismonti na Europa, e chegando na tarde do dia 5 para a passagem de som antes do nossa concerto no New Morning, um dos clubes de jazz mais tradicionais de Paris, fomos impedidos de entrar antes do término da filmagem de um vídeo que ali ocorria. Após cerca de meia hora de espera, avisaram-nos que poderíamos finalmente entrar. Nesse instante Miles Davis saiu lá de dentro, e entramos em seguida para ensaiar e tocar à noite numa casa abençoada por aquela gigante energia.

Não é bem jazz – mas também é jazz. Me fale um pouco da tua proximidade com o Ryuichi Sakamoto. Pode sair algum novo projeto?
Fui apresentado pessoalmente ao Sakamoto pelo Caetano Veloso, durante o lançamento do disco Circuladô (produzido pelo Arto Lindsay) em Nova York. Por coincidência este foi meu primeiro trabalho com Caetano, assim como o de Sakamoto. Ele assistiu ao nosso concerto no Ball Room e, um mês depois, eu recebia um fax em minha casa convidando-me para uma temporada de três semanas no Japão tocando sua música numa formação de trio clássico: piano, violino e cello. O fato curioso nesse encontro com Sakamoto é que no período em que fui convidado pelo Caetano para escrever meu primeiro arranjo para ele (para a canção Itapuã), o disco Merry Christmas, Mr. Lawrence havia “entrado” lá em casa através da Paula, minha mulher, que havia assistido ao filme e se encantado com sua canção principal. Todas as vezes que eu interrompia meu trabalho de arranjo para um descanso e saia do estúdio, ouvia a tal canção do Sakamoto tocando lá em casa. Isso se repetia de tal forma que acabei instintivamente incluindo uma pequena célula musical desta composição do Ryuichi num momento específico do arranjo para o Caetano, sem poder jamais supor que ao mesmo tempo em que isso ocorria no Rio, Caetano convidava Sakamoto para gravar com ele em Nova York a canção Lindeza, para este mesmo disco.

Outra curiosidade no meu encontro com o Sakamoto. Temos praticamente a mesma idade – ele é três anos mais velho que eu. Um fato me chamava muito a atenção: no nosso princípio de adolescência, quando começávamos a formar nosso gosto musical e assim definir nosso futuro como artistas, enquanto no Brasil eu pouco ligava ainda para a bossa nova, e só queria ouvir e curtir os Beatles, no Japão, o jovem Sakamoto apaixonava-se pela música de Jobim. Pontos para ele!

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