Mozart de patins

Eduardo Osório Rodrigues homenageia a memória e o estilo do crítico Nat Hentoff, falecido há cinco anos

Para ser lido ao som de Miles Davis e Gil Evans em Sketches of Spain

Nat Hentoff escrevendo sobre músicos de jazz é Mozart andando de patins. Na sexta-feira, 7 de janeiro, completaram-se cinco anos da morte desse jornalista, historiador, romancista e crítico de Jazz, um dos que melhor entendeu e escreveu sobre a arte de Charlie Parker, Duke Ellington e Billie Holiday.

No curso desse gênero musical, sua prosa flui naturalmente. Dá sentido à travessia. Nat tinha estilo. Usava figuras de linguagem para a expressão articulada de um ponto de vista único. Além de criar imagens que facilitavam a compreensão de suas ideias, elas, as metáforas, davam mais expressividade e beleza aos textos. Veja como ele descreve as qualidades do saxofonista Paul Desmond: “Paul fazia um som adorável no sax alto. Por exemplo, ele estava apaixonado por Audrey Hepburn. Não que tivesse acontecido alguma coisa entre eles, mas a música dele era como quando ela aparecia na tela: havia leveza, porém substância ao fundo. Realmente muito lírica”.

Se você quiser saber mais sobre Nat, assista ao documentário The Pleasures of Being Out of Step, de David L. Lewis (à venda na Amazon). Lançado em 2014, o doc de 85 minutos é uma boa porta de entrada ao trabalho do crítico que morreu em 2017, aos 91 anos.

Segundo colegas do finado Village Voice, tabloide alternativo norte-americano que encerrou as atividades no final de agosto de 2018, Nat era um “homem em forma de arco com rosto de profeta do Antigo Testamento, um tipo de rabino secular”.

Autor de vários livros, Nat trabalhou por 50 anos no Village escrevendo sobre política, direitos civis e, claro, sobre jazz, sua grande paixão. Ferrenho defensor da liberdade de expressão, o prolífico jornalista também colaborou com a Down Beat, Jazz Review, Wall Street Journal, Washington Post, New Yorker e outras publicações. São antológicos os textos que escreveu para discos de Bob Dylan, Miles Davis, John Coltrane, Aretha Franklin, Ray Charles, Max Roach.

O trailer do documentário (www.youtube.com/watch?v=bRL2ZMaTf00) é um passeio pelo melhor que a música norte-americana produziu e que mereceu a atenção desse grande crítico. Até o sisudo e irascível Stanley Crouch (1945-2020) se derrama em elogios ao colega. Crouch afirma que as anotações de Hentoff para Sketches of Spain marcam a primeira vez que um crítico realmente entendeu a grandeza do que Miles Davis e Gil Evans estavam fazendo.

Nat Hentoff morreu em casa, cercado por familiares. Segundo um de seus filhos, ouvindo Billie Holiday. 

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