E a luta continua, cotidianamente, além das eleições (energizado por vida e obra de Aldir Blanc e Ney Matogrosso)
“Um dia, vivi a ilusão de que ser homem bastaria (…) que nada”, e agora, trocando para um dos filmebiografados de ontem, percebo que “Faltou quase tudo”. Este é o auto epitáfio de Aldir Blanc, no fim de sua derradeira entrevista, que também fecha “Resposta ao tempo”, o amoroso documentário de Marcus Fernando e Hugo Sukman exibido no início da noite de ontem no Festival do Rio.

“Corram atrás da vida”, aconselha ainda Aldir no fim da sua. Corram atrás desse filme. Terá mais exibições na cidade (procurem saber) e depois chegará ao cinema mais perto… Para cariocas, outra boa noticia foi anunciada antes da sessão: além de se integrar ao circuito do festival, a bela sede do Centro Cultural FGV (criação de Oscar Niemeyer), em Botafogo, vai incluir o cinema em sua programação.
Os diretores, o primeiro vindo da produção musical, o segundo, do jornalismo, nos últimos tempos também migraram para o cinema. Eles nos brindam com um retrato íntimo de Aldir, de quem se aproximaram como admiradores e logo se integraram ao séquito de amigos frequentadores do bunker do artista e família na Muda, uma das subdivisões da Tijuca. Para muitos, o bairro mais carioca e “expansionista do Rio”, impregnando dois outros nos quais Aldir também viveu, o Estácio natal e a Vila Isabel de Noel – e exportando muitos de seus novos ricos e remediados para a Barra… da Tijuca.
O bunker na Muda é municiado de centenas de livros. É lá que, ao lado da companheira, de muitas filhas e netos e da tal rede sempre renovada de amizades para toda a vida, ele compõe. Quase sempre largado na cama. Nós, que não tivemos o privilégio de bater ponto no apartamento e no botequim de rua que servia de segundo escritório, somos introduzidos na intimidade do letrista, baterista, cantor, cronista, escritor, médico psiquiatra, vascaíno.
Aos 73 anos, em 4 de maio de 2020, ele foi uma das 700 mil vítimas da pandemia. Meses antes, a última entrevista está misturada a outras através do tempo, alguns textos na voz do ator Humberto Carrão, trechos de shows informais e, entre os raros depoimentos de fora, o de Dorival Caymmi: “Aldir é carioca mesmo”. E, claro, tudo regado por muitas canções. Com João Bosco (presente na sessão de ontem), parceria que foi fundamental para ambos, e tantos outros fundamentais, em lista que ultrapassa 60 compositores. Daquele no primeiro sucesso, “Amigo é pra essas coisas”, Silvio da Silva Junior (que também marcou presença na estreia), aos outros dois com quem construiu parcerias monumentais, Guinga e Moacyr Luz. Mas, poderíamos falar também de Cristóvão Bastos, Ivan Lins, Edu Lobo… e até sucesso nas vozes do Roupa Nova, grupo no qual um dos músicos é irmão da deputada federal (e candidata de novo este ano) Jandira Feghali. Ela, mais uma na plateia, que foi a autora da Lei Aldir Blanc, criada na pandemia de COVID-19 para socorrer profissionais e espaços culturais com um repasse inicial de R$ 3 bilhões e se transformou em uma política permanente de financiamento.
O pós filme prometia, público recheado de amigos, muita gente ligada artisticamente a Aldir como Nei Lopes, Leila Pinheiro, Zé Renato, o artista plástico Mello Menezes, o poeta Salgado Maranhão, o jornalista Tarik de Souza, o pesquisador de imagem Antonio Venâncio, mas, a ideia era pegar outra sessão de gala.

E assim, trocar uma bolha por outra, no centenário e renascido Odeon, na emblemática Cinelândia, onde tivemos mais doses de amorosidade e verdade. “Ney por trás das máscaras”, de Esmir Filho e Thais Guisasola, tem como mote a homenagem ao jovial homem de 85 anos homenageado no carnaval de 2026 pela Imperatriz Leopoldinense.
Esmir (que dirigiu o biopic “Homem com H”, lançado em 2025) e Thais alternam os 13 dias que antecedem o desfile na Sapucaí com reveladoras entrevistas gravadas na cobertura do cantor no Leblon e na fazenda no estado do Rio. É nela, hoje uma reserva ambiental na qual a mata grossa e as fontes de água renasceram onde era pasto, que termina “Homem de H”. Mais precisamente, do lago no qual Jesuíta Barbosa (que encarna o cantor da estreia nos Secos & Molhados aos anos 1980) mergulha sai o jovial octogenário Ney de Souza Pereira.
“Por trás das máscaras” também termina nessa represa, logo após vislumbrarmos alguns segundos do monumental desfile. Mas, mesmo sendo um documentário, melhor não tirar a bela surpresa e dupla despedida usada como encerramento. Emoções que foram aumentadas pelo anúncio de que ontem seria o aniversário de 104 anos de Dona Beita, a mãe de Ney, que morreu em 17 de março.

Há também o registro do ensaio com Gil, os dois preparando o número que apresentaram na virada para 2026 na Praia de Copacabana, quando Ney cantou “Se eu quiser falar com Deus”. Naquele fim de tarde, por outro motivo, a gravação de um depoimento de Gil para um festival que, finalmente, deverá acontecer em novembro, “Fest in Brasil”, pude fotografá-lo. Ele vestia a mesma camisa que vemos em “Ney por trás das máscaras”, branca com o escudo do clube que também faz o L. Sim, por razões diferentes, mas, que não me canso de explorar, e irritar a parcela direitistas dos tricolores com quem cruzo às vésperas das últimas eleições.
Ateu de berço, agradeço à Padroeira e apelo para Jorge Ben e sua “Oração de São Jorge”. Também recorro a Cazuza (um dos amigos próximos de Ney), “o tempo não para”, e não avanço nas respostas a tantos estímulos desse documentário. E também aos muitos paralelos e diferenças possíveis entre Aldir Blanc e Ney Matogrosso.
O jornalista amador de música tem lado, e, ontem, repetiu no trajeto entre as bolhas a estratégia da última semana. Como o personagem retramusicado por Assis Valente, “Vestiu uma camisa (adesivada com Lula) e saiu por aí”, fazendo L, contato visual, puxando conversa. Como nos dias anteriores, o outro lado não mostra sua cara, é voto envergonhado, silencioso. Mas, há também genuinamente indecisos ou desinformados. Por isso mesmo, a luta continua. Vou descer para votar e tentar virar voto.

Obrigado e abraços solidários…
abraços