Jobim ‘chansongs’: letras e músicas de Tom

Antônio Carlos Miguel retoma sua obsessão por uma faceta nem sempre saudada do genial Antonio Brasileiro

Para ler ao som de… “Chansong”, de e com Tom Jobim

Ao lado do compositor e do arranjador excepcionais, do pianista certeiro no seu minimalismo e do (não) cantor perfeito para a música que criou, estava um letrista igualmente genial. Detalhe que nem sempre é lembrado. Sem parceiros, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim é o autor de letra e música de, entre outros clássicos,  “Samba do avião”, “As praias desertas”, “Fotografia”, “Este seu olhar”, “Olha pro céu”, “Corcovado”, “Só em teus braços”,  “Chovendo na roseira”, “Triste”, “Lígia”, “Wave”, “Águas de março”, “Ângela”, “Luiza”, “Querida”, “Borzeguim”, “Two kites”, “Chansong”…

Lista que também poderia incluir as letras-manifesto da bossa nova que fez com Newton Mendonça. Com este, também pianista e compositor, dividiu música e letra de “Desafinado” e “Samba de uma nota só”, e ainda “Meditação”, “Caminhos cruzados”, “Discussão”, “Incerteza” (esta, a primeira canção gravada dos dois, em abril de 1953, pelo cantor Mauricy Moura).

No fim de 1994, em crítica sobre seu último disco lançado em vida, Antonio Brasileiro, alguém disse… “mais uma vez jogando contra estão suas letras, que têm sido o ponto fraco desde a morte de Vinicius”. Esse era o sentido geral da frase, que cito de memória. Sim, gosto se discute, mas há um erro básico no enunciado: quando Vinicius de Moraes morreu, em 1980, os dois não faziam música juntos há pelo menos uma década. Na verdade, após “Garota de Ipanema”, composta em 1962, a dupla Tom & Vinicius só fez mais duas canções, “Chora coração” (o trecho cantado da suíte “Crônica da casa assassinada”, criada entre 1970 e 71) e “Olha Maria” (esta de 1970, e fruto de um “trisal” completado por Chico Buarque). Portanto, independentemente do que assinou sozinho em Antonio Brasileiro – “Querida” (lançada três anos antes, em novela de mesmo nome na Globo), “Pato preto” e “Samba de Maria Luiza” –  Tom foi um grande letrista antes  (como já provara “Outra vez”, lançada por Dick Farney, em 1954), durante e depois da rica parceria com Vinicius.

Ainda nos anos 1950, antes de começar a compor com aqueles que foram os dois principais parceiros na bossa nova, Newton Mendonça e Vinicius,  e em meio aos tantos outros letristas nesses primeiros anos – Alcides Fernandes (morador do Morro do Cantagalo, casado com uma empregada doméstica de sua família), Marino Pinto, Billy Blanco, Dolores Duran, Luiz Bonfá,  Juca Stockler, Aloysio de Oliveira -,  Tom Jobim já cometia suas letras. Entre outras, são só suas também as canções “Pensando em você” (gravada por Ernani Filho em 1953), “O que vai ser de mim” (por Nora Ney, 1955), “As praias desertas” (Elizeth  Cardoso, 1958), “Esquecendo você” (Sylvia Telles, 1959), “Cai a tarde” (Lenita Bruno, 1959), “Fotografia” (Sylvia Telles, 1959), “Este seu olhar” (Dick Farney, 1959). 

Muitas das citadas acima se juntam a “Outra vez” como exemplos do quanto bom e inovador letrista Tom foi. Especialmente, “Fotografia”, que, indo além do título, é um curta-metragem em forma de canção, montado a partir de flashes, que flagram o casal num bar na orla de Copacabana:  “Eu, você, nós dois / Aqui nesse terraço à beira-mar (…) A tarde cai / Em cores se desfaz (…)  E uma grande lua saiu do mar (…) / E veio aquele beijo”.

Lançada em 1960, e com quatro gravações na largada (nas vozes de Lana Bittencourt, João Gilberto, Sylvia Telles e Isaurinha Garcia), “Corcovado” é  a canção-fotografia por excelência. Registro da paisagem que Tom e Thereza (mais os filhos Paulo e Beth) descortinavam na sala do apartamento na Rua Nascimento Silva 107: “Da janela vê-se o Corcovado / O Redentor, que lindo!” Pouco anos depois, ao voltar de uma temporada nos EUA, Tom não tinha mais a vista, encoberta por um prédio no outro lado da rua em Ipanema. Como a Itabira de Drummond, a imagem virara apenas uma fotografia na parede. Ou uma canção-postal, que está entre as melhores e mais gravadas até hoje em sua obra.

De 1962, a letra de “Samba do avião” é outra que sintetiza muito da maestria de Jobim no uso de imagens cristalinas e diretas. É mais um curta-metragem em forma de samba, documentando o pouso no aeroporto internacional que hoje leva seu nome. Com edição ágil, pinceladas suaves,  as palavras dançam rítmica e harmonicamente e vão nos passando flashes da aproximação com o “Rio de sol, de céu, de mar”. Aparece um marco emblemático da paisagem carioca (“Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara”), os avisos de bordo viram versos (“Dentro  de mais um minuto estaremos no Galeão”, “Aperte o cinto, vamos chegar”), para finalmente experimentarmos com o passageiro-compositor as sensações da descida: “Água brilhando, olha a pista chegando / E vamos nós/ Aterrar”. Canção e pouso perfeitos.

Quase uma década e meia depois, pegamos carona em outro voo, dessa vez em “Ângela”, a arrastada e melancólica balada (que teria sido oferecida a Roberto Carlos, que a recusou): “…Lá embaixo a terra é um mapa / Que agora uma nuvem tapa”. 

Ao lado do poeta de imagens sintéticas, hábil no uso de pílulas de lirismo e musicalidade, quando o tema pede, Jobim pode ser palavroso, caudaloso. “Águas de março” é o melhor exemplo disso, e também a canção que não deixou dúvidas do talento do maestro soberano no trato com as palavras cantadas. Aquele que Chico Buarque carimbou de “o samba mais bonito do mundo” nasceu de muitos estímulos, num fim de  verão no sítio do Poço Fundo, na região serrana do Rio, em meio aos perrengues da construção de uma casa nova e da criação de uma “suíte mateira” que tinha entre suas influências o pio de uma ave, o conto Duelo, de Guimarães Rosa, e o poema “Um estranho chamado João”, de Drummond. Tarde da noite, tateando no que viria ser a canção “Matita Perê”, como que baixou na cabeça de Tom o verso “é pau, é pedra, é o fim do caminho…”. Thereza gostou, pegou um lápis e um papel de embrulhar pão para que ele registrasse o tema que começava a nascer. Jobim ainda trabalhou mais algumas horas madrugada a dentro e no dia seguinte completou “Águas de março”, como prova o manuscrito original reproduzido no Cancioneiro Jobim. Assim que voltou ao Rio, tratou de mostrá-la aos amigos, que também se empolgaram com aquela enxurrada criativa. A versão em inglês manteve o título, “Waters of March”, mas com a letra adaptada para o calendário do Hemisfério Norte. No lugar de fechar o verão, as águas (dos degelos que descem pelos rios) anunciam a primavera. Enquanto, num preciosismo de um apaixonado por dicionários e outras culturas, Tom usou apenas palavras anglo-saxônicas, evitando as de raiz latina.

Nessa época, dominando bem mais o idioma de Shakespeare e… Rambo, Jobim já percebera o desmatamento que muitas das versões vinham fazendo nas letras da bossa nova. Assim, a partir de meados dos anos 1970, tratou de ele mesmo verter o que sobrara. Ou até compor diretamente em inglês, como ilustram  “Two kites” (delicioso tema pop-jazzy que tem como cenário Nova York, lançado no álbum Terra Brasilis, em 1980) e “Chansong”. Esta, gravada em Passarim (1986), narra num inglês apimentado por expressões francesas (bouquet, touché, pince-nez, pas-de-deux) seu desembarque em Nova York no fim dos anos 1970, quando foi contratado pela Warner. O título mistura as palavras em francês e inglês para canção, “chanson” e “song”, e pode servir como pista para uma charada, a sutil reverência que fez a George Gershwin. O trecho com os versos “Oh, it’s been  a long, a very long time / Since a Brazilian has been in Paris com você” vem de frase melódica de “An American in Paris” – lá pelos 17 minutos da sinfonia de Gershwin está a melodia, que Tom bisa no fim de sua “Chansong”, agora  como  “Oh, it’s been  a long, a very long time / Since a Brazilian has danced with you le pas-de-deux”. 

Mais do poeta caudaloso pode ser conferido em canções épicas como “Borzeguim” (1981) e “Gabriela” (1983). A segunda foi feita para o filme de Bruno Barreto a partir do livro de Jorge Amado –  estrelado pela mesma Sonia Braga da novela global anos antes – e cita/reverencia a canção que Dorival Caymmi tinha feito para a trilha da Globo.

Letras que confirmam o grande leitor de poesia que Jobim também foi. E ainda algo do DNA do pai com quem pouco conviveu, o poeta parnasiano e diplomata Jorge Jobim – gaúcho de São Gabriel que morreu no Rio em 1935, quando Tom tinha 8 anos. No livro Tons sobre Tom, de Márcia Cezimbra, Tessy Callado e Tárik de Souza (Editora Revan, 1995), Jobim lista alguns dos poetas preferidos: Cassiano Ricardo, Alceu Wamosy, Manuel Bandeira, Gonçalves Dias, Bilac, Augusto dos Anjos e Drummond, muito Drummond. Na adolescência, já tinha o hábito de ler para a irmã, sete anos mais nova, Helena, e, depois, para a namorada e primeira companheira, Thereza. 

Filha do primeiro casamento, Beth Jobim, artista plástica que, nos anos 1980 e até 1994, também foi uma das vocalistas da Banda Nova de Tom, conta que o pai manteve a paixão pelos livros. Também sempre gostou de dividir com quem o cercava as composições em que trabalhava. “Ele pedia a nossa opinião, se tal palavra era a mais apropriada, se aquela outra não ficaria melhor. E assim íamos acompanhando a gestação da música.”

Beth, no entanto, não lembra a razão de Tom fazer algumas sozinho e pedir ajuda para tantas outras. Ronaldo Bastos, perto dos seus 20 anos, começando a compor, antes de se consagrar com um dos principais letristas de Milton e do Clube de Esquina, vivenciou isso. Ele era um dos muitos assíduos frequentadores da casa de Tom e Thereza na Rua Codajás, no Leblon (depois homenageada em canção que Ronaldo fez com Danilo Caymmi) e, certa tarde, foi convidado para fazer a letra de “Wave”.  “Mas, Tom gostava de fazer junto, ele ao piano, e o parceiro ao lado, com lápis e papel na mão. Eu me senti intimidado, não consegui, até hoje, prefiro trabalhar sozinho, em casa, a partir de uma gravação da melodia.” 

Um ou dois dias depois, ao retornar com sua letra, Ronaldo encontrou “Wave” praticamente pronta. “Não tive como mostrar a minha, apenas sugeri uma frase, ‘da segunda, o cais e a eternidade’ , que entra após ‘da primeira vez era a cidade'”. 

Ronaldo só iria compor com Tom quase duas décadas depois, na trilha da minissérie O tempo e o vento (exibida na TV Globo em 1985), baseada no obra homônima de Érico Veríssimo. Eles dividiram três canções, “Rodrigo meu capitão”, “Um certo Capitão Rodrigo” e “Senhora Dona Bibiana”.  Dez anos após a morte de Tom, Ronaldo também letrou outro tema instrumental da trilha, “Chanson pour Michelle”, lançada no álbum Falando de amor: Família Jobim e Caymmi cantam Antonio Carlos Jobim. “Fiz essa letra em Nova York, a pedido de Nana e pensando muito em Tom, olhando para o prédio em que ele viveu em frente ao Central Park. É uma das canções que mais gosto. Aprendi muito com Tom, até como fazer a barba direito, ou em conversas sem fim sobre pássaros, poesia, política. E foi ele quem me apresentou a Paulinho (Jobim), com quem logo depois comecei a compor junto.”

Voltando à letra de “Wave”, a música começou a nascer na época em que o compositor viveu em Los Angeles, e deu nome ao álbum instrumental lançado em 1967. Ao retornar ao Brasil, antes de pedir a Ronaldo, Tom também tentou com Chico Buarque, mas, este empacou no primeiro verso, “Vou te contar…”.

O compositor e arranjador Aluisio Didier, agora à frente do Instituto Antonio Carlos Jobim, também guarda muitas lembranças do convívio com Tom. Como confirma,  ele era um ser gregário por natureza, que adorava jogar conversa dentro e trabalhar em grupo. O que, em parte, explica o fato de ter colecionado tantos parceiros através da vida mesmo também tendo sido um letrista perfeito, como comenta Didier:

“Em ‘Matita Perê’, por exemplo, uma de suas canções mais admiráveis e complexas, em certo momento, ele pediu ajuda a Paulo César Pinheiro, que, certamente, contribuiu com muito. Já a letra de ‘Lígia’, apesar de não constar como parceiro, teve a participação de Chico Buarque, que a lançou no álbum Sinal fechado (1974). Esta foi a versão que se consolidou e é diferente da gravada por João Gilberto no disco com Stan Getz e Miúcha, The best of two worlds, em 1976. Provavelmente, Tom mostrou a primeira letra para João, que demorou a gravar e não quis mudar para a versão lançada antes por Chico. Ainda em 1976, no álbum Urubu, Tom cantou a mesma letra que está no disco de Chico”.

Autorias e co-autorias à parte, a música de Tom Jobim é assunto para horas e horas de conversa e deleite. Sempre viva.

PS: Obrigado a Didier, que, em msg, corrigiu o nome da cantora Lenita Bruno (que eu trocara letras, l por n). E também acrescentou mais referências em “Águas de Março”, em trecho que copio e colo a seguir:

⁠” ‘⁠Águas de Março’ guarda também inspiração de versos do ‘Caçador de Esmeraldas’, de Bilac: ‘Foi em março, ao findar da chuva, quase à entrada/ do outono, quando a terra em sede requeimada/ bebera longamente as águas da estação…’ Ele confirmava isso. (…)
…Lembro da paixão que tinha por ‘The Waste Land’, de T S Elliot. Virou uma espécie de senha entre nós. Se estava na Plataforma, sempre rodeado, pedíamos para o garçom entregar um guardanapo de papel escrito: ‘April is the cruellest month’ e ele sabia que estávamos lá e vinha nos encontrar….O poema continua: ‘breeding lilacs out of the dead land, mixing, memory and desire, stirring dull roots with spring rain… etc’. Lindo, é um dos poemas mais importantes do século XX. (…) Perguntei: ‘Essa chuva de primavera tem a ver com as Águas de Março e a promessa de vida?’ Resposta: ‘Você acha isso?’ Como dizendo, não. Mas até hoje, acho que sim…“.

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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