E se a trilha momesca da vez não me interessa, Flea é boa surpresa
Para ler ao som de “3333”, de e com Flea: “3333”, Flea
Para um suposto entendedor de música… pop, transitando por variadas combinações de sons e pausas e cantos, o que vem a seguir é esfregar ignorância. Principalmente junto à parcela mais rock, alternativa, punk, pós-tudo de meus colegas no que foi a crítica musical da imprensa de papel e também de leitores em geral versados na área.

Então, não sabia da existência de “Helen Burns”, EP lançado por Flea em 2012, e que, contrariando meu desinteresse por Red Hot Chili Peppers, soou como boa supresa. Fui fisgado pela faixa-título (“Helen burns”, Flea & Patti Smith), balada arrastada na voz da também parceira Patti Smith. Mas, o interesse aumentou com a de abertura, “3333”, instrumental zen-lounge-jazz-eletrônico-clássico bem desenvolvido através de 8 minutos e três segundos (e que tem mais 7 minutos e meio, retornando como penúltimo tema, “3333 Revisited”). Entre as seis faixas há mais instrumentais, “Pedestal of Infamy”, de melodia pegajosa, e a vinheta “A Little bit of Sanity”. Esta antecede “Helen Burns”, apenas com Patti e piano e baixo de Flea.

Com exceção de Patti (canto e letra), de bateria e percussão (alternada entre o colega no Red Hot Chad Smith, Jack Irons e Stella Mosgawa) e, na sexta e última, “Lovelovelove”, das vozes de The Silverlake Conservatory Kids and Adults Choir, Flea cuidou dos sons. Incluindo trompete, que foi seu primeiro instrumento, retomado graças ao apoio de Rickey (pai de Kamasi) Washington.
Cheguei tardiamente a “Helen Burns” levado por algoritmo após, no início de janeiro, conferir “Traffic lights”. Este, o primeiro single de “Honora”, que é anunciado pelo “New York Times” como o primeiro álbum de Flea, e “sua incursão profissional no jazz”. Ainda segundo o diário estadunidense, é uma “faixa solta e arejada, que sobrepõe riffs de guitarras sinuosos e ritmos afro-brasileiros”. Descrição que não corresponde ao que sai da caixa de som, canção quase caricata devido ao habitual fiapo de voz de Thom Yorke (também em piano e sintetizadores). Flea já se juntara à cabeça do superestimado Radiohead no efêmero e esquecível projeto Atoms for Peace, onde também esteve o brasileiro Mauro Refosco – este volta com a percussão em “Traffic lights”.

Nessa véspera do Carnaval 2026, esbarrei no texto acima abandonado há mais de três semanas no laptop e, voltando a “Honora”, vi que mais duas faixas chegaram ao streaming. “A plea” tem levada jazzística e instrumental em sua primeira metade, prosseguindo com um canto-fala à la Gil Scott-Heron no restante de seus 7 minutos e alguns quebrados. Enquanto “Think about you” (4’10”) é balada jazzy com introdução de cordas que se mantém como cama para intervenções de trompete e baixo. O suficiente para mudar a opinião desse escriba sobre o também ator Michael Peter Balzary (Flea) e manter “Honora” na biblioteca, aguardando as sete faixas restantes que entrarão na rede em 27 de março. Por fim, reouvida agora em 12 de fevereiro de 2026, até “Traffic lights” dá para o gasto.
PS: Mesmo sem participar da folia aplaudo o carnaval.
PS2: Perguntei à IA quem é a covergirl de “Honora”: “… o álbum de 2026 de Flea (Michael Balzary), apresenta uma fotografia da década de 1960 de sua sogra, Shahin Badiyan.”
