Paulo Moreira – jornalista, radialista, jazzista – se destacava pelo bom humor, pela curiosidade, pelo conhecimento amplo, pelo gosto pelas fofocas e pela amizade
Para ser lido ao som de Gato Barbieri em To Be Continued

No sábado – na última vez em que vi o Paulo Moreira com vida – o quarto de hospital estava lotado. Eu, Cássia, João, Roberta, Roger, Drica e a filha mais velha dele, Rafaela, lembrávamos histórias e “expressões” que ele consagrou com o seu rico vocabulário de grande leitor e seu “ódio mais alegre do Brasil” que ele tão bem cultivou em 63 anos de vida. Paulo Moreira, então, já era uma pálida imagem da figura quase sempre efervescente. Estava ali, estirado na cama, aparentemente alheio a tudo – mas a mim ele não engana: eu sei que ele estava ligado “para semp-toshiba e Manlec” (outro de seus refrões favoritos) e, mesmo distante, estava sacando tudo. Era, como ele também diria, “animação total”.
Paulo Moreira não era uma figura fácil – e aqui fala um moreirólogo com mais de três décadas de experiência que conviveu com ele em shows, festas, lojas de discos, viagens, livrarias, velórios, separações e em tantos e tão variados momentos. Chegou quase a morar aqui em casa – numa de suas separações – e só não aceitou o generoso convite da Cássia porque fiel ao seu bom humor cáustico respondeu: “Não dá para ficar na casa de vocês. Vocês moram longe e tem cachorros”.
Era explosivo, reclamão, desaforado, revoltado, mas compensava – e muito – com o bom humor, a curiosidade, o conhecimento amplo, o gosto pelas fofocas, a sagacidade e a amizade. Cássia se apaixonou por ele, Lina seguiu a mesma linha. Para ela, era o Tio Fi-Fó-Fon, batizado em homenagem a um trio de bonecos que ele deu a ela quando bebê e que todos nós nomeamos como Gato Barbieri, Pharoah Sanders e Archie Shepp (estou ouvindo um desses agora enquanto escrevo).
O coloradismo exaltado também nos aproximava. Por centenas de vezes, ele foi meu convidado para ir ao estádio. Depois, nas muitas vitórias, comemorávamos com cerveja e, nos últimos tempos, com coca-cola, de modo que me alivia um pouco a dor lembrar que ele escolheu como data para se despedir o dia em que o nosso amado time conquistou sua mais expressiva vitória – “um título que eles não têm”, diria ele em outra de suas tiradas certeira.
Esse texto não é uma despedida, até porque Paulo Moreira estará presente nas infinitas histórias que eu, a Cássia e a Lina carregaremos para sempre. Já estará presente na lembrança da semana que vem, quando ele nos prometeu que passaria a noite de Natal aqui em casa. Como não é uma despedida, acabarei com a mesma frase que tantas vezes nos demos até logo: “Vai um abraço, velhinho!
