Na trilha das ‘Mumórias’

Antes, durante e depois d’A Cor do Som. E continuando…

As “Memórias sintetizadas” (Editora Memorabilia) de Mu Carvalho entregam o que seu bem bolado título sugere. Feito junto ao jornalista e escritor Paulo Jebaili (com muitos livros em parceria com o filósofo e educador Mario Sergio Cortella), dá uma panorama na vida e obra do tecladista, compositor, trilheiro, produtor e, nas duas últimas décadas, artista plástico. Telas e tintas óleo que, na pré-adolescência, tinham sido os primeiros instrumentos de Maurício, o caçula de cinco irmãos criados em ambiente de sonhos.

Armandinho Macedo e Mu Carvalho, show d’A Cor do Som em janeiro de 1981 / Foto: ACM

Afinal, nasceu em 1957, em plena Ipanema, quando a bossa nova começava, e numa família ligada às artes. Flávia, a mãe pianista, ia de Chopin a Ernesto Nazareth, seguindo os passos de sua mãe, pianista de cinema mudo em Juiz de Fora; Haroldo, funcionário do Banco de Brasil, incentivava os talentos dos filhos e tinha muitos amigos no meio artístico – para ficar num só exemplo, Vinicius de Moraes.

De forma leve, como um bate-papo, a partir de seus rascunhos  e das conversas por vídeo trabalhadas pelo parceiro, Mu costura esses dados pessoais com o trajeto na música. Na qual teve também como exemplo em casa três dos quatro irmãos. Dadi (cinco anos mais velho, baixista dos Novos Baianos, dos grupos de Jorge BenJor e Moraes Moreira, co-fundador d’A Cor do Som, dos Tribalistas…), Losinha (Heloísa Carvalho Tapajós, 1948-2014, pesquisadora da MPB e produtora cultural) e Sérgio Carvalho (1949-2019, produtor musical).

Dadi e Armandinho em show d’A Cor do Som em janeiro de 1981 na Barra da Tijuca / Foto: ACM

A Cor do Som, é claro, ocupa boa parte do volume. Seus altos (o grupo de rock brasileiro mais popular e criativo do fim dos anos 1970) e baixos (atropelado pela geração roqueira dos anos 1980). Com direito à volta por cima a partir de 2006, culminando em, 2020, com o instrumental “Álbum Rosa”, vencedor no ano seguinte do Grammy Latino na categoria Rock/Alternativo em Língua Portuguesa.

A Cor do Som: Mu, Armandinho, Gustavo Schroeter (com LP), Dadi e Ary Dias / Foto: ACM

Mu mostra como se reinventou. Ralou como músico acompanhante (dos já citados BenJor e Moraes a Gil, Legião, Luiz Caldas, José “Evidências” Augusto…); virou produtor, compositor e arranjador de trilhas sonoras na Globo e no cinema; e também construiu uma carreira solo, com discos nos quais choro, rock progressivo, baião, bossa convivem a favor da música.

Lembranças que também contam muito sobre as transformações da  música brasileira e do mundo e vêm se somar às de Dadi, que, em 2014, lançou “Meu caminho é chão e céu” (Record).

Dadi, por sinal, faz um dos cinco textos de introdução, ao lado de Gilberto Gil, Tuca Oliveira (cantor e compositor parceiro recente de Mu) e dos jornalistas e escritores Juarez Fonseca e Eduardo Bueno.

PS: Vale uma visita ao site da Memorabilia (memorabiliastore.com.br), editora gaúcha, de Santa Maria, que tem focado na música. Recentemente, lançou “Gilberto Gil: o tempo é o nada que é tudo”, no qual Juarez Fonseca reúne entrevistas e resenhas feitas nas últimas cinco décadas com o baiano; “Amores vão, ficam os discos: Uma discoteca sentimental” (Lúcio Brancato); “Rita ee & Tutti Frutti, Santa Maria, maio de 1978: Uma crônica cultural e de costumes” (Gérson Werlang); e “Quando o som bate no peito”, este, de Márcio Grings (também o editor da Memorabilia), reúne 34 resenhas de shows que ele cobriu como jornalista, de Bob Dylan a Paul McCartney, passando por Roger Waters, Buddy Guy, Black Sabbath, Joan Baez, Elton John e The Who.

PS2: Nascido entre Dadi (1952) e Mu (1957), nossos caminhos se cruzaram muitas vezes a partir dos anos 1970. De alguma maneira pude contribuir para os livros de ambos. Fiz o texto para a orelha do primeiro e, agora, participo com fotos d’A Cor do Som, no auge, em janeiro de 1981, tocando para uma multidão na praia da Barra da Tijuca. Do mesmo show saíram as que ilustram esse texto na AmaJazz.

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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