Um gordo com jogo de cintura

Roberto Muggiati lembra o pianista, organista, cantor e compositor, Thomas Wright “Fats”  Waller, um artista que viveu pouco, mas viveu bem. Da religião, aproveitou o melhor: a música

Para ser lido ao som de Fats Waller em Honeysuckle Rose

Capone manteve Fats Waller em clausura artística durante três dias, enfiando notas de 100 dólares no seu bolso a cada canção tocada (Ilustração: reprodução do livro Primeiros Encontros, de Nancy Caldwell Sorel e Edward Sorel)

O pai era pastor batista no Harlem e aos 10 anos Fats acompanhava os serviços ao órgão e dava concertos de piano na escola. Aos 15 anos, tornou-se o organista no Lincoln Theatre, “pilotando” o grande órgão Wurlitzer durante a projeção de filmes mudos. Um ano depois, ganhou um concurso de jovens talentos tocando um ragtime do pianista James P. Johnson, seu protetor. Por essa época, gravou seus primeiros rolos de pianola, cerca de US$ 20 a US$ 100 cada. Ainda adolescente no início da década de 20, batizada de A Era do Jazz, Waller celebrizou-se não só como intérprete, mas como um compositor veloz e prolífico. Fez sucesso também no vaudeville com dois musicais famosos, e antes do final da década, mudava-se do gueto negro do Harlem para a seletiva área de Long Island, onde instalou um órgão Hammond em casa.

Com fama internacional, Waller excursionou pela Europa nos anos 30, aparecendo nas primeiras transmissões experimentais de televisão em Londres e tornando-se o único músico de jazz da história a tocar o órgão da catedral de Notre Dame de Paris. (Seu relato do episódio é típico: “Primeiro Monsieur Dupré (o organista da catedral) tocou a ‘Caixa de Deus’ e depois eu sentei-me e também toquei a ‘Caixa de Deus’”). Amigos diziam que “o órgão é seu instrumento do coração e o piano do seu estômago”. E o estômago de Fats era insaciável. Correm histórias de que, às vezes, ingeria de uma sentada vinte hambúrgueres, ou quatro ou cinco filés, ou frangos inteiros, com tortas e sorvetes de sobremesa, tudo regado a muito uísque.

Fats tinha um apetite descomunal pela vida, fiel ao seu lema “Living the life love”, “Vivendo a vida que eu amo”. Ficava dias acordado em jam sessions movidas a álcool e depois passava dias inteiros na cama, nem sempre sozinho. O apelido não era à toa: com toda essa comilança, seu peso oscilava entre os 130 e os 140 quilos.

Certa vez, comeu nove hambúrgueres gigantes de uma enfiada e, sem dinheiro para pagar, passou a conta para um músico amigo que o acompanhava. Fats não demorou a pagar a dívida, compondo nove canções, que o amigo registrou como de sua autoria. Foi assim que clássicos da canção americana como On the Sunny Side of the Street I Can’t Give You Anything But Love, criações de Waller, entraram para a história como composições de outros autores.

Em 1943, foi a Hollywood participar do filme Stormy Weather (Tempestade de Ritmos), que incluiu uma versão da sua famosa canção Ain’t Misbehavin. Voltando de trem para Nova York, a bordo do famoso expresso Santa Fe Chief, Fats Waller morreu de pneumonia. Tinha 39 anos, intensamente vividos. Além da música maravilhosa que legou para o mundo, deixou admiráveis lições de generosidade e, principalmente, de agilidade mental. Eis alguns exemplos: Era lendária a velocidade com que Fats Waller escrevia canções de alta qualidade. Certa manhã acordou com um tema na cabeça e em pouquíssimo tempo compôs Jitterbug Waltz, o primeiro tema de jazz em ritmo de valsa. Conta seu filho Maurice: “Recordo em particular uma manhã de domingo. Papai levantou-se e desceu as escadas até o órgão Hammond que tínhamos em casa. Eu tinha 13 anos. Chamou-me para ouvir uma nova ideia e em cerca de dez minutos a canção estava pronta. Era Jitterbug Waltz”.

Quando o dinheiro acabava, Fats sabia correr atrás, literalmente. E o mesmo talento tinha seu parceiro letrista, Andy Razaf. (Seu verdadeiro nome era Andréa Menentania Razafinkeriefo, sobrinho da rainha Rànavàlona in de Madagascar e neto do cônsul madagascarense nos Estados Unidos.) A fórmula era simples: Waller e Razaf pegavam um táxi no Harlem e seguiam para o Brill Building, no coração da Broadway, entre as ruas 49 e 50, uma espécie de colmeia onde se alojavam as principais editoras musicais dos Estados Unidos. Nos dez ou 15 minutos do trajeto no táxi, eles esboçavam uma composição, rabiscada a lápis numa folha de partitura ou, à falta desta, até mesmo num papel de embrulho. Conta Maurice, o filho de Fats: “Naqueles dias, muitos editores pagavam aos compositores um adiantamento, mas “se esqueciam” de pagar direitos autorais. Andy e papai sabiam disso e desenvolveram sua própria contra-estratégia. Os dois invadiam o Brill Building e faziam a ronda. Chegavam a um editor e papai tocava e Andy cantava. A canção era comprada por entre US$ 25 a US$ 50. Então tocavam uma segunda versão da canção a um editor rival e isso poderia resultar numa venda, também”. Passavam o resto do dia indo de editor em editor, vendendo a mesma canção repetidamente. Justiça seja feita, segundo muitos comentaristas, Waller e Razaf nunca vendiam a mesma canção duas vezes: seu talento era tanto que, a partir de uma “matriz”, conseguiam criar infinitas versões, por mais sutis que fossem as modificações, e sempre com uma letra diferente escrita pelo versátil Razafinkeriefo…

O temperamento boêmio de Fats Waller, às vezes, inquietava os companheiros. O guitarrista Eddie Condon certa vez ficou responsável por garantir a presença de Fats com uma banda num estúdio de gravação ao meio-dia. O cachê foi pago adiantadamente e Condon começou a se preocupar quando sentiu Waller fazer corpo mole. “Gravação? Daqui a quatro dias? Ao meio-dia? Tudo bem, meu irmão. Senta aí e toma um pouco deste uísque”. Condon perguntou: “Depois que a gente juntar uma banda, o que é que vamos tocar?” E Fats: “Ora, vamos tocar música…” Às dez e meia da manhã aprazada Eddie encontrou Fats no hotel, acordando com uma ressaca homérica. “Meio-dia no estúdio?”, perguntou Fats, bocejando. “Tudo bem, me arranja uns níqueis aí para eu dar uns telefonemas e convocar o pessoal”. Em cima da hora, Fats encheu um táxi de músicos e a caminho do estúdio cantarolou um ritmo básico e uma melodia, um blues que os músicos memorizaram e então explicou o que cada um devia fazer.

Dois lados de um disco de 78 rotações foram gravados com sucesso. O executivo da gravadora exultou: “Precisamos fazer mais gravações como esta. É um excelente exemplo da sabedoria do planejamento e da preparação”. Depois disso, a gravadora, com toda a sua preocupação por planejamento e preparação, lançou o disco pelo selo Victor, com os títulos trocados: Harlem Fuss foi chamado de MinorDrag e MinorDrag foi chamado de Harlem Fuss

Gravações marcadas para o meio-dia eram um pesadelo para Fats. Uma destas aconteceu na viagem de 1938 a Londres. Recorda W. T. Ed. Kirkeby, empresário de Fats: “Eu o tirei da cama numa boa hora, ele estava sentindo os efeitos de uma longa noitada”. Cara, traga meus ham’n’eggs líquidos”. Era como se referia aos quatro dedos de uísque com que começava o dia. Uma segunda dose e Fats estava pronto. Mas não se achava num dos melhores dias para aquela música de dedilhado rápido que o caracterizava. Sugeri algo mais meditativo, a London Suite que ele tinha na cabeça, um projeto mais ambicioso. Fats quase não havia pisado nas ruas de Londres, nada conhecia da cidade. Eu lhe descrevi locais marcantes como Chelsea, Soho, Piccadilly, Bond Street, Whitechapel e Limehouse. Em menos de uma hora, totalmente de improviso, ele tinha gravado uma verdadeira obra-prima!”.

Nos tempos de Fats Waller, o músico de Jazz vivia em risco permanente, ameaçado ora pela polícia, ora pelos bandidos. Certa vez, Fats foi tocar numa festa em homenagem a Duke Ellington num porão do Harlem. Travava um verdadeiro duelo de teclados com Willie “The Lion” Smith quando a polícia chegou, atendendo às reclamações da vizinhança contra o barulho da festa. Ao ouvir os apitos da polícia, The Lion correu pela porta dos fundos e trepou numa árvore, escondendo-se nos galhos mais baixos. Enquanto ouvia os sons da perseguição policial, escutou uma voz vinda de um galho acima: “Que foi, meu irmão? Um touro bravo está atrás de você?”. The Lion não podia imaginar como um gigante do porte de Fats conseguira sair antes pela porta dos fundos e instalar-se num galho bem acima do seu.

Em 1925, Waller tocava piano no Hotel Sherman em Chicago quando notou um grupo de sujeitos mal-encarados na plateia. Quando se levantou para um “lanchinho”, um deles enfiou o cano de um revólver na sua pança e o obrigou a entrar num carro. Foi levado para o que parecia um elegante saloon. Era o quartel-general de Al Capone e os rapazes tinham levado Fats Waller para tocar numa festa surpresa de aniversário para o gângster. Apavorado, Fats começou a tocar um tanto frio, mas, ao sentir a reação entusiasta de Capone e seus asseclas, esquentou o tempo. Capone o manteve em clausura artística durante três dias, enfiando notas de 100 dólares no seu bolso a cada canção tocada e depois o repatriou para Chicago vários milhares de dólares mais rico.

Fazendo uma temporada em Washington, D.C., parado no beco dos fundos do teatro durante o intervalo, Fats foi acostado por um garoto que pediu para entrar e ver o show. Teve uma ideia na hora. Disse ao garoto que ele e os amigos do seu bairro podiam ir ao espetáculo de graça na quinta-feira seguinte. No dia marcado, um bando de adolescentes apareceu na porta do camarim. Fats os fez entrar e mandou seu valete comprar um monte de doces para eles. Quando o gerente do teatro reclamou da quantidade de “convidados”, Waller ameaçou tirar a banda de cena. A garotada encheu a plateia, tomando o lugar de muitos pagantes. Fats caprichou no espetáculo e os meninos voltaram felizes para casa. Infeliz ficou o gerente do teatro, mas só por um dia. Na noite seguinte, e nas subseqüentes, os pais, mães, avós, tios e tias da garotada que ouviu Fats de graça pagaram um bom dinheiro para ver se ele era tão bom como os meninos diziam.

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