Sons de panetone e rabanada

De repente é Natal, até com álbum de repertório inédito e bom

Para ler ao som de Christmas Dream, com Alma Thomas

Ateus de berço, filhos de pais que largaram suas respectivas religiões – ela, católica; ele, cristão ortodoxo -, em nossa casa (Floripa ou Rio) sempre comemoramos o Natal. Com direito a árvore e presépio e presentes e comes e bebes característicos. E acreditando em Papai Noel – talvez até aos 6, 7 anos. 

São lembranças fortes, que incluem a canção natalina  brasileira por excelência: “Boas festas”.  De Assis Valente, com sua mensagem triste e social: “Eu pensei que todo mundo / fosse filho de Papai Noel…”.

Com nossos filhos, também não batizados, K (ela, ex-católica) e eu mantivemos a tradição natalina. Apesar disso, nunca fui atraído por outras canções ou discos com o tema. Daí todo esse nariz de cera cheirando a rabanada, castanha, panetone para apresentar um disco de Natal que nos representa.

Quando, há duas semanas, a cantora Alma Thomas me procurou perguntando se aceitaria escrever o texto para divulgação de seu novo álbum, falei o de praxe: só poderia dar a resposta após conhecer o trabalho. 

Então, no idioma nativo da nova-iorquina, “to make a long story short”, vamos aos dois textos (não tão curtos assim, um sobre o disco; outro, breve currículo de Alma) encomendados. E, de quebra, o link de um artigo que, há 11 anos, também fiz por encomenda dos então editores do G1: Natal em disco. (Sim, continua no ar o que escrevi entre 2012 e 30 de dezembro de 2017 no blog, mesmo que sem as imagens).

“Cidade Natal”

“Em 2024, temos um álbum de Natal para chamar de nosso. E nós somos todos aqueles aficionados de jazz, soul, funk, gospel, gêneros que dão as caras nas oito composições autorais de ‘Cidade Natal’, o novo disco da cantora Alma Thomas. Nova-iorquina radicada no Brasil há 20 anos, ela dá tratamento contemporâneo a uma tradição que é forte em seu país, onde, artistas de diferentes estilos sempre lançam músicas natalinas. Até hoje a revista “Billboard” mantém uma parada exclusiva para o gênero, Holiday 100, na qual se misturam gravações antigas e recentes dos sucessos de sempre.

Em seu quinto disco autoral, Alma mostra a ousadia habitual. Foca o Natal, mas, sem regravar clássicos, mantendo o perfil dos trabalhos anteriores, calcados no jazz e em repertório próprio. Ao seu lado, parceiro em quase todas as músicas, está o companheiro nas duas últimas décadas e pai de seus dois filhos adolescentes, o pianista e arranjador Pedro Milman. Ele também foi o responsável por gravação, mixagem e masterização de ‘Cidade Natal’, no estúdio Sputnik Phonograms, que o casal mantém no bairro da Glória, no Rio de Janeiro.

Cinco anos após o último álbum, ‘Soneto do Animal Sapiens'(que dividiu os créditos com Milman e Paulo Diniz), desdobrando-se entre a carreira solo, a criação dos filhos e o trabalho como vocalista do rapper baiano Baco Exu do Blues e jurada em um programa de calouros, Canta Comigo, na TV Record, Alma se viu com três semanas livres na agenda. Foi a oportunidade para realizar um sonho antigo, ela que, desde criança,  sempre se encantou com as celebrações de Natal. O repertório mescla composições que aguardavam vez com material que escreveu já com o projeto em andamento. Em cerca de nove dias, Alma (voz) e Pedro (piano e arranjos) gravaram acompanhados de Pablo Arruda (baixo), Pedro Mamede (bateria), Thiago Trajano (guitarra), Batista Jr. (clarinete) e Brandão Collier (vocais). Espírito de Natal nos temas das letras e de jazz no tratamento musical e nas interpretações.

Apenas no piano, o tema instrumental que abre o disco começou a ser escrito há 20 anos por Pedro, como um presente para a pessoa que virou sua… alma gêmea. Rebatizado agora de ‘Alma natalina’.

Já ‘On your way home’ tem até data de nascimento exata, 25 de junho de 2009, o dia em que Michael Jackson morreu. Então com um bebê de três meses, Alma sentiu necessidade de expressar a dor pela perda daquele que foi uma referência de criança, com quem começou a aprender a cantar.

‘Christmas dream’ tem um clima de celebração, como numa jam, os músicos conversando e rindo no início, enquanto o groove e a melodia se instalam.  O resultado pode remeter a canções de outro gênio trágico do soul e do funk, Donny Hathaway. Alma fez a letra recentemente, relembrando o primeiro encontro com Pedro, em Boston, onde os dois estudavam música, numa manhã em que, sozinhos na rua, caiu a primeira neve daquele inverno.

A canção que dá título ao álbum era originalmente em inglês. Para a nova letra, em português, Alma usou da experiência de imigrante e as memórias das cartas que recebia do avô, vindas da ‘Cidade Natal’.

‘Acender’ é a letra mais explicitamente natalina, com direito a árvore e jingle bells, mas, ‘é mais que um filme de Natal’. Fala sobre perdas e de como a saudade bate forte nesse período do ano. O gatilho para a inspiração foi a notícia de que a Justiça teria chegado aos executores da morte de Marielle Franco.

Escrita durante o período de confinamento obrigatório da Covid 19, quando os humanos se conectavam através de telas, ‘Love’ tem os filhos adolescentes de Alma e Pedro como destinatários iniciais de uma mensagem que vale para todos, a necessidade vital do amor. ‘We need love / This is love / it’s part of us’.

Última canção escrita, em meados de novembro, quando se preparava para entrar no estúdio, ‘De verdade’ mostra como, após duas décadas, a cultura brasileira já está impregnada na arte de Alma. Ela conta que começou fazendo a harmonia mirando uma bossa nova, mas, acabou caindo no afoxé. Influência de  sua alma baiana. Afinal, antes de se mudar para o Rio com Pedro, ela e uma colega de faculdade estiveram no interior baiano, o Vale do Capão (no Parque Nacional da Chapada Diamantina). Conexão que se intensificou nos últimos três anos, quando Alma se integrou ao grupo do rapper baiano Baco Exu do Blues. Na letra, o ambiente natalino também é brasileiro, ‘sem neve, calor e brisa leve’.

Por fim, a canção natalina com direito à neve foi presente de um colega na banda de Baco Exu, o diretor musical e guitarrista Marcelo De Lamare. Alma comentou do disco conceitual que começara a fazer e, no dia seguinte, recebeu ‘Tomorrow will snow’, já com a letra em inglês, que depois fez alguns ajustes e acréscimos. É fecho perfeito, e também a faixa na qual a jazzsinger de técnica e paixão impecáveis se solta de vez. Instigada pelo tema e pelos voos de guitarra e piano, os  improvisos e scats de Alma Thomas também parecem convidar Ella Fitzgerald para a festa.

‘Cidade Natal’, o disco, é presente para o ano inteiro entre aqueles que celebram a grande música”.

Alma Thomas, uma apresentação

Em três décadas de formação e experiências profissionais, Alma Thomas é uma intérprete eclética. Ao lado da cantora, compositora e arranjadora autoral, está uma artista de sucesso em programas de TV, vocalista em discos e shows de diferentes artistas, professora de canto. 

Constatação proporcionada por alguns dos links selecionados pela própria. Seja recriando com identidade a ‘Natural Woman’ tão marcada pela visceral Aretha Franklin; como uma autêntica New Yorker, chamando de sua a ‘Empire State of Mind’ que Alicia Keys apresentou ao mundo junto a Jay-Z;  sendo a voz de ‘Crazy’ (sucesso de Gnarls Barkley) no comercial para a Vivo com 30 milhões de visualizações; ou recriando ‘Ribbon in the sky’, de Stevie Wonder, no projeto Alma Thomas e Baile Disco. 

No repertório do país que adotou, ela também passa com personalidade e frescor por sucesso de Alcione (‘Você me vira a cabeça’) ou clássicos de Gonzaguinha (‘Sangrando’) e Djavan (Maria das Mercedes’, esta, em duo com o violonista Nelson Faria). Há ainda, para não deixar dúvida, seu momento solo e solar como vocalista do rapper baiano Baco Exu do Blues, flagrado durante o show no Rep Festival 2022.

Impactantes exemplos de alguém que despontou cedo para a música. Aos 7 anos, já era cantora lírica numa igreja episcopal em Nova York. Aos 18, ganhou uma bolsa integral para especialização em ópera na Universidade de Massachussetts. Mas, logo, a moça percebeu que aquele não era o caminho. Chutou o balde, trabalhou algum tempo como vitrinista numa loja, até retomar a paixão primordial e os estudos, agora na Berklee School of Music, onde foi contemporânea de Esperanza Spalding. Lá, em 2003, também conheceu aquele que virou sua cara-metade, parceiro na música, na vida e na concepção dos dois filhos adolescentes, o pianista Pedro Milman.

Radicados no Rio de Janeiro a partir de 2004, foi no novo lar que ela realmente se soltou como intérprete, jazzística ou pop, arranjadora e coach vocal, tudo dependendo da necessidade ou da vontade. A lista de trabalhos desde então é enorme: os discos e os shows autorais, as canções em trilhas de cinema (‘Se eu fosse você’ e ‘De pernas pro ar’) e novela (as globais ‘Passione’ e ‘Pega pega’), as participações em discos e shows de artistas como Gilson Peranzzetta, Ed Motta (vocais no álbum ‘Criterion of the senses’, 2018), Oléria, Celso Fonseca, Daniel, Ana Carolina, Alceu Valença, Roberto Menescal, Gabriel Moura, George Israel. 

Em seu grupo, Alma também dividiu a programação de clubes ou festivais de jazz com  artistas como Ron Carter, Dave Holland, Kurt Elling, Trio da Paz, Dave Zinno, Joe Barbato, MikeWalker e Mike Tucker.  Em 2017, também lançou ‘Love yourself’, álbum com tratamento bossa-novista para sucessos internacionais de diferentes estilos e períodos.

Há três anos na banda de Baco Exu do Blues, desde então, Alma ampliou o alcance, muitas vezes para multidões, de 50 mil a 100 mil pessoas, em festivais no Brasil e no mundo. A intérprete também tem chegado a multidões via TV, como semifinalista, em 2012, da primeira edição do programa ‘The Voice Brasil’ (Rede Globo) e vencedora da segunda temporada, em 2020, de ‘The Four Brasil’ (Record TV). Desde 2020,  Alma é jurada dos reality shows ‘Canta Comigo’ e ‘Canta Comigo Teen’ (Record TV e, agora, também disponível no Netflix).

Como se percebe, muitas experiências somadas em uma única e original Alma Thomas”.

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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