Ao som de um bolero

Maria Cotinha Duhá exalta a magistral versão de Rita Lee para Besame Mucho, uma interpretação com força, doçura na voz e sensualidade na divisão das frases melódicas

Para ser lido ao som de Rita Lee em Rita Lee – Uma Noite no Luna Park (Ao Vivo)

Em 1986, quando o Brasil recebia a mais nova tecnologia no mundo da música com o lançamento do primeiro CD nacional intitulado Garota de Ipanema, com Nara Leão e Roberto Menescal, Guilherme Francini ainda não era nascido.  Em abril daquele ano o CD tinha chegado para desbancar o velho toca-discos, as fitas cassetes e os discos de vinil em formato analógico. A revolução digital do CD parecia que tinha vindo para ficar. Até que as plataformas de streamings apareceram com novas tecnologias tipo música pret-a-porter, pronta para ser executada. Clicou e ouviu. Acabou a curtição da loja do disco e a sedução de aguçar os sentidos de tocar, ver, ouvir e até cheirar um produto criado especialmente para um consumidor amante não só de música, mas de arte, já que a parte visual, gráfica, fotos, ilustrações dos formatos antigos eram também essenciais, e faziam parte do valor do pacote.

A Lei do Retorno, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, diz que todas as coisas “vêm-a-ser, passam e sempre retornam”. O reaparecimento do vinil corrobora esta tese: hoje, o velho vinil virou a nova onda. Totalmente rejuvenescido. Com a bolacha colorida, algumas marmorizadas e de um tamanho menor que o original, contendo dois discos no pacote. Neste contexto existe o trabalho do jovem Guilherme Francini, um paulistano de 31 anos com uma bagagem acadêmica admirável, uma estrela que está despontando no universo de ilustração dos vinis. Ele é formado em Design com especialização em Animação e agora cursa um mestrado em Literatura e Crítica Literária na PUC/SP. Sua meta profissional é concretizar sua grande paixão pela ilustração e tornar-se também autor de livros infantis.

Guilherme Francini estreou como ilustrador profissionalmente em 2019 com o trabalho que fez para o livro Amiga Ursa, de Rita Lee. Este livro, que é agora considerado um clássico da literatura infantil, tem uma mensagem para todas as idades: o sequestro, tráfico e aprisionamento de animais selvagens. Ações desumanas com fins comerciais.  Ele é vegano e ativista pela causa animal. “Os animais não têm voz e são vítimas de atrocidades inomináveis. É preciso olhar para eles com empatia e sensibilidade se quisermos uma sociedade realmente justa e sustentável.” diz.

Francini ilustrou mais três livros de Rita, a qual ele chama de fada-madrinha. E, ainda ilustrou dois livros e a capa do disco Maya para Xuxa, e para a ativista e protetora dos animais, Luisa Mell, ele criou a arte visual para o livro Se os Bichos Falassem.

Sua fada-madrinha o presenteou com a oportunidade de ser seu mestre na coloração da capa do livro Uma Outra Biografia. Uma relação professor e aluna única. Baseada no princípio dos opostos. Não só pela diferença de idade, no caso o mestre era quase 40 anos mais jovem que a aluna, mas também pela troca na colaboração: Rita, rainha para milhares de fãs, trazia a humildade de um aprendizado novo. E ela sempre esteve à frente do seu tempo. O espírito animista da artista, que considerava que mesmo inanimados os objetos possuem uma força de conexão, manifestou-se durante as aulas: “A Rita era uma aluna muito curiosa com tudo e dava nome a todos os pincéis e cores”, diz Guilherme.

Francini fez também a arte gráfica para o lançamento em vinil do musical a Marca da Zorra e de Rita Lee – Uma Noite no Luna Park (Ao Vivo), lançado em novembro deste ano. 

Rita Lee – Uma Noite no Luna Park (Ao Vivo) é um trabalho inédito. Um capítulo à parte na discografia do casal Rita e Roberto.  Um espetáculo ao vivo, ao som de bossa, bolero e Beatles com a participação do roqueiro argentino Charly Garcia. Neste presente de Rita e Roberto para os fãs merece destaque a magistral interpretação do bolero Besame Mucho. Esta canção foi gravada por inúmeros artistas, desde João Gilberto até os Beatles (no trabalho que apresentaram para a gravadora Decca, que foi recusado).  Mas a interpretação de Rita tem força, doçura na voz e sensualidade na divisão das frases melódicas, algo que a distingue das outras gravações. Este cover veio para ficar. E a carreira de Rita continua brilhando aqui neste universo. Um fato interessante é que Besame Mucho, letra e música, foi composta em 1932 pela mexicana Consuelo Velázquez. Ela tinha 16 anos de idade e era virgem. Mais tarde, Besame Mucho foi considerada a música do século 20, a música dos amantes…

O primoroso trabalho gráfico de Guilherme Francini que acompanha o vinil do show do Luna Park traz uma magia “flower-power”, lisérgica, hippie, anos 70. “A foto da capa é de Gui Samora, melhor amigo, fã número 0, e editor dos livros de Rita, que a acompanhou na Argentina. Mas, desde o início, a ideia era fazer algo com ilustração”, diz Francini. Segundo ele, a capa foi aprovada de primeira pelo Rob, que ficou superfeliz com o resultado. 

Ao apagar das luzes de 2024, em 31 de dezembro, quando os milhares de fãs de Rita celebrarão mais um aniversário da musa – agora vibrando em outra dimensão – talvez seja a hora de premiar Rita Lee no Luna Park como o vinil do ano. Um presente de inspiração divina que o afilhado deu à fada-madrinha. A simbiose perfeita entre a imagem e o som. Parabéns, Rita Lee! 

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