Música de Jobim sobrevive aos deslizes
Para ler ao som de Borzeguim, de e com Tom Jobim (e Banda Nova)
Quase 30 anos após a morte de Antonio Carlos Brasileiro de Almeida – em 8 de dezembro de 1994, em Nova York -, sua grandiosa e diversificada música não para de encantar o mundo. E é o que garante “Tom Jobim Musical”, espetáculo em cartaz no Teatro Casa Grande, no Rio, que estreou em 17 de outubro e fica em cartaz até 15 de dezembro.

A plateia que lotou a segunda sessão de ontem (sábado, 26/10) cantou junto em muitos momentos, atendendo o pedido de Vinicius de Moraes (encarnado pelo ator Otavio Muller). Também parece ter saído empolgada, após cerca de duas horas e meia de peça. Porém, tirando as canções (bons arranjos e instrumentistas e coro, direção musical de Thiago Gimenes) , “Tom Jobim Musical” confirma o esgotamento de um gênero híbrido – biografia de grandes nomes da música brasileira – que nas duas últimas décadas virou uma receita certa de sucesso.
Há boas atuações – assim como Muller, Elton Towersey também convence como Jobim -, mas, alguns equívocos em roteiro (Nelson Motta e Pedro Brício), figurinos (Theodoro Cochrane) e canto dos solistas (enquanto brilham os corais) jogam contra.

A vida pessoal (e normal, vista de longe) de Tom não tem muitos elementos dramáticos e condensar quase cinco décadas de inovadora e singular carreira artística em duas hora e meia não é tarefa fácil. A solução de botar Vinicius como fio condutor – sem mudança de aparência e figurino, caracterizado fielmente em sua última década de vida – foi boa, mas, há excesso de personagens secundários, mesmo que muitos deles importantíssimos no trajeto de Tom. Alguns destes destoam: por quê Jair Rodrigues? Apenas para justificar a breve alusão ao Golpe de 64, com a interpretação caricata (pelo ator Lucas da Purificação) de “O morro não tem vez”? Sim, ótimo cantor, Jair muitas vezes também foi caricato em suas interpretações, mas, por quê realçar isso? Mesmo que nem sempre siga a cronologia – o próprio Vinicius/Muller, quebrando a quarta parede, alerta sobre isso no momento sobre o disco “Elis e Tom” inserido fora de ordem -, a breve aparição de Jair Rodrigues poderia ter sido trocada por uma menção a Baden Powell. Afinal, este virou um parceiro de Vinicius tão fundamental para a canção brasileira que se fez a partir de “Garota de Ipanema”, influenciando até Jobim em sua fase mateira.
Sobre os figurinos, têm as décadas de 1950 e 60 como base, período em que se concentra boa parte da peça, mas, no trecho sobre “Orfeu da Conceição” os atores trajam roupas gregas. Melhor seria se manter fiel ao usado tanto na montagem do Teatro Municipal do Rio (em 1956) quanto nas duas versões para o cinema, a de Marcel Camus (“Orfeu negro”, em 1959) e a de Carlos Diegues (“Orfeu”, em 1999). Nelas, os moradores do morro carioca no qual acontece a história se vestem como… moradores de um morro carioca. Mais um detalhe que reforça o não intencional tom de chanchada desse Jobim revivido nos palcos.
Tom Jobim nunca é demais. E há momentos sublimes nessa montagem, como o de “Borzeguim”, coreografia e coro magistrais. Mas, chega de biografias musicais no teatro e no cinema, de tributos e “featurings” em discos. Viva a música brasileira.

Ótimo texto. Obrigado, Miguel!
Eu que agradeço a leitura, caro Juarez. E por falar em leitura, estou mergulhado em teu livro de entrevistas, Aquarela Brasileira: Anos 1980. Preciso e precioso. Grande abraço