Márcio Pinheiro conta como a canção Cardo o Ceniza, de Chabuca Granda, foi inspirada pela trágica vida da chilena Violeta Parra
Para ser lido ao som de Dulce Pontes em Cardo o Ceniza
Cómo será mi piel junto a tu piel
Cómo será mi piel junto a tu piel
Cardo o ceniza
Cómo será
Si he de fundir mi espacio frente al tuyo
Cómo será tu cuerpo al recorrerme
Y cómo mi corazón si estoy de muerte
Mi corazón si estoy de muerte
Se quebrará mi voz cuando se apague
De no poderte hablar en el oído
Y quemará mi boca salivada
De la sed que me queme si me besas
De la sed que me queme si me besas
Cómo será el gemido y cómo el grito
Al escapar mi vida entre la tuya
Y cómo el letargo al que me entregue
Cuando adormezca el sueño entre tu sueño
Han de ser breves mis siestas
Mis esteros despiertan con tus ríos
Pero, pero
Pero cómo serán mis despertares
Cada vez que despierte avergonzada
Tanto amor y avergonzada
O amor (ou a falta de) mata. E depois inspira. Um grande exemplo dessa inspiração trágica e póstuma está em Cardo o Ceniza, canção escrita e interpretada por Chabuca Granda. E essa história envolve os seguintes personagens:
Violeta Parra, chilena nascida em 1917 numa família pobre e numerosa (11 filhos), aproximou-se ainda criança da música folclórica, muito inspirada por seu pai, Nicanor. Ainda adolescente, aos 12 anos, compôs suas primeiras canções e nem chegara à maioridade e já levava uma vida nômade, se apresentando em bares e circos.
Aos 21 anos já era casada, com o ferroviário Luis Cereceda, e com ele teve dois filhos, Isabel e Ángel. Pelos anos seguintes, Violeta se destacaria não apenas como grande intérprete da canção popular como também uma importante pesquisadora de ritmos, danças e composições do folclore chileno, chegando a catalogar cerca de 3 mil canções tradicionais. Com intensa participação em centenas de gravações, programas de rádios e turnês pelo Chile e pelo exterior, Violeta chegou à década de 60 como um nome consagrado.
Foi quando conheceu Gilbert Favré.
Musicólogo e antropólogo suíço, Gilbert Favré era 19 anos mais novo do que Violeta. Os dois se apaixonaram – ela com 43, ele com 24 – e passaram a tocar e a viver juntos. Como o relacionamento nunca foi dos mais tranquilos – lembrado em canções como Corazón Maldito e Maldigo del Alto Cielo – os dois ficaram apenas cinco anos juntos. Em 1965, Favré largou Violeta e decidiu se mudar para a Bolívia.
Violeta nunca se recuperou da separação. De volta ao Chile, tentou se reaproximar dos filhos e ter uma vida mais estabilizada, com menos andanças e viagens. É dessa época a criação de uma grande tenda, com capacidade para cerca de mil pessoas, onde ela abria espaços para outros músicos, como Rolando Alarcón e Víctor Jara.
Em 1966, Violeta fez uma tentativa de reatar com Favré. Eles voltaram a se apresentar juntos e chegaram a gravar um disco, Ultimas Composiciones (que trazia o registro de Volver a los 17), mas Favré deixou claro que, da parte dele, não havia nenhum interesse em retomar o relacionamento. Desiludida, Violeta suicidou-se em 5 de fevereiro de 1967.

Chabuca Granda – outro grande símbolo da canção latina, nascida em Apurímac, em 1920 – soube da história. Chabuca e Violeta não se conheciam pessoalmente, mas a morte da intérprete chilena deixou a compositora peruana impactada e comovida. E assim nasceu Cardo o Ceniza. Composta em 1973, quando Chabuca morava no México, Cardo o Ceniza é um landó, estilo sensual e rítmico da costa peruana.
Por um tempo acreditei que “cardo” ou “ceniza” fosse uma contraposição, sendo “cardo” algo que incendiasse uma paixão e “ceniza” algo que a arrefecesse. Conversando com meu amigo Eric Nepomuceno, grande tradutor, ele me alertou que a melhor definição para “cardo” seria “espinho”. Assim, a canção não seria sobre algo “quente” em oposição a algo “apagado” e, sim, entre algo que “fere” em oposição a algo que “se apaga, sem nada significar”.
Equilibrando o que Chabuca quis dizer – tendo a noção de que Violeta, em um primeiro momento, se fascinara pela paixão e depois dela se envergonhara – é possível concluir que Cardo o Ceniza não opunha o amor à dor, mas a dor ao nada. E daí surge uma nova pergunta, já formulada por William Faulkner: o que é pior?
