Faíscas

Antônio Carlos Miguel conta como Sparks/Annette abre a cabeça de um cricrítico para a obra dos velhos irmãos Mael

Para ser lido ao som de Sparks em Annette

Detalhe da imagem do cartaz do filme Annette (Reprodução)

Experts em musicais andam esgrimindo sobre a nova versão de West Side Story. Entre as razões, o fato de ter a direção de Steven Spielberg e seu lançamento ter coincidido com a morte de Stephen Sondheim. Como sabemos, esta foi a estreia deste na Broadway (e em Hollywood), mesmo que ainda pela metade (ou por um terço), apenas como o letrista para o argumento de Jerome Robbins e a música de Leonard Bernstein. Logo, Sondheim se mostraria o mais completo autor do gênero em atividade, criando argumento, letra e música e o diabo a quatro, indo muito além de temas e enfoques habituais.

Mas, não vim aqui chover no molhado. Não assisti ainda à refilmagem e musical nunca foi minha xícara de chá, mesmo que tenha embarcado com prazer em alguns. Caso do recente Annette, filme que me trouxe aqui nesse início do enigmático 2022, debut na língua inglesa do diretor francês Leos Carax, estrelado por sua conterrânea Marion Cotillard e pelo ianque Adam Driver, o sarado da vez e bom ator idem em Hollywood. Caí nos encantos por sugestão do amigo e expert em cinema Rodrigo Fonseca, que, em meio às mensagens de virada de ano, e após eu ter encarado (e adorado) o antimusical Beginning (da diretora georgiana Dea Kulumbegashvili), mandou um “tente ver Annette, lá na MUBI”.

Dica aceita, de quebra, com cinco décadas de atraso, fui apresentado a Sparks, banda que sempre fizera questão de detestar sem parar para ouvir direito. Autores de argumento, música e letra (com alguns pitacos de Carax) de Annette, eles também participaram das gravações da trilha e em cameo appearances no filme. Na verdade, falamos de um duo, os irmãos californianos Mael: Ron (12/8/1945, teclados, principal compositor e um bigode hitleresco, provavelmente, uma das razões para ter ignorado o grupo por tanto tempo) e Russell (5/10/1948, voz).

Com a Covid-19, passeando pelo alfabeto grego e nos segurando em casa, outro trunfo da plataforma (não, não estou recebendo pela propaganda), é o fato de muitos dos títulos ofereceram após a sessão entrevistas com seus diretores e/ou atores. Escolhidos para as extras de Annette, os brows Mael contam que o projeto começou a nascer para o palco após experiência anterior, The Seduction of Ingmar Bergman, em 2009, encomendada por uma rádio sueca, não ter chegado aos teatros. O elenco grande (12 atores) inviabilizou a montagem, restrita à transmissão radiofônica e um disco. Na tentativa seguinte, voltaram com três (e meio) protagonistas para a história de amor e terror vivida por um comediante de stand-up e uma cantora lírica, mais a filha bebê, a tal Annette. Esta, mesmo sendo uma marionete, tem a grande atuação do elenco, é o principal charme, o it da coisa toda, e “o meio” na conta – o terceiro personagem é um pianista e maestro (na pele de Simon Helberg).

Em 2016, o argumento – que por questões de praticidade (e legais) já previa bonecas no papel de Annette, do nascimento até cerca de cinco anos – acabou nas mãos de Carax. Aficionado do grupo, ele utilizara uma canção dos Sparks na trilha de filme anterior e, tempos depois de receber e ler, surpreendeu a dupla dizendo que ali estaria seu novo filme. A produção começou a ser rodada em 2019 e a estreia aconteceu no Festival de Cannes de 2021, de onde o realizador saiu com o prêmio de melhor direção.

Mas, não vim aqui para enveredar por crítica de cinema – e o longo longa de Leos Carax também tem gerado calorosos fla-flus. Musical e thriller psicológico, Annette é também crítico de um mundo coalhado de celebridades e sua rede de auto-alimentação, influencers digitais, monetização de corpos e almas, machismo e o escambau. São 140 minutos capazes de arrebatar mesmo quem não é ligado ao estilo. E mudar de opinião sobre os Sparks, após uma imersão por meia dúzia de seus discos nos primeiros dias desse complexo 2022.

No fim dos anos 60, com o nome de Halfnelson e mais três músicos completando um quinteto, o grupo chamou a atenção de Todd Rundgren, produtor do primeiro álbum, lançado e ignorado em 1971. Um ano depois, rebatizado como Sparks (Faíscas), grupo e disco tiveram nova chance e gravadora, com pelo menos um sucesso nas rádios, Wonder Girl. Contabilizando mais de duas dezenas de álbuns (alguns com a produção de Giorgio Moroder e Tony Visconti), sempre foi teve maior aceitação na Inglaterra e na Europa em geral do que em seu país natal.

É possível um paralelo com grupo estadunidense surgido na mesma época, Steely Dan, que também começou com formação maior e seguiu como dupla, os amigos de adolescência Donald Fagen e Walter Becker (este, morto em setembro de 2017). Ambos vão muito além do rock no qual podem genericamente serem catalogados. Só que enquanto o Steely Dan (com sucesso maior, cultuado mundo afora) parte de r&b, doo-wop e jazz dos anos 1950, cercado em suas gravações de grandes jazzmen, os Sparks têm como referência o progressivo, na variante ópera rock, e a Broadway. Na adolescência vivida na ensolarada Califórnia dos anos 1960, os Mael trocavam o folk e pop locais pelos britânicos Who e Move e por estranhos no ninho do rock como Sondheim e Lloyd Weber.

Musicalmente, o Queen, que estreou em disco dois anos depois, partiu e usou das mesmas referências, conseguindo números de vendas e reconhecimento crítico muito maiores. Só que enquanto este parou de produzir novo repertório após a morte de Freddie Mercury, o catálogo dos Sparks não para de aumentar e evoluir artisticamente. Esta, segundo a opinião de alguém que até então sempre ignorara o grupo, após navegar por alguns dias pela discografia, toda disponível no streaming. Para quem não é fluente no inglês, as letras das canções a um toque no mousepad, acompanhadas como às de um libreto na plateia, ajudam a entrar no clima de humor agudo e crítico. Para ficar em exemplo que de alguma forma antecipa Annette, o álbum Lil’ Beethoven (2002) é outro projeto conceitual, orquestral e pretensioso. Capaz de, em What are all these bands so angry about?, citar na mesma letra “Beethoven, Coltrane ou Lady Day; Wagner, Tatum ou Howlin’ Wolf”. Apresentar personagem autossuficiente como o de I Married Myself, capaz de “ser muito feliz junto, longas caminhadas na praia, jantares à luz de vela no lar, adoráveis momentos”.  Ou, segundo The Legend of Lil’ Beethoven, um tataraneto nova-iorquino de Ludwig. Este, na luta contra o início da surdez, teria viajado secretamente aos EUA para se consultar com um especialista. O tratamento não funcionou, mas, ao conhecer biblicamente a bela filha do médico deixou descendência no Novo Mundo. 

Mais restritos aos limites do pop-rock, outros títulos funcionaram para a tardia introdução. Lançado em 2015, FFS é álbum e projeto que os une ao quarteto escocês nascido três décadas depois Franz Ferdinand. Os seis dividem composições, gravações, rostos nas capas e as iniciais dos nomes de seus grupos.

Mesmo sem a ajuda de jovens discípulos (por sinal, nos 80, os Smiths Morrissey e Marr já faziam loas aos Sparks), a variante pop-rock deles também se garante. Tanto em álbuns iniciais (Kimono my House, 1974) quanto no penúltimo (A Steady Drip, Drip, Drip, 2020). Neste… “deixe a porra de seu iPhone de lado e me escute”, pedem os setentões em iPhone, flagrante da alienação cada vez maior dos humanos nessa que seria a era da comunicação. Ligadões e desconectados da realidade.

PS: após despachar para o editor o texto acima, fui conferir The Sparks Brothers, longo documentário (2h20m) dirigido por Edgar Wright e também lançado em 2021, e recomendo muito.

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