Aventuras de um caçador de vinis

Roberto Muggiati mostra o lado jazzístico de Andy Warhol, o pintor mais caro do mundo

Para ser lido ao som de Johnny Griffin em I’m Glad There’s You

Foto: Reprodução

Em julho de 1958, liberado do CPOR, aderi a um costume curitibano: passar as férias de julho no Rio. Num bom hotel na orla de Copacabana – já trabalhava e tinha meu dinheirinho e a passagem de avião naqueles (bons) tempos o jornalista tinha de graça. O DC3 era um luxo e eu fazia uma escala de dois ou três dias em São Paulo, para tomar uns uísques na sucursal do Jornal do Brasil com meu amigo e guru Zen Nelson Coelho, que apadrinhou minhas primeiras colaborações no SDJB, e comprar LPs na Brenno Rossi ou na Bruno Blois.

No Rio, eu contava com um super-cicerone, o Zé Mota, a quem eu ciceroneava em suas incursões curitibanas, onde era aparentado com os Carias. A entourage do Zé Mota era rica, em todos os sentidos. Um de seus amigos – cujo pai fornecia madeira, cimento e ferro para a construção de Brasília – morria de paixão pela cantora Marisa Gata Mansa. Toda vez que ela estreava um show, meu xará abarrotava a boate de braçadas de rosas de todas as cores.

Mal chegava do aeroporto, eu largava as malas no hotel e saía para as lojas de discos importados de Copacabana. Vocês não reconheceriam o Rio daquela época. A capital federal era uma cidade limpa e civilizada, primeiro mundo, dava gosto caminhar por suas ruas. No primeiro garimpo, encontrei uma joia rara: um LP do Johnny Griffin, do selo Blue Note, The Congregation, com a capa desenhada por um iniciante fortemente influenciado pelo estilo do mestre David Stone Martin: um tal de Andy Warhol. Warhol acaba de se tornar o pintor americano mais caro do mundo, com seu retrato de Marilyn Monroe. Pouca gente sabe que o filho de imigrantes da Eslováquia de sobrenome Warhola começou a carreira desenhando capas de LPs de jazz.

Horas depois de comprado, meu vinil estreava num aparelho de som com tecnologia de ponta num apartamento da Vieira Souto, de um empreiteiro amigo do Zé Mota que participava da construção de Brasília.

Ouvindo esta faixa do álbum de Griffin, vocês podem sentir toda a pujança do estéreo da Blue Note. (E a qualidade dos músicos, o pianista Sonny Clark e o baixista Paul Chambers, mortos precocemente aos 31 e 33 anos por uso de drogas.) Eu mal podia imaginar que apenas quatro anos depois – trabalhando no Serviço Brasileiro da BBC em Londres – teria o privilégio de ouvir no Ronnie Scott’s, da fila do gargarejo, um mês inteiro de Johnny Griffin, o Little Giant. Foi em novembro de 1962. No mês anterior, quem ocupou a cátedra do Ronnie Scott’s foi Dexter Gordon.

Parodiando a letra de Street Fighting Man dos Rolling Stones, mas o que pode um garoto pobre fazer na sonolenta London town, a não ser ouvir ao vivo e caçar discos dos grandes tenores do jazz?

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