Antônio Carlos Miguel volta ao futuro do passado revivido

A transa é o seguinte (penso que assim, com o artigo invertido, falávamos naqueles distantes anos 1970), o concerto comemorativo do disco que se confirmou uma boa ideia ficaria mais redondo sem os três números solos de Angela Ro Ro perto do fim. Mas, circunferências à parte e línguas entrelaçadas dentro, foi justa homenagem à cantora que tocou gaita na micro faixa do disco de longas canções agora recriado. E Angela virou a cereja no bolo da noite de celebração de ontem. Apoteose que, mesmo sem a surpresa, tem tudo para se repetir hoje na Arena Jockey, no domingo que, segundo meteorologistas, vai bater recorde de temperatura no Rio de 2023.
Concebido para uma única apresentação em agosto passado, na Marina da Glória, Transa foi afogado por uma das torrenciais chuvas que viraram o novo normal no mundo super aquecido. Daí as novas doses no Rio – e também em São Paulo, dias 25 e 27 de novembro, no Espaço Unimed. E com direito a Ro Ro (que cantava em Belém na noite do dilúvio) fechando a escalação original possível do disco gravado em Londres: Jards Macalé (violão e guitarra), Tutty Moreno (bateria) e Áureo de Souza (percussão). Enquanto, como lembrou Caetano, no primeiro aniversário sem ela, Gal e o baixista Moacyr “Momó” Albuquerque, morto em 2000, estavam presentes no coração de todos.
Todos que inclui a atual banda de Caetano, com, entre outros, Lucas Nunes (violão e guitarra) e Alberto Continentino (baixo). Esta é a de Meu coco, disco e turnê que, em março e abril de 2024 tem datas nos EUA.

Com apenas sete (longas) faixas, em 37 minutos, o repertório do disco Transa é turbinado com canções afins de Caetano, e ainda dos convidados. Caetano e banda Meu Coco deram início às quase duas horas da apresentação desse 11 de novembro com “You don’t know me”, que também é a de abertura do álbum. Em seguida, duas do LP branco, de 1969, “Irene” (composta no período de dois meses em que esteve preso no Rio, entre dezembro de 1968 e janeiro de 69, como contou ao público) e “Empty boat” (pontuando ser letra “mais broken English do que as de Londres”) e duas do primeiro no exílio inglês, “Maria Bethânia” e “London, London”. Antes de voltar ao disco homenageado, tem um Araçá Azul no bolo, a faixa-título do álbum avant-garde de 1973, que marcou a volta ao Brasil e, na época, bateu recorde em devolução nas lojas – algo, hoje, equivalente a bloquear no streaming, cancelar.

De volta ao mote-bote, são emendadas “Triste Bahia”, “Neolithic man” e “It’s a long way”, para então, finalmente, com o trio tripulante da primeira viagem a bordo, mais uma dose de “You don’t know me”. Senha para o momento solo de Jards Macalé, em um de seus clássicos com letra de Waly Salomão, “Mal secreto”, que, com Caetano de volta, é emendada à jobiniana “Corcovado”. A única de Meu coco, “Sem samba não dá” faz o elo para o que seria a sequência final de Transa, o show (que não segue a ordem das canções no disco), “Mora na filosofia” (o samba de Monsueto, e Arnaldo Passos trecho final na Arena Jockey) e “Nine out of ten”. Antes da vinheta que fecha Transa, as três canções de Angela Ro Ro, acompanhada de seu habitual tecladista, Ricardo MacCord, saem de rota-roteiro, mas, valem pela celebração: “Escândalo” (que como lembra, Caetano escreveu para ela em 1981), “Amor, meu grande amor” e “Compassos”.
Enfim, “Nostalgia (That’s what rock ‘n’roll is all about)”, com a gaita de Angela, assim como no velho disco, seria o fim. Mas, as plateias bingo de Transa e a que se renova através de décadas pediram e tiveram bis de “Nine out of ten”.
Comparada à noite de RC no domingo passado, a de CV tinha mesas de quatro lugares, com bom espaço entre elas, melhorando o conforto da Arena Jockey. Novo, e temporário, espaço para música no Rio, que também acerta no horário marcado – este, 19h30m, com toleráveis 30 minutos de atraso.
A programação eclética (site Arena Jockey) prossegue até o réveillon, com ainda, entre outros, Maria Bethânia + Tim Bernardes (22 dez), três noites de Titãs (18, 19 e 20 nov), Dado Villa-Lobos & Marcelo Bonfá (2 dez), Ney Matogrosso (9 dez), Marisa Monte (16 e 17 dez)…

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