Antônio Carlos Miguel lembra de dois vizinhos inesquecíveis

Em cartaz no MUBI, rever O bandido da luz vermelha engatilhou uma sequência de lembranças. Lá estavam, antes de os conhecer, dois amigos que, a partir dos anos 1980, também foram nossos vizinhos em seus últimos anos de vida. O protagonista, Paulo Villaça, em seu maior papel nas telas e, entre os muitos coadjuvantes, encarnando o repórter, Ezequiel Neves. Este, na época das filmagens do clássico de Rogério Sganzerla, entre 1967 e 68, começava a trocar a profissão de ator pela de jornalista especializado em música. Como se sabe, Zeca saiu da BH natal, onde brilhava desde a adolescência como precoce escritor e depois ator, para atuar nos palcos de São Paulo, contracenando até com a mítica Cacilda Becker no TBC e também trabalhando com Antunes Filho.

Inquieto sempre, Ezequiel acabou migrando do jornalismo para a música, como produtor de, entre outros, Made In Brazil, Barão Vermelho e Cazuza – com os dois últimos também contribuiu na criação de canções como Por que a gente é assim?, Codinome Beija-flor e Exagerado.
Ezequiel chegou ao Rio no início dos anos 1970 arrastado por Luiz Carlos Maciel, que o convidou para dividir a edição brasileira da revista Rolling Stone, e fincou raízes. Quem frequentava o circuito de shows e as Dunas da Gal não ficava imune à figura pra lá de elétrica, que, para nós, adolescentes, era um ídolo ainda inatingível. Até que, em 1976, engatinhando na imprensa alternativa, emplaquei um texto sobre Jim Morrison e os Doors no Jornal de Música, que ele editava junto a Ana Maria Bahiana e Tárik de Souza. Tema que veio a calhar, sem saber disso quando ofereci a pauta, o disco de estreia dos Doors, em 1967, foi o responsável por virar a cabeça do até então jazzófilo Ezequiel, que só a partir daí mergulhou no rock.
No dia desse nosso primeiro encontro, após ter meu texto lido e aprovado, para tirar onda, impor algum respeito, perguntei se ele também fazia literatura, convidando-o a colaborar na Revista Ficção (que meus pais, Eglê e Salim, editavam com o casal Laura & Cícero Sandroni e o escritor de sci-fi e crítico Fausto Cunha). “Garoto, tudo que eu escrevo é ficção!”, respondeu no alto tom característico.
Cerca de cinco, seis anos depois, já morando num morro entre Copacabana e Ipanema, K e eu indicamos a Zeca, então procurando apartamento, um prédio no outro lado da rua. E foi ali que, entre 1981 e 2010, ele passou os últimos 28 de seus 74 anos. Uns tempos depois, Paulo Villaça se mudaria para outro quarto e sala no mesmo prédio. Onde viveu até a morte, aos 58 anos, em 1992.

Rever os dois agora, desencadeou esse fluxo memorialista. E confirmou o quanto é delirantemente bom o longa de estreia desse catarinense, nascido em Joaçaba. Vencedor do Festival de Cinema de Brasília em 1968 (segundo tia Wiki, troféus para direção, filme, montagem e figurino), lembro-me do comentário de mama ao ver o jovem (então aos 22 anos) e laureado diretor na TV. “Que cabelo é esse, Rogério?”.

Mais um talento precoce, ainda adolescente, Sganzerla publicara alguma coisa sobre cinema acho, em outra revista que Eglê e Salim editaram, a Sul, que, a partir de Florianópolis, circulou pelo Brasil e pelo mundo entre 1948 e 1957.
A cena de Paulo Villaça com Helena Ignez usada para abrir esse artigo parece dialogar com um quadro que fica ao lado da TV. Ganhamos (meio à força), lá pelos anos 1990, de Lilian Santos, que, provavelmente, se inspirou na mesma foto (de Bruce Davidson) escolhida por Bob Dylan em 2009 para a capa do álbum Together through life.
PS: Também impactante o novo de Kleber Mendonça Filho, Retratos fantasmas, em alguma sala de cinema próxima.
PS: corrigido nesse sábado 16. É enciclopédia, portanto, tia Wiki.

Muito bom!!!!!!!