A noite em que toquei sax barítono para Roy Haynes

Roberto Muggiati agradece ao grande baterista: “Ele me deu um sorriso condescendente – algo como ‘Aí, branquelo, até que tá ficando por dentro das coisas, né?’”

Para ler ao som de Charles Mingus em Goodbye Porkpie Hat

Foto: Jose Nieto/Wikimedia Commons

Foi naquele ano maluco de 1999. Tecnicamente a passagem do milênio só aconteceria em 1º de janeiro de 2001, mas todo mundo aguardava a chegada de 2000. Fiz três viagens totalmente disparatadas: em maio para um giro gastronômico na província de Catânia, na Sicília, à sombra do Etna; em setembro, para o lançamento de um “champanhe do milênio”, em Garibaldi, na Serra Gaúcha; em novembro, para o Festival de Cinema de Natal, com passeios pelas praias de Jenipabu, Pitangui e Pipa. Houve um marco cultural para cada uma destas viagens. Na Sicília foi o CD de Chet Baker Baby Breeze, uma joia desconhecida que encontrei numa pequena loja de Catania, o álbum que ensejou o encontro de Chet com Diane Vavra, sua última companheira; em Garibaldi, foi a noite insone no hotel depois do regabofe, lendo Rei, Dama, Valete do Nabokov (in English, of course); um carro preto passou a certa altura, me perguntei que alma perdida estaria rodando àquela altura da madrugada naquela cidadezinha e imaginei ver do espaço a face escura do planeta, milhões de pequenas luzes vermelhas e brancas em movimento, queimando combustível fóssil, a inquietação e o nomadismo da raça… Em Natal eu lia Amsterdam, um complexo thriller psicológico de um autor que eu começava a conhecer melhor, Ian McEwan.

Um pesadelo recorrente me atormentava naquele ano: eu via uma lápide com a inscrição ROBERTO MUGGIATI 1937 –, a segunda data ainda não estava fechada e eu me aterrorizava de que fosse 1999; qualquer coisa começando em 2000, dois mil e poucos, já seria lucro. Pois bem, cá estou, em 2021, e ainda contando. Dizem que os eleitos são aqueles – homens e mulheres – com um pé plantado firmemente em cada século. Foi naquela época que tirei o meu epitáfio da canção de Cole Porter: “It was great fun, but it was just one of those things”. Tempos depois, optei pela cremação. A urna das cinzas receberia uma inscrição também inspirada no grande Porter: “It’s Too Darn Hot.”

Em julho de 1999 lancei meu livro New Jazz: De Volta para o Futuro, espécie de enciclopédia da nova geração de jazzistas, capitaneada pelos irmãos Marsalis. A ideia de lançar o livro no local do Free Jazz (o MAM do Rio e o Jockey Club em São Paulo) foi um erro fatal, as galeras festivaleiras, a fim de badalar, não estavam nem aí para eventos literários. Em 1995 e 1997 eu atraíra longas filas a noite inteira na Argumento – uma livraria de rua no Leblon – ao lançar Blues: Da Lama à Fama e A Revolução dos Beatles.

Aquele foi o ano em que talvez bebi todas. Em Garibaldi, nosso grupo de jornalistas visitou o formidável galpão abobadado de bebidas da Campari, nossa anfitriã, centenas de metros de engradados de garrafas, empilhados até a altura de uns vinte metros, uma verdadeira catedral etílica. Choquei meu colega da Bloch Roberto Barreira, bom de copo também, ao comentar: “Já imaginou, Roberto, quantas pilhas destas nós já bebemos na vida?” Foi o xará quem me deu a dica de que um uísque difícil de encontrar, o Dewar’s 12 anos, era da Campari, saímos de lá com uma garrafa cada um, comprada com um generoso desconto.

Nas minhas memórias, intermináveis, continuam se avolumando e não consigo botá-las no papel, minha relação com a bebida merece um livro à parte. Já pensei até num título, inspirado num conto de Fitzgerald, A Diamond as Big as The Ritz – Um fígado do tamanho do Ritz. O segredo é que, à custa de muitos vexames e muitas ressacas, aprendi a beber – eu diria – cientificamente. Enfim, naquela noite no MAM do Rio, tocava o quinteto de Roy Haynes, que tinha sido baterista do Charlie Parker. No auge do seu vigor, aos 74 anos – hoje ainda está aí firme, com 96 – encontrei Haynes nos bastidores, peito nu, fazendo incontáveis flexões no chão de cimento. O show de abertura havia sido de Ed Motta, acompanhado pela banda do Carlinhos Malta, meu conhecido de shows com o Hermeto Pascoal. Eu estava apenas “alegrinho”, como se diz, senhor dos meus movimentos, mas não mais senhor da minha razão. Abordei Carlinhos sem mais aquela: “Oi cara, sempre quis soprar um barítono, me deixa pegar uma carona nesta beleza?” Carlinhos Malta sabia que eu arranhava um tenor, pelo menos tinha estudado dez anos com seu amigo Mauro Senise; assim eu não iria danificar ou vomitar no seu instrumento. Presságio ou não, pouco depois o barítono foi roubado e desapareceu para sempre.

O bom de você estar naquele ponto ideal de equilíbrio etílico é que tudo acontece comme il faut e sem nenhum esforço: empunhei o pesado saxofone numa boa, dedilhei, parecia até mais macio do que o meu tenor, e toquei aquela melodia maravilhosa que o Charles Mingus compôs ao saber, quando tocava num clube de Nova York, da morte de Lester Young, em março de 1959. Goodbye Porkpie Hat faria parte do magistral Mingus Ah Um, um dos três álbuns históricos gravados no espaço de meses no estúdio da Columbia em Nova York conhecido como The Church, uma antiga igreja evangélica armênia retrofitada. (Os outros dois foram Kind of Blue do Miles Davis e Time Out, de Dave Brubeck, aquele do Take Five – jazzófilo que se preza tem que saber destas coisas…).

Goodbye Porkpie Hat” não é um tema difícil, é lento, com intervalos fáceis, mas você precisa jogar nele toda a sua alma. Não admira que extrapolasse do jazz e fosse gravado por gente como os guitarristas de rock Jeff Beck, John McLaughlin e Andy Summers e cantado por Joni Mitchell, acompanhada por Pat Metheny, entre outros.

Acredito que naquela noite dei conta do recado – Charlie Parker dizia que todo bêbado e drogado achava sempre que estava tocando maravilhosamente, mesmo que estivesse tocando uma merda – mas Roy Haynes, elevando-se finalmente do piso de cimento do MAM, me deu um sorriso condescendente – algo como “Aí, branquelo, até que tá ficando por dentro das coisas, né?”.

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