Roberto Muggiati se espanta como Ivo Perelman ultrapassou a faixa dos três dígitos, com mais de uma centena de álbuns gravados – uma média impressionante de três por ano
Para ser lido ao som de Ivo Perelman em Polarity 2

Paulistano da classe média, nascido em 1961, Ivo Perelman revelou-se muito cedo um prodígio no violão clássico. Temperamento inquieto, tentou violoncelo, trombone e clarineta até se fixar no saxofone tenor. Influenciado inicialmente pelo som cool de Stan Getz e Paul Desmond, foi logo arrebatado pela fúria do free de John Coltrane e Albert Ayler. Em 1981, ingressou na Berklee School of Music em Boston e, um ano depois, se mudou para Los Angeles, onde estudou com o vibrafonista Charlie Shoemake, em cujas jam sessions se apaixonou pelos improvisos intermináveis do free jazz. Aí, só restava a cena de Nova York e Ivo mordeu a Grande Maçã no início dos anos 1990, onde reside até hoje. Lançou seu primeiro álbum, Ivo, em 1989, com convidados especialíssimos como o baterista Peter Erskine, o baixista John Patitucci, o percussionista Airto Moreira, a pianista Eliane Elias e a cantora Flora Purim. Em 35 anos de carreira, Ivo ultrapassou a faixa dos três dígitos, com mais de uma centena de álbuns gravados – uma média impressionante de três por ano. Ao lado de luminares ilustres desconhecidos da geração maldita do instrumental desvairado do New Free, como Dominic Duval, Borah Bergman, Rashied Ali, Jay Rosen, Marilyn Crispell, Matthew Shipp, Fred Hopkins, Andrew Cyrille, Mark Helias, Billy Hart, Mino Cinelu, Naná Vasconcelos, Reggie Workman, William Parker, Louis Sclavis e Elton Dean (Em quantos deles vocês já ouviram falar?).

Sua parceria mais recente é com o trompetista Nate Wooley, com quem acaba de lançar o álbum Polarity 2, sequência de Polarity (2021), do mesmo selo Burning Ambulance Music. Nascido em Clatskanie, Oregon, em 1974, Wooley começoua tocar profissionalmente aos 13 anos com o pai, um saxofonista de big band, e estreou como solista da Filarmônica de Nova York na temporada de 2019. A partir daí a crítica está de olho nesse trompetista que “abraçou o desafio de redefinir os limites físicos do seu instrumento com sua linguagem idiossincrática ao trompete”. Quanto à fortuna crítica de Ivo Perelman, transcrevo alguns acréscimos recentes:
• “Um dos grandes coloristas do sax tenor” (Ed Hazell, Boston Globe).
• “Tremendamente lírico” (Gary Giddins).
• “Um monstro com pulmão de couro e uma rouquidão expressiva, capaz de urrar e cuspir com violência e ainda assim tocar no fundo dos corações” (The Wire).
Desde 2011, Ivo vem se dedicando a um estudo intensivo do trompete natural, um instrumento popular no século 17, antes da invenção do sistema de pistões usado nos metais modernos, do qual já se tornou um dos mais exímios praticantes.
Conheci Ivo nas raras ocasiões em que veio ao Brasil. Certa vez, almoçando comigo na Manchete, eu o choquei ao comentar sobre o alto índice de morte por câncer de pulmão dos saxofonistas americanos por tocarem em clubes enfumaçados. Felizmente, pouco depois veio a proibição geral de fumar em ambientes fechados e Ivo continua por aí, lépido e fagueiro, no vigor de seus 62 anos. Aproveito para agradecer a ele a epígrafe com que me brindou para meu livro Improvisando Soluções (2008): “Improvisar é brincar de ser Deus e perpetuar assim o impulso criativo do universo”.
Ivo rides again… and again
O homem é impossível e me obriga a continuar brincando com metáforas do Velho Oeste. Mal secou a tinta da minha resenha sobre Polarity 2, Ivo Perelman volta a cavalgar pelas planícies de Manhattan e, rápido no gatilho, lança um novo álbum: Tuning Forks (em português, Diapasões), parceria com o vibrafonista Matt Moran. O título reflete suas recentes investigações sobre os parâmetros terapêuticos e sonoros do diapasão – um crítico assinalou a significativa semelhança entre a produção do som num diapasão e aquela numa tecla de vibrafone.
Sugiro ao nosso editor a publicação imediata dessa atualização, antes que o intrépido Ivo ataque com um novo álbum…
