O visionário do som

Maria Duhá-Klinger lembra com emoção do amigo André Midani, morto em junho do ano passado

Para ser lido ao som de John Lennon em Double Fantasy

Foto: Produção Cultural no Brasil/CC BY-SA

O musical Hamilton, de Lin Manuel-Miranda, maior sucesso da Broadway dos últimos tempos, começa e termina com a frase: “Who lives, who dies, who tells your story” (“Quem vive, quem morre, quem vai contar a tua história”). E foi exatamente esta música que me ocorreu quando fui convidada para escrever algo sobre André Midani.

Eu queria o que eu sabia e sentia, já que havia trabalhado na Warner, além de ser amiga de longa data do chefe. Fiquei atordoada com a tarefa, não só pela grandeza do personagem, mas também pela importância que ele teve na minha vida pessoal.

Comecei mentalmente a colecionar palavras que pudessem defini-lo: chefe, exigente, exemplar, gênio, libriano, amoroso, amigo, complexo, dual, internacional, sofisticado, elegante, cool, patriarca e superb, esta última uma palavra que ele usava frequentemente.

Com ele, tudo era único. A história de André foi diferente das chamadas vidas tradicionais que conhecemos. Com um certo orgulho, ele dizia, que seu pai era árabe e a sua mãe, judia. Desta dualidade originavam-se as características culturais, religiosas e raciais que ele possuía. André sempre teve uma cabeça aberta. Pensava, como os gênios costumam fazer, fora da caixinha.  Acredito que o segredo do seu sucesso foi uma sensibilidade para a música, aliada a uma inclinação para fazer negócios. Provavelmente este tino tenha sido a herança das suas origens. Mas, acima de tudo, ele era um artista.

André, ao fundo, cercado por Phillipe, Tom e Antoine
(Foto: Acervo pessoal)

Teve uma vida cheia de aventuras. Aos sete anos, durante a II Guerra, mudou-se com a mãe para a França, mais precisamente para a Normandia. Ele sempre lembrava com detalhes do Dia D, perto de onde eles moravam. Como testemunha ocular da história, ele era fascinado por esta guerra. Contava que seu playground eram os bunkers abandonados pelos alemães. Muitos anos depois, em Nova York, ele me apresentou a sua então namorada, Helen Patton, neta do general comandante das forças aliadas.

Adolescente, foi para Paris, onde trabalhou como confeiteiro e, lá mesmo, em 1952, começou a se envolveu no mercado do disco. Veio para o Brasil fugindo, como desertor, da guerra da Argélia em 1955, e, por um golpe de sorte, logo arranjou emprego por aqui. Começou na Decca e passou por várias gravadoras, inclusive mudando-se, na década de 60, para o México, onde nasceram seus dois filhos Philipe e Antoine. Quando voltou ao Brasil, assumiu a direção da gravadora Phillips, mais tarde batizada de Phonogram e, depois, Polygram. Seu trabalho foi decisivo na divulgação da bossa nova.

André saiu da Polygram ao ser convidado pelo amigo Nesuhi Ertegun para comandar a WEA, junção das companhias Warner, Elektra e Atlantic, no Brasil. Nesuhi era um dos irmãos Ertegun – o outro era Ahmed. Os dois nasceram na Turquia, filhos de um embaixador, e foram morar ainda adolescentes Washington, onde ficaram íntimos da música americana.

Já sabia e admirava André Midani antes mesmo de ser sua funcionária na Warner. Eu gostava de sua astúcia para administrar um negócio como aquele. Um exemplo: uma vez por semana, André convidava para drinques, grupos de intelectuais e formadores de opinião para uma conversa amiga. Era um bate-papo informal em que André aproveitava para enfronhar-se no panorama cultural, artístico e mundano. Assim, ele ficava por dentro das tendências. André foi influencer antes mesmo do termo ter sido inventado. Um visionário!

Quando fui para o departamento de televisão da WEA, minha missão era fazer com que os artistas aparecessem nas emissoras e o grande prêmio era emplacar “nossos artistas” na tela mais disputada, o Fantástico. O diretor do programa, por muitos anos, foi o José Itamar de Freitas, uma pessoa culta e fácil de trabalhar. O meu trabalho fluía admiravelmente bem e através da relação com a minha chefe imediata, Monica Neves Midani, mulher dele, fiquei mais próxima de André. Com eles, vivi grandes momentos pessoais e profissionais.

Minha vida mudaria totalmente em 1979. Durante uma das nossas muitas conversas, eu confessei que estava chocada, pois haviam dito que eu estava ficando velha – e eu tinha pouco mais de 30 anos. André me respondeu com aquele sotaque francês adorável: “Você é boboca! Para o Brasil, você está ficando velha. Para o mundo, você ainda nem começou”. Resolvi seguir seu conselho e passei a me organizar para fazer um curso na área de TV em Nova York. Era um grande. A MTV ia ser inaugurada, os videoclipes começavam a surgir. Arrumei as malas, me mudei para Nova York e, dois anos depois, recebia meu certificado de formatura na The Global Village – Video Studies. Lá também comecei a trabalhar no projeto Sounds Brazilian, ao lado de Candido Mendes. Pela primeira vez, um programa semanal de música brasileira, com clipes e entrevistas, iria ao ar nos Estados Unidos.

Também nunca vou me esquecer da minha última tarefa como empregada da WEA. Sob enorme pressão, eu precisava conseguir o tape que seria usado no Jornal Nacional para ilustrar a morte de John Lennon no dia 8 de dezembro de 1980. Lennon era artista da gravadora Geffen, cujo catálogo pertencia à Warner. Não sei como, em épocas de videocassetes e de comunicação precária, sem celulares, consegui cumprir a tarefa. Logo depois foi a minha vez de me mudar para Nova York.

E assim se passaram dez anos… Nos reencontramos em 1990, quando ele veio para os Estados Unidos para dirigir a Warner Latina. Em Nova York, nossa amizade ficou mais forte do que nunca.  Frequentemente almoçávamos no MoMA, que fica quase em frente do edifício da Warner, no conglomerado do Rockefeller Center. Andávamos pelo museu depois do almoço. Ele conhecia e admirava arte. Tenho guardado na memória os momentos que ficávamos em frente a um dos quadros da série Water Lilies, de Monet. Quietos. Fazendo a digestão em estado de comtemplação.

André falava em se aposentar. Falávamos sobre isso enquanto dávamos longas caminhadas no Central Park e no Soho. Lá, inúmeras vezes, depois de almoçar no Balthazar, entrávamos na loja Miu-Miu, da italiana Miuccia Prada, para curtir uma moda de vanguarda. Esta moda tinha tudo a ver com ele. Visionária com um quê conservador. Fazia parte da sua personalidade gostar de tudo aquilo. Moda. Criatividade. Novidade. Nessas caminhadas ele também falava do livro que estava começando a escrever, sonhando com o quanto o livro poderia contribuir para o seu legado.

Na última vez que nos vimos, ele já estava aposentado, mas ainda morava em Nova York.  Nos encontramos para uma reunião com o músico Oscar Castro-Neves. Fui convidada pelos dois para fazer a produção de um megaconcerto reunindo artistas ligados à bossa nova no Carnegie Hall. Como eu já havia embarcado na minha carreira de educadora, não me mostrei interessada. Tinha aprendido que reeditar algo tão grandioso era impossível. E, como eu previ na época, o projeto não foi adiante.

Quando ele voltou ao Brasil em 2002 e casou-se com a designer Gilda Midani, nossos interesses em comum mudaram e nesses turbilhões da vida quase nos perdemos. Mas a amizade e o carinho sobreviveram. Em 2008, o seu livro de memórias, Do Vinil ao Download, finalmente foi lançado. Talvez por ter sido um homem poderoso que se expunha demasiadamente, enfrentou algumas controvérsias durante a sua vida. Além do livro, a mais hilária vinha de Glauber Rocha que no programa Abertura dizia que ele era entreguista e agente da CIA. Pode?

Por fim, também tenho enorme carinho pelos dois filhos de André, Philipe e Antoine, e de seu único neto, Tom. Me emocionei com o texto que Antoine postou no Facebook no dia 25 de setembro de 2019, data do primeiro aniversário de André depois de sua morte. Lá fiz um comentário e recebi como resposta; “Cotinha querida, o papai sempre falava de vc com tanto carinho! Vc é da família”.

André descansa em paz ao lado da sua mãe, em Lumiar, um lugar na serra de Nova Friburgo, no Rio, que ele tanto amava.

Para ele tenho a dizer: God speed, André! Boa sorte nesta nova trajetória. Até sempre, meu querido amigo. Love and light!

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