Monk e eu (e nós)

Péricles Cavalcanti* lembra que a primeira vez que se ouve Thelonious Monk tem-se um choque estético-musical incomparável e inesquecível.

Para ser lido ao som de Pannonica, de Thelonious Monk
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Ilustração: Gilmar Fraga

Foi assim comigo e com muitos outros músicos, compositores e cantores. Foi assim, por exemplo, com Amy Winehouse, quando aos 15 anos, ouviu Round Midnight tocando na vitrola do quarto de seu irmão; “Corri para lá arrebatada e perguntei, o que é isso?”, ela conta.

Pois foi isso mesmo que aconteceu comigo. Não me lembro das circunstâncias nem se foi essa mesma música, seu maior sucesso como compositor, mas sei que com certeza foi uma de suas insuperáveis gravações ao piano solo. E que eu, também, ainda era um adolescente e ainda nem trabalhava com música.

A partir daí, Monk se tornou para mim, a principal referência como instrumentista e compositor de jazz e, através dos anos, tenho feito algumas composições instrumentais homenageando-o e tentando me aproximar, mesmo que de uma forma apenas alegórica e reduzida (uma dessas peças fiz ao piano e se chama Fantasia Monkiana e faz parte da trilha-disco do filme Mil e Uma de Susana Moraes) de seu estilo único, ao mesmo tempo angulosamente arquitetado, “bluesy”, lírico, tonal com toques de atonalidade, livre e polirrítmico.

No fundo, eu sei porque sua grande música causa essa impressão arrebatadora. É que ele a toca (ou compõe) como se fosse a própria Música, ou a arte da Música, que estivesse sendo inventada ali, naquele “tempo” preciso, com todo o seu frescor, emoção e novidade e não apenas uma determinada composição. E isso vale, também, para quando ele toca canções standards tradicionais e muito conhecidas. Quem ouve fica tocado, exatamente assim, como se fosse a própria Música, na sua forma mais necessária e original, pela primeira vez.

E aí pensamos (ou dizemos!): “Ah, então, isso é que é Música!”.

PS: Essa é a letra, ainda inédita, que fiz para Pannonica, uma de suas mais belas composições.

Pannonica (Thelonious Monk)
Letra em português de Péricles Cavalcanti

Sons desiguais
Dissonâncias e jazz
Retorcer compassos e canções
Reverberar uma orquestra sem igual
Pannonica, minha catedral
Quero viver
E também vou morrer
Sob as suas asas de cristal
Nuvem macia, lua cheia, paz e sol
Pannonica, meu céu azul
Sou um monge louco
Só penso no som
Nas esquinas mais brilhantes
Nos cantos do ar
Assim vejo você
Linda borboleta
Pronta pra me compreender
Eu e você
É, só tinha de ser
Notas simultâneas meio tom
Eu e você
Todo acorde é natural
Pannonica meu altar
Pannonica meu alto astral

* Péricles Cavalcanti é cantor e compositor, com parcerias e gravações ao lado de Caetano Veloso, Gal Costa e Augusto de Campos.

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