Um sopro de vida

Lucio Brancato* lembra a curta, intensa e trágica trajetória do trompetista Bix Beiderbecke

Para ser lido ao som de The Best of Bix Beiderbecke
Foto: Domínio público/Wikimedia Commons
Foto: Domínio público/Wikimedia Commons

Uma das primeiras lendas na história do jazz não era negro e tampouco veio de uma família pobre. Leon Bismark Beiderbecke – ou Bix Beiderbecke, como ficou conhecido – nasceu em uma família de classe média de imigrantes alemães, em Davenport , Iowa, em 10 de março de 1903. Sua épica e trágica história na música começou cedo. Aos sete já era notícia no jornal local, o Davenport Daily Democrat, apontado como menino prodígio e autodidata, que costumava sair correndo do cinema no final das sessões e, ao chegar em casa, reproduzir no piano da família tudo que escutava. Mas seria em 1918, quando seu irmão retornou da I Guerra Mundial trazendo uma vitrola com algumas gravações da Original Dixieland Jazz Band, que o jovem Bix se apaixonaria pelo som da corneta. É também neste período (1918/1921) que Bix começa a se apresentar com frequência em conjuntos locais, desagradando sua família. Para tentar afastá-lo dos bailes, seus pais enviaram-no para estudar em Lake Forest, Illinois. Porém, a mudança o deixou ainda mais próximo do jazz. Lake Forest, na região metropolitana de Chicago, era uma das “mecas” do gênero naqueles efervescentes anos 20. Assim, desbravando os salões e bares de Chicago, Bix consolidaria duas paixões: a música e a bebida.

Em 1923, Bix se une à Wolverine Orchestra liderada pelo pianista e compositor Dudley Mecum (autor do hit Angry). Com a saída de Mecum ainda no mesmo ano, o conjunto passa a se chamar The Wolverine Band. Mesmo constando ainda em algumas fotos como Wolverine Orchestra Chicago durante o período que Bix fez parte da banda, até o final de 1924, a formação com ele na corneta nunca chegou a se apresentar em Chicago fazendo muito mais o circuito de bailes pelo interior dos Estados Unidos. Porém, é nesta época que os primeiros registros fonográficos aparecem e mostram o diferencial do conjunto: um solista de tom limpo e cheio de improvisos na corneta, mas sem fugir muito da melodia e evitando os malabarismos. Bix não sabia ler música. Seu sopro era puro feeling e brincava de forma única com as melodias dos temas apresentados. Da mesma maneira que a sua ausência de formação musical ajudou a desenvolver um estilo próprio, dificultou muito suas tentativas para ingressar em grandes orquestras que exigiam a leitura fiel das partituras. Saindo dos Wolverines em outubro de 1924 ele toca por um curto período na banda de Jean Goldkette e, a partir de 1925, Bix se divide entre pequenos conjuntos e uma banda capitaneada por Frank Trumbauer. Na época, a família voltaria a insistir que ele largasse a música e Bix chegou frequentar a Universidade de Iowa. Mas não durou muito. Passava mais tempo nos bares clandestinos que ainda vendiam bebidas do que na sala de aula aprendendo física.

Em 1926, Beiderbecke e Trumbauer são escalados para a agora orquestra de Jean Goldekette. Com uma pegada muito mais comercial, a orquestra de Goldkette não permitia grandes improvisos de seus músicos sob a rígida insistência do diretor musical Eddie King em seguir partituras. A salvação para a liberdade musical de Bix nesta época está diretamente ligada a sua relação com o parceiro de orquestra e copos, o saxofonista Frank Trumbauer. Os dois viraram amigos inseparáveis e formaram um conjunto de câmara onde o improviso e o “hot jazz” corriam soltos pelas madrugadas dos salões mais “perigosos” de St. Louis. A parceria com Trumbauer durou até o final da vida de Bix. Foi com ele que aprendeu a leitura de partituras, o que logo um ano depois permitiu seu recrutamento (junto com Trumbauer) para a mais famosa orquestra da época, a The Paul Whiteman Orchestra.

Entre 1927 e 1929, Bix Beiderbecke gravou e se apresentou com a orquestra de Whiteman por todos os cantos levando paralelamente trabalhos com conjuntos menores. Ao mesmo tempo que aumentava cada vez mais sua carga de trabalho, seu consumo de álcool acompanhava na mesma proporção. Em tempos de Lei Seca, um músico com dinheiro no bolso era sinônimo de fácil acesso a um “néctar” de licor de procedência sempre duvidosa. No final de 1929 ele retorna para a casa de sua família em Davenport numa tentativa frustrada de se livrar da bebida e tratar da sua já debilitada saúde. Bix logo retoma o trabalho com Whiteman, desta vez em Hollywood onde iriam rodar o filme The King of Jazz, que nunca foi em frente. Bix passou mais tempo bebendo do que tocando, até retornar à casa dos pais que voltam a colocá-lo numa clínica de reabilitação. Fugindo da clínica, Bix vai para Nova York em 1930 com a intenção de voltar para a The Paul Whiteman Orchestra. Sem conseguir, Bix acaba tocando esporadicamente em conjuntos e fazendo algumas gravações. Nos meses seguintes peregrinou por mais outras clínicas até seu corpo não aguentar mais. Bix Beiderbecke foi encontrado morto no seu apartamento no Queens no dia 6 de agosto de 1931. Até hoje há divergência quanto a causa oficial da morte: pneumonia ou uma forte crise de abstinência alcoólica.

Morto, virou lenda. Em 1950 teve sua vida retratada por Hollywood no filme Young Man With a Horn, dirigido por Michael Curtiz e com Kirk Douglas no papel principal, além de Doris Day e Lauren Bacall. Em 1991, outro filme: Bix: An Interpretation of a Legend, do diretor italiano Pupi Avati.

* Lucio Brancato é roqueiro, jornalista e conselheiro da AmaJazz 

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