Itamar Alves revê a carreira do recentemente falecido Lô Borges e conversa com o gaúcho Vitor Ramil sobre a importância da obra do compositor mineiro
Para ser lido ao som de Lô Borges no “disco do tênis”, de 1972

Em 1972, Lô Borges tinia com 20 anos e morava no Rio de Janeiro com Milton Nascimento e Beto Guedes, parceiros do disco-manifesto-mesa-de-boteco-barroco Clube da Esquina. As sessões de gravação rolaram em novembro do ano anterior, em Niterói, com Lô e Milton capitaneando as composições, enquanto uma enxurrada de mineiros responsíssimos ajustava os girassóis nos cabelos das canções. O disco foi lançado em março, geral ficou embasbacado e a gravadora EMI viu que Milton estava certo em apostar no moleque. Borges tinha as canções, a voz e o physique du rôle para estourar entre a garotada espremida debaixo da bota de Médici. Convenceram-no a montar seu primeiro disco solo ainda naquele ano.
Para cima do coturno da tigrada, os adidas surrados na capa de Lô Borges brilharam na discoteca de quem ficava melhor assim. Lançado poucos meses depois da estreia em vinil com o pessoal do Clube, porém, o disco custou mentalmente ao seu autor. Lô teve que compor as faixas durante as sessões de gravação, num ritmo frenético que envolvia escrever e gravar quase que uma canção por dia. No fim das sessões, o músico estava esgotado. Os tênis não estamparam a capa de graça, enfim, e Lô pediu o boné assim que a bolacha ficou pronta. Sumiu por seis anos.
Borges não exatamente renegou sua estreia a partir de então, mas a verdade é que só o revisitou com convicção em 2018, auxiliado por uma nova geração de músicos que idolatravam aquelas músicas. Lô considerava Via-Láctea (1979) sua verdadeira “entrance”, já que foi composto, arranjado e produzido de acordo com os preceitos mineiros para o preparo de torresmo: no tempo que o tempo levar. Uma relação com a própria obra nada incomum entre músicos, diga-se. O gaúcho Vitor Ramil, que tem uma carreira curiosamente parecida com a do mineiro, tampouco tem em alta conta seu primeiro disco, Estrela, Estrela (1981). “Sim, isso de sermos muito jovens no começo, eu não lembro com quantos anos o Lô começou, acho que no Clube da Esquina ele tinha tipo 19 anos, é mais ou menos a idade com que eu lancei o Estrela Estrela. Comecei a gravar com 18, ele saiu quando eu estava com 19, as canções vinham de antes, sei lá, dos 14 e 15 anos. Tem tudo a ver também a coisa da família de músicos, o fato de ser caçula de uma família de músicos, tudo a ver. Eu não sabia que o Lô tinha renegado os primeiros trabalhos dele. Eu, na verdade, sempre reneguei todos os trabalhos. Assim que eles passam, eu saio num processo de renegar, é um pouco uma maneira minha de funcionar, de ir para o próximo, vamos dizer, de não deixar me acomodar com nada. Talvez o mais renegado de todos tenha sido o meu primeiro disco mesmo, muito por isso, por eu ser muito garoto e estar cercado de caras com linguagens muito fortes, arranjadores muito fortes, enfim. Mas acho que esse é um processo que termina sendo positivo, eu curiosamente gosto muito e conheço principalmente as primeiras coisas do Lô, acho que ele não podia ter renegado esses primeiros trabalhos.”
Borges não estava para brincadeira quando resolveu voltar ao estúdio. Via-Láctea é um disco explosivo nos arranjos e minucioso nos detalhes, já na abertura com Sempre Viva. Em um delicioso compasso 3×4, coisa em que os mineiros eram craques, a canção se desdobra em um mar de violas, violões e uma linha de baixo estratosférica. Entre uma guarânia garageira e uma balada beatlenesca sertaneja, o disco avança. Lô é de uma geração que fez mistura certeira entre o regional, a mpb e o pop mundial. Não foi a primeira, nem seria a última. O tiro engatilhado no caldo da mistura largaria balas ecoando na segunda metade da década de 1990, quando o pop brasilis voltaria a se reencontrar com gosto entre o lado de dentro e o lado de fora, estandarte da geração manguebit e da “estética do frio” de Vitor Ramil, que faz coro. “O que é bacana na geração deles, do Clube da Esquina, é que eles criaram uma música de um Brasil que não é o Brasil litorâneo, não é o Brasil do eixo Rio-Bahia, é uma coisa de muita força, muita particularidade, acho que talvez o único grupo dentro do Brasil, do interior do Brasil, vamos dizer assim, que criou uma linguagem forte o suficiente a ponto de se tornar representativa, de se tornar marca de identidade, no caso de Belo Horizonte e Minas Gerais. O Clube da Esquina, o Lô, o Milton, essas são minhas principais influências, na verdade, especialmente no começo. Eu sempre digo isso, que eu era tipo um discípulo do Milton, para cantar, para tudo, e o Lô, sempre que eu ouvia as músicas, as canções dele, eu me arrepiava, e certamente a mistura que gerou o Lô tem muito a ver com a mistura que me gerou também, embora eu tenha uns dez anos a menos do que ele, que é Beatles principalmente.”
Lô Borges nunca parou de compor e gravar. Foi discreto nas décadas de 80 e 90, mas voltou forte já no início dos 2000, quando Dois Rios, parceria sua com o conterrâneo Samuel Rosa botou a conexão Minas-Liverpool de volta às paradas. Curiosamente, é por volta desse período que Clube da Esquina, o disco, vinha ganhando aura cult entre europeus, especialmente entre escoceses e demais bebuns britânicos. Eventualmente, garotada indie estaria citando Lô Borges como influência, como faziam os Arctic Monkeys. Um círculo que se fechava, talvez? Não pra Lô, que lançava um disco atrás do outro – consistentemente bons, vale dizer – e se atolava em agenda de shows. Sem tempo, irmão. Quando eu morrer eu descanso. Sempre Viva Lô Borges.
