Alimentando o fogo

Betty_Carter_in_Pori_July_1978
Betty Carter se apresentando no Pori Jazz Festival na Finlândia, em julho de 1978. (Foto: Kotivalo [CC BY-SA 3.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)%5D, Wikimedia Commons)

Péricles Cavalcanti* recorda Betty Carter e lembra que sem algum tipo de estranheza não há música original

“A música que nós fazemos é basicamente o blues.” Assim falou Dizzy Gillespie durante um show no Rio de Janeiro, em 1976. Mas ele sabia, e todos nós sabemos que o jazz, como forma musical, foi muito além das suas origens, incorporando elementos de outras músicas, populares ou não, e que a sua principal característica é o improviso, seja do cantor ou do instrumentista. Muitos já afirmaram que esta arte, ao mesmo tempo tão individual e coletiva, teve seu apogeu no movimento chamado Free Jazz, lá pelo final dos anos 50, começo dos 60, época dominada pelo gênio de John Coltrane.  Eu, fã incondicional de Thelonious Monk, excepcional instrumentista e também o maior compositor que o jazz já produziu, por algum tempo, compartilhei essa impressão.

Com Betty Carter foi diferente. No início dos anos 60, ela era ainda uma jovem cantora, quando realizou um belo, e não caracteristicamente jazzístico, disco de Standards, ao lado de outro gênio: o cantor-instrumentista de formação jazzista e inspiração bluseira, Ray Charles. Betty reapareceria, fulgurantemente, ao lado dos talentosíssimos Jack Dejohnette (bateria), Dave Holland (baixo) e Geri Allen (piano), num show que rendeu um disco, não sem motivo, chamado Feed the Fire. Com uma formação instrumental e com uma intenção de interpretação vocal, tipicamente jazzísticas, no sentido fundamental de manter os improvisos a partir de temas conhecidos ou não, com palavras ou não, fluindo por todos os componentes do conjunto, o quarteto alimenta o fogo a que o título do álbum se refere. O jazz se inventa de novo.

Sem algum tipo de estranheza não há música original. E, quando a isso se associa intuição, conhecimento e técnica musicais, aí, então, acontece grande música. Este é o caso do jazz de Betty Carter e seus “cúmplices”. Nada é banal, usual, chato ou com pouca imaginação, mesmo na interpretação de velhas canções como Lover ManSometimes I’m HappyDay Dream ou “All or Nothing at All. Pelo contrário, até quando os temas melódicos com letra são introduzidos, surgem modificações estruturais e de sonoridade, com distensões, encurtamentos e deslocamentos no compasso e na harmonia, de notas ou de grupos de notas (técnica que João Gilberto e outros grandes interpretes de Jazz também utilizam), e inflexões vocais surpreendentes que precedem, sucedem ou sustentam as notas, provocando uma espécie de efeito prestidigitador na audição, a ponto de fazer com que não reconheçamos imediatamente a canção. A melodia tradicional está lá, mas como que tomada por um espírito alienígena. Claro que, a partir daí, os solos instrumentais e os “verdadeiros” improvisos que virão já estarão “contaminados”, e as conversas musicais que passamos a escutar são alguns dos mais surpreendentes e originais exemplos do velho, e, ao mesmo tempo, novo jazz contemporâneo.

No palco, os movimentos que Betty Carter realiza com os braços e a cabeça enquanto interpreta, parecem descrever também estranhamente aquelas frases, como que reforçando, no plano gestual, a especificidade daquela “mensagem”. E assim, uma voz, o piano, o baixo e a bateria, soam, juntos ou separadamente, como se fosse pela primeira vez, agora. E ainda trazem consigo a aspereza, as sinuosidades, a necessidade, a manha, o sentimento, a novidade e a beleza do básico blues.

*Péricles Cavalcanti é cantor e compositor, com parcerias e gravações ao lado de Caetano Veloso, Gal Costa e Augusto de Campos. Sua estreia na AmaJazz recupera um texto que escreveu em 1996 para o extinto Jornal da Tarde

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