Para lembrar Marcos Abreu

Profissional brilhante, o engenheiro de som que era um homem de vários talentos e muitos amigos morreu neste 3 de julho em Porto Alegre

Para ser lido ao som de Astor Piazzolla em Tristeza de un Doble A

Como fazer um minuto de silêncio para um amigo que estava sempre em busca do som perfeito? Essa procura era uma das marcas do Marcos Abreu, parceiro querido que morreu hoje, aos 64 anos. Para ele, o silêncio – o som perfeito? – foi uma obsessão e era também uma faceta de uma figura singular, um homem metódico, controlado (não gostava de beber e consumia apenas chá e água mineral) mas com quem eu dividia outras paixões comuns como relógios, tênis e carros antigos. 

Marcos Abreu – chamado por todos pelo nome e sobrenome, como se fosse um ainda mais único, Marcuzabreu – não gostava de futebol, implicava com determinados restaurantes e se irritava com toda espécie de ruído, desde os dos carros de som e aviões de propaganda que sobrevoavam os ares do seu Menino Deus até os das buzinas e sirenes que o atazanavam constantemente. 

Assim, o silêncio que ele sempre perseguiu serviu também como defesa nos últimos tempos. Discreto, Marcos não queria que sua doença fosse comentada e, menos ainda – soube hoje – gerasse alguma espécie de olhar misericordioso.

O profissional brilhante (a Casa da Ospa é um gigantesco exemplo do seu talento) estava em sintonia com uma outra faceta, a do engenheiro que sabia escrever. Fico feliz de ter editado alguns textos seus aqui na AmaJazz e de ter tido tantas e tão produtivas conversas sobre sons, discos, LPs e CDs, de Astor Piazzolla a Chick Corea, de Keith Jarrett a Stephane Grappelli.

Dele, guardarei dele o humor sutil, às vezes maldoso, mas sempre inspirado. Nos conhecemos há uns 20 anos. Fui a ele apresentado pelo Paulo Moreira. E, naquele mesmo dia, espantados por mais um relato de alguma crise envolvendo o nosso amigo, travamos o pacto de manter o Paulo afastado de novas confusões. Tarefa inglória e impossível de ser posta em prática, mas que deu a nós três, em especial ao Paulo, ótimas histórias para sempre lembradas. Me conforta saber que de alguma forma agora eles estão juntos.

E como diria o mesmo Paulo: Vai um abraço, Marcuzabreu! (Mônica: um beijo.) 

Clique aqui para ler os textos que Marcos escreveu para a AmaJazz

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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