Cantora renasce a cada momento em seus discos
Para ler ao som de “Nana Caymmi” (1975)
Há cerca de duas décadas, adotei o bordão que ouvi de um colega mais experiente na helldação: “A melhor é a que estou ouvindo no momento”. Naquele dia, jogávamos conversa dentro sobre qual a melhor jazzsinger, divididos entre Billie e Ella, ou Sarah.

Quando a discussão mudava para as brasileiras que entraram em cena nos anos 1960, e era obrigado a descer do muro, optava pela cantora que nos deixou ontem, 1º de maio, dois dias após completar 84 anos. A cantora de “voz uterina”, como arrisquei sem nada entender de fisiologia em crítica publicada na “Som Três” no início dos anos 1980.
Googleei sem sucesso atrás de meu texto, provavelmente sobre o álbum “E a gente nem deu nome” (1981), na revista idealizada e publicada por Maurício Kubrusly por mais de uma década. Em troca, a IA, sem que tenha pedido ajuda, jogou-me na cara que “‘Voz uterina’ é uma expressão que, em contexto geral, pode ser entendida como a capacidade do bebê de ouvir no útero, principalmente a voz da mãe”.

OK, está valendo. Nana é uma espécie de mama da MPB. E nos anos 1970, enquanto amantes da canção popular brasileira se dividiam principalmente entre Elis e Gal, a filha de Dorival foi aquela que fez os mais belos e duradouros discos. Para defender essa escolha listo os que lançou nos anos 1970, o primeiro deles, “Nana Caymmi“, gravado e editado em 1973 na Argentina – oito anos após seu álbum de estreia. Em seguida, por uma gravadora independente carioca, CID, dois outros trabalhos fabulosos, “Nana Caymmi” (1975) e “Renascer” (1976). Andando para as fórmulas da indústria, com o timbre grave e profundo dos Caymmi, cercada de grandes músicos e compositores como Donato, Toninho Horta, Novelli, Danilo, Robertinho Silva, Ivan Lins, Nelson Angelo, Hélio Delmiro, passeou por canções de seus contemporâneos ou voltou a Peterpan, Zé do Norte e, sempre, Dorival, Jobim, Vinicius.
Elis pode ser a mais técnica; Gal a de timbre mais belo. E ainda, correndo por fora e dentro, cada uma com diferentes méritos, Clara, Beth, Bethânia, Alcione, Leci, Nara (PS: e, lembrado por comentário de Luciano Soares no fckb, Leny!)… Mas, Nana foi e continua sendo a mais visceral.


E vamos lembrar também de Andy Bey, outro que acaba de partir, no dia 26 de abril, aos 85. Cantor e pianista de jazz, r&b, standards, ele estreou aos 17 anos, num trio que formou com suas irmãs, Salome e Geraldine, Andy Bey and the Bey Sisters. Foram três álbuns lançados entre 1961 e 65. Até 1974, quando fez seu primeiro solo, “Experience and judgment” (soul, funk e jazz com tinturas experimentais), ele participou de discos de Gary Bartz, Horace Silver, Max Roach, Stanley Clarke, entre outros nomes do jazz. E, a partir dos 1990, embarcou na trilha segura dos standards, mas sem abrir mão da invenção. Piano e a voz barítono de grande alcance, dando tratamento original ao cancioneiro pré-rock ‘n’ roll.
Geshwin, Cole Porter, Duke Ellington, Rodgers & Hart, Billy Strayhorn e, pulando para o Brasil, até Milton Nascimento.
“Descobri” Bey em 1996, em disco de um pianista: “Passion Flower: Fred Hersch Plays The Music Of Billy Strayhorn”. Ele participava da única faixa cantada, “Something to live for”, o suficiente para despertar o interesse por aquela voz e as interpretações tão diferentes e originais.
