Terremoto musical

Eduardo Osório Rodrigues lembra os 60 anos de um abalo sísmico no jazz

Para ser lido ao som de Duke Ellington & Louis Armstrong em The Great Summit – Complete Sessions

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Em abril de 1961, a temperatura da Guerra Fria subira repentinamente durante a crise dos mísseis em Cuba para arrefecer logo depois. Na época, Kennedy olhava com atenção – e ao mesmo tempo – para outras marchas em curso. A dos Direitos Civis, que incendiava os Estados Unidos, a de quadris, sob vestidos de cintura marcada, e pernas que exibiam, por baixo do tecido, meias de cinta-liga.

O único movimento capaz de provocar fissuras na crosta terrestre, do norte da Sibéria aos confins da Patagônia, ocorreria de fato a 400 quilômetros da Casa Branca, em Washington, D.C. Nos dias 3 e 4 daquele mês primaveril, tremores de grande magnitude na escala musical agitaram Nova York; e a causa, demasiadamente humana, produziu ohhhh’s e uhhhh’s que se propagaram para além do jazz.

Segundo jornais e revistas especializadas, o epicentro foi registrado no estúdio one da RCA Victor na East 24th St, em Manhattan. A causa: um sexteto explosivo combinando Duke Ellington com Louis Armstrong & His All-Stars. De um lado, um dos arquitetos que deram forma ao gênero. Do outro sua viga mestra, tendo o restante do grupo como alicerce.

Da mistura desses elementos resultou uma explosão de notas, acordes e canções extraordinárias lançadas em dois LPs pela Roulette Records: For The First Time (faixas 1-10, em 1961) e The Great Reunion (faixas 11-17, em 1963). Em 2001, a Blue Note Records reuniu esse material e extras num CD duplo intitulado The Great Summit – Complete Sessions, que incluía The Master Takes (17 faixas) e The Making of The Great Summit (10 faixas, contendo uma hora de conversas, ensaios e takes alternativos).

Passados 60 anos da gravação original e 20 da reedição em formato digital, a Jam Session histórica produzida por Bob Thiele mantém o encanto e a qualidade das obras de valor. Uma “Jam” entre aspas porque, na essência, os músicos reproduziram o que já estava perfeito na pauta musical.

Nas sete horas e meia da primeira sessão e na tarde do dia seguinte, Duke Ellington (piano), Louis Armstrong (trompete e voz), Trummy Young (trombone), Barney Bigard (clarinete), Mort Herbert (contrabaixo) e Danny Barcelona (bateria) realmente abalaram as estruturas, com acréscimo de uma arma vinda das profundezas da garganta do trompetista: a voz de “um barril rolando numa rua de pedras”, como definiu o crítico, biógrafo e dramaturgo americano Terry Teachout. Aquele timbre único trouxe a aspereza que faltava a clássicos do songbook ellingtoniano, como em I’m Just A Lucky So And SoSolitude e Azalea.

Olhando em retrospecto, não tinha como essa parceria dar errado. Duke e Louis no estúdio eram como Hemingway e Faulkner numa livraria, Picasso e Matisse num ateliê ou Einstein e Bertrand Russell numa sala de aula. Trocas desse nível sempre terminam bem.

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