Roncou de raiva, roncou de fome

Tárik de Souza mostra como, à sombra das cuícas imortais, livro perfila pioneiros do peculiar instrumento rítmico

Para ser lido ao som de Miles Davis em Feio, com participação de Airto Moreira na cuíca e também ao som de João Bosco em O Ronco da Cuíca

Dalila era uma pagodeira de fama, mulata alegre, rainha na roda do samba, mestra na cuíca

“Fui num pagode/a família deu um não/aqui não se quer cuíca porque não é barracão/fiquei sentido/coragem! Gritou meu mano/quem é rico paga orquestra/ quem é pobre molha o pano/é um abuso/e por demais autoridade/fazer pouco de quem é pobre/só por ter felicidade/não fiz barulho/porque me julgo decente/ tratei de molhar o pano / e gritei, vamos em frente!/molha o pano/pega na cuíca/puxa certo com cadência/veja o samba como fica”.

Este espetacular samba de Cândido Vasconcellos e Getúlio Marinho, o bamba apelidado “Amor”, ligado a umbanda e também cuiqueiro, foi cantado por Aurora (irmã de Carmen) Miranda numa cena do filme “Alô Alô Carnaval”, de 1936. Ele exorciza a discriminação social a um dos mais originais instrumentos da paleta rítmica nacional. Parte de sua fabulosa saga está contada no precioso livrinho Cuícas Imortais (Mórula Editorial, 136 pgs). Seus autores são diplomados no assunto. Alagoano de Penedo, radicado em Santos, J. Muniz Jr, jornalista escritor e estudioso da cultura afro-brasileira, acumula as habilidades de cuiqueiro, passista, mestre-sala, sócio benemérito do Salgueiro, agraciado com a Ordem da Águia da Portela, a Ordem do Samba da Mangueira, além de ter escrito dez livros sobre o samba, entre eles Do Batuque à Escola de Samba (1976) e Sambistas Imortais (1977). Seu parceiro no livro é o brasiliense Paulinho Bicolor, assim apelidado pelo pagodeiro Arlindo Cruz, especializado em cuíca que já integrou bateria de escolas de samba, grupos de choro e blocos de carnaval. Gravou com Beth Carvalho, Marcelo D2, Ivan Milanez e seu mestrado em música pela UFRJ teve a cuíca como objeto de estudo.

“A cuíca, um tambor de fricção bastante usado na percussão do samba, se desenvolveu no Brasil a partir de tambores centro africanos de Angola e do Congo”, situa o historiador Luiz Antonio Simas, no prefácio. “Há referências sobre instrumentos bastante parecidos oriundos de regiões onde viviam os kimbundos, ambundos e kiocos. Entre nós, o tambor dos bantos também foi chamado de fungador, tambor-onça, angona puíta, etc”, exemplifica ele. “Com o fim da escravização e o advento da República no Brasil, o samba passou a ser um espaço sociocultural da negritude, que se enriquecia simbolicamente cada vez mais nas grandes cidades”, descreve Eduardo Pontin do Instituto Cultural Glória ao Samba, na apresentação. “Embora perseguido e marginalizado, o samba sempre foi um meio festivo, uma reconexão ancestral espiritual. E lá estava a cuíca fazendo o centro desses memoráveis encontros com seus roncos marcantes e inigualáveis”.

Desfilam pelo livro personagens incandescentes, a começar por João Mina, a quem é atribuída a invenção do instrumento, num recorte do jornal A Nação, de 11 de janeiro de 1935. “Em 1905, no bairro do Agrião, nos fundos de uma cocheira foi feita por Mina a primeira cuíca, com a caixa feita de uma lata de manteiga”. Atribui-se também a ele, dentro da imprecisão de dados destes primórdios, uma das primeiras gravações da cuíca em discos, a batucada Era Meia-Noite, outra composição de Getúlio Marinho, lançada em maio de 1932, na voz do cantor Moreira da Silva. Além de batuqueiro, João Mina entrou para a história como um raro parceiro de Noel Rosa num dos primeiros partido-altos gravados, De Babado (“De babado sim, meu amor ideal/ de babado não”), de 1936. O próprio Noel registrou a música (que seria regravada por João Nogueira e Alcione, em 1981) com uma de suas cantoras favoritas, Marilia Baptista. Ambos os registros, assim como as gravações de Aurora e Moreira, podem ser ouvidos no caprichado livrinho apontando celular para o QR Code impresso.

Operário, oficial de caldeireiro, Deovirgilio Florentino de Carvalho inventou um novo tipo, a cuíca-tuba, no formato dos instrumentos de jazz band. Adaptada com uma campânula de tuba, a ideia do criador era amplificar o ronco original. Entre os cuiqueiros generalizou-se o hábito de utilizar campânulas semelhantes ao trumpete, duas, três, até cinco cornetas. Deovirgílio foi pioneiro, embora seu invento não tivesse dado certo na época. Mas ele baseou-se na percepção de que o instrumento, de início emitindo apenas sons graves desempenhava o mesmo papel da tuba nas orquestras, como afirmou a primeira revista de música do país, a Phono Arte, em 1931. Compositor de estirpe, (co-autor de Agora é CinzaA Primeira VezVelho Estácio, também parceiro de Noel e Cartola) o mitológico Bide (Alcebíades Barcellos), de ofício sapateiro, participou como cuiqueiro do grupo da Guarda Velha, ao lado de Pixinguinha e Donga. A foto do grupo publicada no Diário da Noite em 29 de outubro de 1931 seria uma das primeiras a documentar o instrumento, uma rústica cuíca de barrica, empunhada por Bide. O grupo se apresentou na própria redação do jornal e os graves da cuíca de Bide foram retratados na reportagem como o som de um contrabaixo. Bide também é o cuiqueiro que acompanhou Aurora Miranda em Molha o Pano no filme Alô Alô Carnaval”. “Até onde se sabe é a mais antiga imagem de um cuiqueiro em ação”, cravam os autores.

Outro que explorou possibilidades inusitadas da cuíca foi Paulo Campos. “Com tarraxas, como os pandeiros, em número de cinco, consegue já fazer o instrumento vibrar numa tonalidade certa na medida dos acordes que a música tiver”, registrou o jornal A Nação em 12 de janeiro de 1935. Mas Campos foi além, como ele próprio ensina: “Por observações nos saxes cheguei à conclusão que adaptando à caixa uma série de chaves, faria chegar à tonalidade que quisesse. (…) As chaves são como as do outro instrumento, forradas de lã para melhor vedarem o som”, prossegue o inventor da cuíca-sax. E anota: “a haste central pode ser de flecha, pouco aconselhável por sua pouca resistência, de guachimba, cuja casca é empregada na cordoalha e de taquara, como mais se usa. Deve ser tocada com um tecido de seda por ser esta fazenda a que mais faz sobressair o som. Deve ser encourada com pele de carneiro, por ser a mais resistente e mais fina”, comparou.

E tem mulher na parada? Tem sim senhor. Sempre sob as limitações da documentação escassa da época, fruto do preconceito e desinteresse, Cuicas Imortais focaliza Dalila, da escola de samba Recreio de São Carlos, perfilada pelo escritor Dalcídio Jurandir em edição do jornal carioca Tribuna Popular, de 9 de fevereiro de 1946: “Dalila era uma pagodeira de fama, mulata alegre, rainha na roda do samba, mestra na cuíca. (…) Era gaga, mas nem as mãos de um homem arrancavam como as de Dalila gemido tão humano do fundo da cuíca”. O capítulo é ilustrado com uma foto excepcional do jornal A Noite (2/3/1932) com Dalila empunhando uma cuíca de barrica ao lado de Dila (irmã?) a bordo de um tamborim quadrado, ambas à frente de uma casa de pau a pique.

Esgrimindo contra a imprecisão dos dados fragmentados que restaram destes personagens, J. Muniz Jr. e Paulinho Bicolor investigam os mistérios que envolvem Chico da Cuíca ou simplesmente Chico Cuíca, cujo nome poderia ser Francisco Zeferino de Souza. Sua cuíca virtuosa roncou no espetáculo musical Favela em São Paulo, produzido em 1939 pela sucursal paulista da rádio Tupi, reunindo ases como Francisco Alves, Trio de Ouro, Henricão e Carmen Costa. No ano seguinte, na voz do cantor macumbeiro J.B de Carvalho, foi lançado Dormindo Sonhei, rara obra em que Chico aparece como autor, ao lado de Paquito e Romeu Dias. A ele atribui-se ainda (sem comprovação definitiva) a aplicação do nó de porco para amarrar a haste de fricção da cuíca diretamente no centro do couro, substituindo o precário pedaço de arame que se usava antes. Com a iniciativa, “a cuíca se tornou um instrumento com maior consistência de timbres e amplitude de volume e tessitura”, detalha o livro.

Boca de Ouro foi um cuiqueiro ainda mais famoso, principalmente entre as décadas de 1940 e 1950, e de trajetória igualmente nebulosa e final trágico. Ele se dizia de sangue azul, algo insinuado pelo pomposo nome, Sebastião Clemente Castello Branco Villaça, talvez parente do general Castello Branco, primeiro governante da época da ditadura militar. Um dos astros do instrumento, apelidado de Rei da Cuica, Boca de Ouro (talvez pelo revestimento metálico em seus dentes) “foi um precursor na técnica de transpor para o rude tambor melodias de instrumentos harmônicos, alçando a cuíca ao pedestal de instrumento solista”, escrevem os autores. Boca, que participou de filmes como Berlim na Batucada (1944), Sai da Frente (1952) e Quem Roubou meu Samba (1959) registrou Agora é Cinza (Bide e Marçal) em solo de cuíca com a orquestra do maestro Peruzzi, em 1958. A despeito do longo apogeu, o fim do músico foi devastador, como guardador de carros, morando num cortiço no centro do Rio: morreu assassinado com a cabeça esfacelada enquanto dormia.

De outro tipo de estirpe nobre era José Santiago da Silva, o cuiqueiro Ministrinho, um dos netos da matriarca Tia Ciata, em cujos terreiros na chamada Pequena África, nos arredores da Praça Onze carioca, o samba teria surgido. Ele aperfeiçoou sua arte, nascida em berço esplêndido, quando formou uma inusitada dupla com Raspa Cuia, que utilizava um instrumento de tarraxa de onde extraía um som fino. Era Ministro nos graves e Raspa Cuia nos agudos. Adiante, Ministrinho lapidou o estilo que chamou de “burugundum”, que “saia fora do acompanhamento chato que os outros faziam”, como ele disse em entrevista para a revista Veja em 1971. Um depoimento ao co-autor do livro, Paulinho Bicolor, do baterista Wilson das Neves, lança mais luzes sobre o perfilado e instala um outro instrumento na comparação com o protagonista do livro: “Tocava muito bem, porque tocava em todas as regiões. Tem gente que só toca no agudo, né? Ele não, usava a extensão toda como se fosse um trombone de vara”.

Malandro do velho estilo, conjugava o terno de tropical inglês com a cafetinagem e o jogo, onde ganhou e perdeu grandes somas. Chegou a formar um efêmero trio com Cartola e Paulo da Portela, em 1941, excursionou pela Europa, América do Sul, e participou de seis filmes, entre eles o inacabado It’s All True, de Orson Welles e Mulher de Fogo, com Ninon Sevilha. Com o grupo Roda da Gente Bamba, ao lado do primo compositor Bucy Moreira, Elizeu e Arnô Carnegal, recepcionou o papa do bepop Dizzy Gillespie num show na revista Manchete, que deixou o jazzista extasiado. Desfilou empunhando a cuíca por sua escola de samba Mangueira e chegou a participar de gravações de Chico Buarque e Beth Carvalho.

O instrumento é personagem principal de um samba clássico de Noel Rosa, Triste Cuíca, em parceria com Hervê Cordovil. Sua mais fiel intérprete, Aracy de Almeida, o registrou em 1935, e exalta o acompanhante em entrevista para a revista Carioca, em 14 de novembro de 1953. “Para esta gravação foi escolhido o maior cuíca de todos os tempos, o Oliveirinha”. Ela se refere a Marcelino de Oliveira, o Oliveira da Cuíca, um dos primeiros a utilizar o instrumento (que foi pioneiro em fabricar) como sobrenome artístico. Ele também chegou a formar um trio vocal instrumental com dois outros Oliveiras, os compositores Agenor (o Cartola) e Wilson Baptista (de Oliveira). Em 1937, esteve em Montevideo, no Uruguai, empunhando a cuíca virtuose (“com movimentos de pressão intermitentes no centro do couro pela parte externa do instrumento tornou possível criar variações nas frequências sonoras”), ao lado de Heitor dos Prazeres Marilia Baptista e Paulo da Portela.

O potente livrinho traz ainda perfis do campineiro radicado em Santos, Generoso Bueno da Silva, o Generoso da Cuíca (que chegou a acompanhar Carmen Miranda, Chico Alves e internacionais como Libertad Lamarque, Pedro Vargas e a rumbeira Cuquita Carballo), afamado por ter solado o Hino Nacional Brasileiro no Instrumento. E Pedro Moreira, o Pedro da Cuíca. Notabilizou-se a bordo de sua lustrosa cuíca de barrica negra, que além dos aros e tarraxas de aperto tinha uma armação geométrica de barras metálicas envolta em seu bojo. Como integrante do conjunto Regional Pixinguinha acompanhou luminares como o violonista Laurindo de Almeida, e os cantores Cyro Monteiro e Odette Amaral. Destes fabulosos e percursores cuiqueiros do livro até chegar à épica gravação do multipercussionista catarinense Airto Moreira, nos EUA, tocando cuíca com Miles Davis, no disco Bitches Brew, de 1970, o peculiar instrumento nunca deixou de imprimir sua marca indelével. É como o exaltaram João Bosco e Aldir Blanc no estupendo O Ronco da Cuíca, de 1976: “roncou, roncou/roncou de raiva a cuíca/roncou de fome/alguém mandou/mandou parar a cuíca, é coisa dos home”.

Nenhum pensamento

Deixar mensagem para Vera Lucia Glasser Dutra Cancelar resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.