Duas ou três coisas que sei sobre Jorginho Guinle

Roberto Muggiati lembra das visitas que o playboy fazia à redação da Manchete

Para ser lido ao som de Benny Golson e Curtis Fuller em One More Mem’ry 

Arte: Daniel Kondo

Pandemia pede papo furado.

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  • A morte de Slide Hampton me levou à morte de outro grande trombonista, Curtis Fuller, em maio deste ano. E daí ao álbum que ele lançou com o saxofonista Benny Golson em 1982, One More Mem’ry, que repercutiu no Brasil por motivos extramusicais. A capa do LP mostrava Golson e Fuller com seus instrumentos sentados numa poltrona ao lado de uma cômoda, sobre a qual repousa, como num altar, no centro exato da foto, um exemplar do livro Jazz Panorama, de Jorge Guinle. 
  • Frequentador de clubes de jazz de NY a LA, Jorginho fez amizade com alguns dos maiores músicos. Uma foto publicada com frequência nos livros de jazz o mostra, com a mulher Dolores, jantando em Nova York na companhia de Dizzy Gillespie e Charlie Parker, a dupla dinâmica do bop. Ocupou até página dupla no livrão cult To Bird With Love, publicado pela viúva do músico, Chan Parker, e pelo artista gráfico Francis Paudras, o “anjo da guarda” de Bud Powell em Paris, que inspirou o filme Round Midnight.
  • Jorginho Guinle viajava no Super Chief, o “Trem das Estrelas”, que ligava Los Angeles a Chicago, em 15 de dezembro de 1943, quando o famoso pianista e compositor Thomas “Fats” Waller morreu a bordo, de pneumonia, aos 39 anos. Fats voltava para Nova York depois de assistir ao lançamento do filme musical Stormy Weather (Tempestade de Ritmo), em que contracenava com Lena Horne e Cab Calloway.
  • Editor durante anos da Manchete, eu recebia a visita de Jorginho toda vez que publicava alguma reportagem sobre ele – e foram muitas, era impossível, numa revista semanal ilustrada, escapar ao apelo da celebridade. Gentleman como poucos, ele me agradecia pela matéria, mas fazia um pedido, quase choramingando: “Muggiati, só me faça um favor, não publique tantas fotos de ex-mulheres e ex-namoradas. A Maria Helena sofre de um ciúme retrospectivo, dá sempre confusão…” Sabendo da minha paixão pelo jazz, convidava-me insistentemente para ir tomar uísque e ouvir uns discos com ele ao sair da Manchete, que ficava a algumas centenas de metros da sua supercobertura na Praia do Flamengo. Acenava-me com gravações raras de Tommy Ladnier, Jimmy Noone, Johnny e Baby Dodds – figuras lendárias do jurássico de Nova Orleans. Logo eu, cuja praia eram boppers como Diz, Bird, Monk e Miles. Arrependo-me de nunca ter ido e conhecido mais de perto aquela figura estelar do café society carioca. Um cidadão do mundo cordial e filósofo cheio de autocrítica, capaz de frases como esta: “Nenhum playboy de hoje pode ser meu sucessor. Todos têm um grave defeito: eles trabalham”.

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