Festival do Rio: estreia política

“A bola preta”, filme espanhol inspirado em obra perdida de Garcia Lorca, dá o tom

Cena de “A bola preta”, filme espanhol que abriu o Festival do Rio 2026 / Reprodução

“A bola preta”, filme que na noite de ontem inaugurou o Festival do Rio, bateu como tacada certeira. Intencionalmente confuso, arrebatador em sua estética (imagens em movimento e sons, com muita música nas mãos e nas bocas de personagens) e triste demais, tem a ascensão do franquismo na Espanha e a morte de Garcia Lorca, fuzilado em agosto de 1936 em Granada, como pano de fundo.

Perto do fim das 2h35m do longa dirigindo pelos espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrosssi,  o poeta e dramaturgo dá as caras, em mais uma história que se mistura. Em preto e branco, são recriados seus últimos dias em Madri, servindo de chave para começarmos a decifrar o que vínhamos assistindo até então,  em três tramas que estão interligadas. 

“La bola negra”, a peça com personagem assumidamente gay na qual Lorca trabalhava nos meses que antecederam sua morte e da qual só sobreviveram quatro páginas, é uma das histórias, que acompanhamos em meio às idas e vindas do filme, entre a de um historiador contemporâneo e a do avô (que não conhecia e suponha morto), este em sua juventude, em plena guerra civil espanhola. Para não dar spoiler, melhor parar por aqui, mas, “A bola preta” (Trailer aqui) tem muito a ver com o momento que vivemos, às vésperas do primeiro turno da eleição de 2026, crucial para o Brasil, e para o mundo. 

Terminada a sessão, vamos ligando os pontos e digerindo o que vimos. Pena que a projeção do Odeon (que, em uma das boas notícias da noite, vai voltar ao circuito comercial de exibição) estivesse escura. Outra boa notícia, que só ficamos sabendo já na festa que se estendeu pela madrugada no Armazém da Utopia, foi o cancelamento do debate-arapuca da Rede Globo.  E, claro, sobre mais uma prova da covardia de Rachadinha.

A ideia, além de continuar atento e forte, em campanha pelo voto progressista nesse domingo, é acompanhar o que der no Festival do Rio. E, como fiz nas três últimas edições, focar nessa cobertura especial para a Revista AmaJazz filmes que têm a música como tema, sejam documentários ou ficcionais. 

No cardápio musical, entre outros, há filmes sobre Elza Soares, Ney Matogrosso (mais um dirigido por Esmir Filho, agora, documentando a preparação do cantor para o carnaval de 2026, quando foi o tema da Imperatriz Leopoldinense), Aldir Blanc, Alceu Valença, Belchior, Marília Mendonça, Flora Purim & Airto Moreira, Hyldon e, mais um da Espanha, o violonista flamenco Niño Josele. Este, “Bajañí”, é dirigido por Fernando Trueba, que, ligado na música brasileira, já fez filmes sobre Carlinhos Brown e o pianista Tenório Junior (mais sobre “Atiraram no pianista” no texto que foi publicado por AmaJazz em 5 de outubro de 2023: Retrato do pianista quando assassinado).

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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