Uma pílula de jazz de Dizzy numa noite de terror

Para ser lido ao som de Gee Baby Ain’t I Good to You, com Dizzy Gillespie

A mão direita espalmada, como se tivesse tapando o rosto evitando um desagradável paparazzi, engana o verdadeiro sentido da foto. O Dizzy Gillespie ali sentado, comigo ao lado embasbacado, foi o registro de uma fria noite de maio de 1986, quando o mestre do trompete periscópico esteve pela última vez em Porto Alegre.

Foi um único concerto, dentro de uma turnê que passara por algumas capitais brasileiras, com Dizzy à frente de um sexteto (Sayyd Abdul Al-Khabyyr, no sax barítono e clarinete, seu filho Nasyr Abdul Al-Khabyyr, na bateria, John Lee, contrabaixo, Ed Cherry, guitarra, Walter Davis, piano, Ignacio Berroa, bateria, além do próprio Dizzy no trompete e nos vocais).

O local era o Teatro Leopoldina, lugar que muito favoreceu minha formação musical por ficar no final da mesma rua onde morava com meus pais. Assim, ao término do concerto, saindo do Leopoldina e descendo a ladeira da João Telles, vi que a porta que dava acesso aos camarins estava aberta e sem movimento. Fui entrando e segui o barulho das conversas.

Num camarim não muito grande, Dizzy, escarrapachado numa pequena cadeira, recebia (poucos) fãs e conversava com algumas pessoas, observado, entre outros, pela Liana Pereira, a Baiana, jornalista, velha amiga da família e então correspondente da Veja em Porto Alegre. Dizzy contava uma experiência recente e traumática, violenta para um homem tão alegre e expansivo como ele.

Na semana anterior, uma série de atentados pela Europa havia deixado as forças de segurança em alerta. No aeroporto de Milão, contava Dizzy, eram muitas as sirenes, as luzes e, principalmente, as metralhadoras. Estas, empunhadas pelos carabienieri, tomavam todas as partes do aeroporto milanês, conforme a discrição de Dizzy, com a mão aberta e os olhos esbugalhados (estes escondidos pela mão na hora da foto).

Prestando atenção a um Dizzy surpreendentemente sério e compenetrado, fiquei por ali alguns minutos. Ninguém se arriscava a romper a narrativa. Ao ver a caixa com o famoso instrumento aberta e próxima de mim, toquei com os dedos aquela campana voltada para o alto que ajudou a revolucionar o jazz moderno.

Foto: Adolfo Gerchmann/Reprodução/Arquivo pessoal
Foto: Adolfo Gerchmann/Reprodução/Arquivo pessoal

Quando Dizzy interrompeu a fala, balbuciei algo que não lembro muito bem, agradeci pelo show e pedi um autógrafo na revista com o programa do espetáculo que apareço segurando com a mão esquerda. Ele agradeceu e me estendeu a mão para um cumprimento. Até hoje guardo na minha sala, feito pelo meu amigo Adolfo Gerchmann, o registro fotográfico, já um pouco esmaecido, daquele momento. A emoção e a memória continuam bem nítidas.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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