Elizethíssima

Tárik de Souza mostra como a Divina é celebrada pela superlativa Mônica Salmaso

Para ser lido ao som de Mônica Salmaso em Senhora das Canções – Um Tributo a Elizeth

Foto: Reprodução

Se ainda era necessário, a parceria de Chico Buarque com Mônica Salmaso, no show do compositor Que tal um Samba?, em 2022, entronizou de vez a cantora paulistana no cume das intérpretes da MPB contemporânea. Curiosamente, numa espécie de rastro atrás, ela se volta para uma diva igualmente discreta e classuda, do mesmo porte estético, a carioca Elizeth (Moreira) Cardoso (1920-1990). Ela a reverencia no álbum Senhora das Canções – Um Tributo a Elizeth (Biscoito Fino), em que ilumina, longe do óbvio, parcelas do extenso repertório da incensada “Divina”, “Enluarada”, “Meiga”, “Magnífica”, que trafegou entre o samba canção, o choro, o samba então dito de morro, a bossa nova e os clássicos atemporais. “Só entendi, de verdade, o tamanho da Elizeth quando fui fazer a pesquisa de repertório para nossa homenagem”, destaca Mônica no texto de apresentação do álbum. Admirou-se em especial, com “a beleza do canto, a dignidade, o respeito pelo trabalho e pelos colegas, o profissionalismo vocal e de comportamento”.

Qualidades também atribuíveis à própria Mônica, iniciada numa releitura dos portentosos “Afro sambas” de Baden Powell e Vinicius de Moraes, em 1995, com o violão virtuose de Paulo Bellinati. E que seguiu, discos afora, sempre na régua alta, em nova releitura do mesmo repertório no Afro Samba Jazz, com Mario Adnet e Philippe Powell, mais Trampolim e Voadeira (ambas produções ecléticas do baixista Rodolfo Stroeter, do grupo Pau Brasil), continuou no Chico Buarque de Noites de Gala, Samba na Rua. E ainda: Corpo de Baile (inéditas de Guinga e Paulo Cesar Pinheiro) e os autoexplicativos Alma Lírica Brasileira, a bordo Teco Cardoso (saxes e flautas), e Caipira, com Rolando Boldrin, o pianista André Mehmari e o violeiro Neymar Dias.

Elizeth Cardoso em foto de 1955 (Arquivo Naciona/Wiki Media Commons)
Elizeth Cardoso em foto de 1955
(Arquivo Naciona/Wiki Media Commons)

Nascida no subúrbio de São Francisco Xavier, próximo à Mangueira (mas portelense de coração), para ajudar a família, Elizeth trabalhou desde os 10 anos. Foi vendedora, costureira de peles, cabelereira, operária numa fábrica de sabonetes. Mais tarde, tornou-se taxi-girl num dancing, remunerada a partir dos rodopios com os clientes. No aniversário de 16 anos, o pai seresteiro e tocador de violão, convidou Jacob do Bandolim, que seria seu futuro mentor. Com ele, faria um extraordinário show no Teatro João Caetano, em 1968, ao lado do chorão Época de Ouro e do bossanovista Zimbo Trio, comparsa de outros palcos, inclusive no Japão. Projetada no samba canção (Canção de Amor, do irmão de Chico Anysio, Elano de Paula e Chocolate), foi escolhida por Vinicius de Moraes para seu mítico songbook com Tom Jobim, Canção do Amor Demais, de 1958, um dos marcos fundadores da bossa nova, a partir da participação do violão de João Gilberto.

A faixa título do disco – em releitura abrasiva – é uma das escolhas do heterodoxo repertório selecionado por Mônica em Senhora das Canções. Do mesmo álbum e dupla autoral é a redentora e camerística Janelas Abertas, onde a cantora espraia-se por sua ampla latitude lírica: “Eu poderia ficar sempre assim/ como uma casa sombria/ uma casa vazia/ sem luz nem calor/ mas quero as janelas abrir/ para que o sol possa vir/ iluminar nosso amor”. O projeto nasceu numa visita da cantora a substancial Casa de Choro, no Rio, liderada por Luciana Rabello (cavaquinho) e Maurício Carrilho (violão de 7 cordas), que alicerçaram o instrumental do disco, ao lado de Paulo Aragão (violão, arranjos e direção musical), Aquiles Moraes (trompete e flugelhorn), Magno Julio e Marcos Thadeu (percussões). Somaram-se ao grupo inicial, Teco Cardoso (flautas) e Nailor Proveta (clarinete), que se destacam na etérea Lembre-se (“Tudo na vida tem fim/ só a beleza não se desfaz/ a flor colhida com mais amor/ é a flor que dura mais”), parceria de Moacir Santos e Vinicius de Moraes, de outro disco dela com obra do poetinha, o estupendo Elizeth Interpreta Vinicius”, de 1963.

Gravado pela homenageada, em 1957, o pré-modernista Noturno em Tempo de Samba” (“tarde da noite na rua deserta/ a vagar eu estou/ não tenho destino nem rumo/ não sei de onde vim/ não sei porá onde vou”), de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy, com leve marcação de tamborim e cama de sopros, inspirou os primeiros passos de outra diva digna de pedestal, Alaíde Costa. Exímia na emissão e controle vocal, Mônica desafia-se em duas heráldicas parcerias pouco lembradas e altamente elaboradas de Baden Powell e Vinicius de Moraes, Carta de Poeta (que Elizeth gravou em 1970) e Valsa Sem Nome (do disco de 1963). “É preciso coragem”, admitiu ela, que contou com as flautas de Nailor Proveta na travessia da segunda e o encordoado de Paulo Aragão na primeira. Embora minoritária na seleção, a faceta sambista da Divina desponta na belíssima ode à verde-e-rosa, Sei Lá Mangueira, curiosamente composta por um convicto portelense, Paulinho da Viola (com Hermínio Bello de Carvalho), e em Minhas Madrugadas (“Trago a face marcada/ cada ruga no meu rosto/ simboliza um desgosto”), essa de Paulinho e Candeia.

São preciosas oportunidades para Mônica exibir seu gingado minimalista, também implícito na cadenciada raridade Seresteiro (Zé Keti/ Renato Lima/ Raul Moreno), desempenhada por Elizeth no filme Carnaval em Lá Maior, de Adhemar Gonzaga, lançado em 1955. Mas na inesperada Deixa Pra Lá (dos mestres violonistas Dino e Meira), do repertório de outra diva, Isaura Garcia, imperam as síncopas nas quais Mônica também nada de braçada, como ainda na obscura A Mentira Acaba (Rui de Almeida/ Arnô Provenzano), de 1950, igualmente gingada, pontuada no tamborim. Outra surpresa é a revelação da Elizeth compositora, de Se as Estrelas Falassem (“Queria saber se as estrelas/ sofrem assim como eu por alguém”), gravada por Pery Ribeiro (e não pela autora), um samba canção lento, descortinado por violão com palhetadas de cavaquinho e calço de pandeiro.

Também fora do roteiro previsível, são a contrita seresta Nossa Senhora do Silêncio (“A lua rompe os breus e me conduz/ guiando os passos meus com sua santa luz”), tecida em fogo lento pela baixaria do violão, com breves comentários de sopros, e De Bem com o Amor (“E amor que é de verdade/ ainda é o amor que morre de felicidade/ e não de dor”), um samba cadenciado pelo pulso do tamborim. Ambas têm letras de Paulo Cesar Pinheiro, em parcerias respectivas com Maurício Carrilho e Luciana Rabello. “A Luciana e o Maurício tocaram com a Elizeth por anos, foram muito próximos dela, são compositores incríveis”, elogia Mônica no texto de apresentação do disco. “Achei bonito colocar no repertório músicas deles, inclusive pensando que Elizeth amaria cantá-las”, acredita. Senhora das Canções fecha em apogeu. Uma comovente aula de interpretação para o clássico Poema dos Olhos da Amada (“Que olhos os teus/ são cais noturnos/ cheios de adeus/ são docas mansas/ trilhando luzes, que brilham longe, longe dos breus”), de Vinicius de Moraes, musicado por Paulo Soledade, registrado no disco que conferiu à celebrada mais um superlativo, Elizethíssima (1981). Mônica flutua a altura destes píncaros, num diálogo alado com o trompete de Aquiles Moraes, autor do arranjo. Elizeth, penhorada, aplaudiria.

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Autor: Cássia Zanon

Tradutora e jornalista

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