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Antônio Carlos Miguel não resiste à musicalidade atemporal da banda inglesa The Last Dinner Party

Quem me acompanha por aqui já percebeu que, mesmo com um cardápio baseado principalmente em música brasileira, jazz, pop e impressionismo, o rock não me larga. Há uma semana, por exemplo, ando abduzido por The Last Dinner Party e seu álbum de estreia, Prelude to ecstasy, lançado em 2 de fevereiro passado pelo selo Island.

Ouça/veja “My lady of mercy”

Prelude to ecstasy confirma o impacto do primeiro single, editado há um ano,  “Nothing matters”, com seu refrão provocante: “And you can hold me like he held her / And I will fuck you like nothing matters” (algo como “E você pode me abraçar como ele a segurou / E eu vou te comer como se nada importasse”). Segundo a cantora Abigail Morris não se cansa de contar em entrevistas, criada em família muito católica no interior da Inglaterra, só em Londres ela se se sentiu livre para cantar o amor entre mulheres. 

Muitas outras canções, sempre assinadas pelo quinteto – que é completado por  Lizzie Mayland (guitarra, vocais e flauta), Emily Roberts (guitarra solo, bandolim, vocais e flauta), Georgia Davies (baixo e vocais) e Aurora Nishevci (teclados e vocais) -, trazem letras com esse perfil. Feministas que não levam desaforo para casa como mostram em “Sinner”, “On your side”,  “Feminine urge”, “My lady of mercy”, “Portrait of a dead girl” e “Beautiful boy”. Nesta,  vão à luta: “O melhor que um garoto pode ser é bonito /Ele lança navios nos quais navega em segurança /E o que estou sentindo não é luxúria, é inveja / (…) / Eu gostaria de ser um menino lindo”. No meio do disco, “Gjuha” (“Língua” em albanês) é uma vinheta lírica cantada no idioma da mãe de Aurora e que funciona como introdução para a vigorosa “Sinner”.

Ouça/veja “Sinner”

Essas cinco moças, com idades entre 24 e 28 anos, se encontraram em 2021, quando cursavam a faculdade – três estavam na King’s College London; duas, na Guildhall School of Music and Drama. Passado o auge da pandemia, elas, mais uma baterista contratada (atualmente, Rebekah Rayner), começaram a atrair o público no circuito de bares e clubes da capital inglesa. Em novembro do ano passado, antes de o primeiro álbum chegar às plataformas, foram escaladas como a atração de abertura de um show dos Rolling Stones no Hyde Park. Apesar desse aval, a sonoridade de The Last Dinner Party está mais para Beatles encontra David Bowie, Kate Bush e Queen – ou melhor, Sparks, o duo de Los Angeles que desde o início dos anos 1970 também faz um rock meio operístico. Em resenhas, quase sempre elogiosas, a imprensa anglo-americana também lista entre as referências  Siouxsie and The Banshees (musicalmente, muito aquém, por sinal), Sinead O’Connor e Florence + The Machine. Estas duas, tiveram canções interpretadas pela banda, respectivamente, “Mandinka” e “Dogs days are over”, e as versões de The Last Dinner Party são bem mais interessantes do que as originais.

Ouça/veja ‘On your side”

Melhor mesmo são as composições do quinteto em Prelude to ecstasy.Introduzido pelo tema instrumental que dá nome ao disco, através das outras 11 faixas The Last Dinner Party funde a formação básica do rock com arranjos orquestrais. Alternando temas melódicos e peso, boas guitarras, são canções de quem sabe o que faz e tem pretensões muito além do básico de rock e pop.

Se atualmente, com infinitos recursos de estúdio e até música criada por IA (essa semana, testei o app Suno e “fiz” oito canções), o que não faltam são falsos artistas, a agenda lotada de shows prova que ainda vamos ouvir muito falar de The Last Dinner Party.

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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