Ecos da vitória contra o obscurantismo

E encontros com a direita rica e remediada, sinais do que ainda teremos pela frente

Residentes há cinco décadas em ladeira que dá acesso aos morros que dividem Copacabana e Ipanema, vizinhos tanto das comunidades do complexo PPG quanto de classes média, remediada ou endinheirada ou alta misturadas nos dois bairros-chamariz do Rio, vivemos num microcosmo do Brasil.  Gente de todos os tipos, mas que, em 2026, nesse segundo turno das eleições, contribuiu em sua maioria para a derrota do obscurantismo. Como prova o vídeo gravado assim que a vitória de Lula se confirmou, com os fogos de artifício de Pavão e Pavãozinho e a comemoração que também vinha dos prédios: aqui.

O que não impediu de, desde o domingo, ao circular pela bolha, esbarrar em muitos negacionistas. Na segunda-feira, na fila de autógrafos de um lançamento de livro em livraria progressista no Leblon, ao responder ao protocolar “tudo bem?” com o entusiasmado “desde ontem, bem melhor!”, o empresário amante de música enfatiza nunca ter votado em Lula. “Mesmo em disputa com um criminoso?”, rebato. Para ouvir do acompanhante deste, a mesma faixa etária de 60 + ou -, que desconfia dos 10 milhões de votos a mais conseguidos no segundo turno. Chega a minha vez na fila e, assim, sou poupado de manter a discussão com a direita “bur-rica”.

Na tarde de terça, num dos locais que às vezes me hidrato (ou alcoolizo) com água do coco antes de embicar a bicicleta de volta para casa, o breve bate-boca é com a direita pobre. Sabedor que os atendentes do estabelecimento junto à estátua de Jobim estavam entre os dissimulados, aqueles do argumento que os dois não prestavam, ao receber a taça de vinho branco, brindo pela vitória. O homem que me serve, e que não conhecia, é direita assumida e diz comemorar a liberdade do fujão. Repito o de sempre, “o ódio a Lula é tanto que prefere um notório corrupto, ligado à contravenção?”. Ele insiste na negação, mas, não me dou ao trabalho de treplicar. A ideia é tirar da rota o quiosque que se dizia diferenciado, ligado à galera das artes (como ouvi certa vez de um frequentador). Trato de usufruir da vista de sempre, da sensação de estar do lado certo. Lado que, como se viu, reuniu da esquerda à direita, e virou inspiração para o mundo.

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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