Eu sou meu próprio walkman

Roberto Muggiati escreve sobre Bobby McFerrin, o músico avesso a instrumentos e que tem na garganta todas as vozes e todos os sons

Para ser lido ao som de Bobby McFerrin em Blackbird

Foto: Erinc Salor/CC BY-SA 2.0/Wikimedia Commons
Foto: Erinc Salor/CC BY-SA 2.0/Wikimedia Commons

Bobby McFerrin chamou a atenção do público e da crítica com sua apresentação solo no Kool Jazz Festival de 1981, e em 1983 havia aperfeiçoado seu estilo de improvisações vocais sobre letras de canções conhecidas ou cantando em scat, imitando instrumentos, principalmente baixo e guitarra (como emSunshine of Your Love, do Cream), além de explorar uma gama de sons guturais, uivos, assobios, estalos vocais, viajando do grave ao falsete. Apresentando-se geralmente de jeans e peito nu, McFerrin usa também o próprio corpo como uma caixa de percussão, batendo com as mãos no torso ou nas pernas. Avesso a qualquer tipo de instrumento, compôs um tema que define sua filosofia de interpretação musical: I’m My Own Walkman. Sua canção mais conhecida, Don’t Worry, Be Happy foi acoplada ao Smiley, aquela carinha amarela e sorridente que se tornou um dos ícones da nossa época. Veiculada na trilha do filme Cocktail (1988), chegou ao topo da parada de sucessos nos Estados Unidos.

O repertório de McFerrin reflete a universalidade da sua arte. Nestes últimos vinte anos ele viajou de Bach ao bebop e aos Beatles; de Marley a Mozart; de Vivaldi e Rismky-Korsakov a Duke Ellington e Miles Davis – e  a Bobby McFerrin, é claro, o compositor. Engajou-se ainda em colaborações a alguns dos maiores músicos atuais, como os pianistas Chick Corea e Herbie Hancock, o vocalista Jon Hendricks, o grupo vocal Manhattan Transfer e o saxofonista Wayne Shorter; incursionou até na área do erudito, num CD em duo com o violoncelista Yo-Yo Ma, e assumindo em 1994 a cadeira de criatividade junto à Orquestra de Câmara de Saint Paul; além de gravar Beverly Hills Blues com o comediante Robin Williams.

Nas gravações, valendo-se dos recursos da dublagem, Bobby McFerrin se desdobra em múltiplas vozes, tornando-se um verdadeiro homem-orquestra vocal. Já nas apresentações ao vivo, costuma envolver o público em suas interpretações, usando-o em acompanhamentos vocais que ele ensina na hora, confiante na sua crença de que todo mundo tem o potencial de criar música. Quando gravou The Mozart Sessions (1996) com o pianista Chick Corea e a Orquestra de Câmara de Saint Paul, McFerrin, discorrendo sobre a atualidade de Mozart, afirmou: “Não importa de onde você vem, do clássico ou do jazz, quando você deixa de depender de como lhe mandam tocar, é inevitável: você vai imprimir algo realmente muito forte, do ponto de vista espiritual, à sua música. Se um dia eu for o reitor de uma escola de música, meus estudantes não conseguirão se formar a não ser que estudem improvisação. Vão ter de tocar sem uma partitura à sua frente, só para ter a coragem de tocar uma nota após a outra e ver como ela soa”.

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