Quatro noites com o Duke

Roberto Muggiati revira suas memórias para recuperar as quatro noites de vinhos e rosas em que viu ao vivo Duke Ellington em Londres

Para ser lido ao som de Duke Ellington/London: The Great Concerts

Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a era da sabedoria, foi a era da insensatez, foi a época da crença, foi a época da incredulidade, foi a temporada da Luz, foi a temporada das Trevas, foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero, tínhamos tudo à nossa frente, nada tínhamos à nossa frente, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário – em suma, o período se assemelhava tanto ao período presente que algumas de suas autoridades mais ruidosas insistiam em que fosse recebido, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação.” (Charles Dickens, Uma História de Duas Cidades)

O distanciamento da quarentena me faz ver com clareza cristalina o que se passou há 57 anos: fui o mais privilegiado dos homens por estar no lugar certo na hora certa. Londres, é claro, em 1963 e 1964. Jornalista, com 25 anos de idade, eu morava em Chelsea, à beira do Tâmisa, e trabalhava no Serviço Brasileiro da British Broadcasting Corporation, a BBC. Os melhores músicos do jazz passavam por Londres e Paris (onde eu vivi de 1960 a 1962). As datas nos canhotos dos ingressos que guardei dentro do livro do Duke Music Is My Mistress, bem como as datas dos shows do CD Duke Ellington/London: The Great Concerts – 22 de janeiro de 1963 e 20 de fevereiro de 1964 – mostram a assiduidade com que Duke e seus músicos frequentaram a capital britânica na época.

Tive a feliz oportunidade de assistir a quatro concertos da Orquestra de Duke Ellington – falo “concertos” com a boca cheia como se fossem apresentações da Filarmônica de Nova York de Leonard Bernstein ou da Filarmônica de Berlim de Herbert von Karajan – porque a orquestra do Duke, mais do que uma mera big band da Era do Swing, foi a primeira e única microssinfônica afroamericana. De 27 de janeiro de 1963 a 1º de março de 1964 vivi quatro espetáculos inesquecíveis, os destes dois domingos e aqueles do domingo 16 de fevereiro e do sábado 22 de fevereiro de 1964.

É difícil avaliar a emoção de ver os músicos nos seus postos ao acender das luzes e marcando nos primeiros compassos do A Train, o apresentador anunciando o maestro e Duke, com sua voz melíflua (desculpem, mas le mot juste é este, merci, Monsieur Stendhal) dizendo “Thanks very much, ladies and gentlemen. First of all, I want you to know that all the kids in the band want you to know that we do love you madly”. Dois concertos foram no Odeon de Hammersmith (o antigo Gaumont Palace, inaugurado em 1932) uma sala de cinema em estilo art déco com 3500 lugares – a procura por ingressos para as apresentações de Ellington exigia grandes espaços, como era também o New Victoria Theatre, outra grande sala construída em 1929, nas imediações da estação ferroviária de Victoria, ali assisti também aos concertos de Ella Fitzgerald com o Oscar Peterson Trio e do Modern Jazz Quartet com um convidado especial, o violonista brasileiro Laurindo Almeida. O quarto concerto foi no majestoso Royal Festival Hall, sede da Filarmônica de Londres, com 2700 lugares e uma particularidade: os raros assentos “terrace” ficavam no mesmo nível do palco, bem perto da orquestra. (Nesta localização favorecida vi também os quartetos de Gerry Mulligan e Thelonious Monk).

A proximidade dos músicos do Duke foi uma bênção: na intimidade do famoso naipe de saxes (Johnny Hodges, Russell Procope, altos; Paul Gonsalves, Jimmy Hamilton, tenores; Harry Carney, barítono), eu ouvia ao mesmo tempo o som aveludado dos cinco saxofones e o sopro individual de cada um. André Previn, o famoso maestro erudito que também foi um genial pianista e compositor de jazz, definiu Ellington em duas frases curtas: “Stan Kenton pode se postar diante de mil violinos e mil metais e fazer um gesto dramático, que qualquer arranjador saberá transcrever imediatamente sua música. Mas o Duke simplesmente ergue um dedinho e três saxofones fazem um som que ninguém conseguirá decifrar ou imitar jamais.”

Billy Strayhorn, compositor parceiro de Ellington durante 28 anos, e que acompanhou a visita da orquestra a Londres em 1964, afirmou: “Ellington toca piano, mas seu verdadeiro instrumento é sua orquestra. Cada componente de sua banda é para ele uma cor tonal e um bloco de emoções que ele mistura com outros igualmente distintos para produzir uma terceira coisa, que eu gosto de chamar Efeito Ellington. Às vezes essa mistura ocorre no papel e, frequentemente, no próprio palco, durante uma apresentação. Já o vi muitas vezes trocar partituras no meio de uma peça porque o homem e a partitura não combinavam. A principal preocupação de Ellington é com o músico individual e com o que acontece quando vários indivíduos juntam suas personalidades musicais.”

Em 1963, Ellington tinha 63 anos e resistia bravamente à crise econômica das big bands, formações onerosas com uma média de entre 15 a 20 membros, enquanto quartetos de rock com jovens que não sabiam ler música e arranhavam apenas três acordes básicos ganhavam milhões com um vocalista, uma guitarra e um baixo elétrico, e um baterista barulhento. Se o rock ‘n’ roll americano abalou as estruturas do jazz na segunda metade dos anos 50, o rock britânico – o Brit Pop – veio para matar o que ainda restava. Muito jazzista foi ganhar a vida como porteiro, ascensorista, chofer de táxi, faxineiro e coisas quetais no início dos anos 60, Muitas grandes orquestras desmantelaram. Duke Elligton, que nada tinha do gestor autoritário antiquado, foi tocando adiante a sua banda como o patriarca de uma grande família, Algumas estatísticas exemplares: Harry Carney ficou 47 anos na orquestra; o sax alto Johnny Hodges, o Rabbit, 42 anos; o trompetista Cootie Williams, 41 anos; o baterista Sonny Greer e o trombonista Juan Tizol, 32 anos; os trombonistas Lawrence Brown e Tricky Sam Nanton respectivamente 28 e 22 anos; os trompetistas Cat Anderson e Ray Nance respectivamente 27 e 23 anos; o clarinetista Jimmy Hamilton, 26 anos; o saxofonista Paul Gonsalves, 24 anos. Pode-se dizer que alguns seguiram Duke até em sua morte, em 24 de maio de 1974, aos 75 anos. Na verdade, Paul Gonsalves e seu ex-vibrafonista Tyree Glenn o anteciparam, Paul morrendo em Londres em 15 de maio, Glenn em Nova Jersey em 18 de maio. Estes funerais de músicos de jazz são geralmente coisas demoradas, para isso existem as geladeiras. Aconteceu então que os três músicos companheiros – Duke Ellington, Paul Gonsalves e Tyree Glenn – devidamente embalsamados, passariam vários dias lado a lado em seus caixões numa agência funerária de Manhattan. Não resistindo a meus surtos de humor negro, inventei que, na calada da noite, a trinca costumava cantarolar uma famosa canção de Tyree, How Could You Do a Thing Like That to Me?/Como é que você foi fazer uma coisa destas comigo? Harry Carney perdeu o encontro por menos de três meses: sem o Duke, acabou morrendo em 10 de agosto. Enquanto a orquestra viajava de ônibus durante as longas turnês, Duke e Carney seguiam no pequeno carro do saxofonista, ao volante com o ilustre passageiro, nada menos do que o band-leader.

Quando músicos como Johnny Hodges e Cootie Williams quiseram sair para formar sua própria banda, Duke deu a maior força. E os acolheu de volta, depois de fundarem (e afundarem) suas orquestras. Cootie acabara de voltar ao grupo, nas turnês londrinas de 63 e 64. Ellington sempre manteve uma relação especial com a Inglaterra. Depois de uma série de concertos em 1933, levaria um quarto de século exato para voltar, por conta da II Guerra e de uma prolongada disputa entre os sindicatos de músicos inglês e norte-americano. Na turnê do retorno, em 1958, Ellington foi apresentado à Rainha Elizabeth e prometeu que algo musical resultaria do encontro. Acabou compondo uma suíte de seis músicas dedicada à Rainha, que foi gravada, mas teve apenas um disco prensado e presenteado a Sua Alteza. Em suas apresentações londrinas dos anos 60, Duke apresentou, ao piano solo, um dos temas da suite, a bela balada Single Petal of a Rose.

Elizabeth II, ou seus assessores, descuidaram de conceder uma merecida honraria a Ellington. Já em 1973, os franceses lhe conferiam a Légion d’honneur. Aliás, um breve parêntese: foi graças a Ellington, indiretamente, que eu, fetichista de saxofones e clarinetas, comprei instrumentos da Selmer – a sucessora das indústrias de Adolphe Sax – com um desconto fabuloso de 67%, a détaxe normal de 17%, mais 50% de cortesia da casa. Explico melhor: o chefe da sucursal da Manchete em Paris, o gaúcho Silvio Silveira, que foi um band-leader de sucesso em Paris no início dos anos 60, levou a orquestra de Ellington às compras na Selmer de Paris e os músicos levaram quase a loja inteira, o que rendeu a gratidão eterna da família Selmer a Monsieur Silveirá, através de quem eu comprava os instrumentos que queria, inclusive uma clarineta baixo, um clarone, que foi o meu sonho de consumo realizado. Na crise, acabei vendendo o clarone para um jovem chamado Beethoven, filho do regente da Orquestra Sinfônica de Guaratiba, alguém já ouviu falar?

Hoje o mundo está mobilizado contra a Morte e dominado por sua ameaça funesta. Em 1964, o mundo celebrava a Vida, e o gênio literário de William Shakespeare. Éramos felizes e sabíamos, mas só agora valorizamos realmente aquela época maravilhosa. A Inglaterra, em particular, comemorava os 400 anos de nascimentodo Bardo. O que levou o Duke a incluir em seu repertório temas de Such Sweet Thunder, seu álbum de 1957 dedicado a personagens e temas de Shakespeare. Um dos favoritos foi The Star-Crossed Lovers, evocando Romeu e Julieta, uma balada lírica interpretada pelo alto plangente de Johnny Hodges. Duke também ousou incluir no programa temas mais longos, como (A Tone Parallel to) Harlem (quase 15 minutos) – que abria com o trompete de Cootie William pronunciando a palavra Har-lem, Har-lem – e Diminuendo and Crescendo in Blue (12 minutos), um desafio alucinante para a capacidade do tenor solista Gonsalves de encarar paredões orquestrais como o surfista enfrenta túneis de ondas gigantes. Entre os trompetes negros – Cat Anderson, o rei dos agudos; Cootie Williams, o rei do wah-wah e o versátil Ray Nance, também violinista e cantor – o sueco Rolf Ericson, Ellington não tinha preconceitos de espécie alguma. Nos anos 50, brilhou na sua orquestra o baterista Luigi Paulino Alfredo Francesco Antonio Balassoni, mais conhecido como Louie Bellson. Um dos momentos altos das apresentações do Duke era quando o sax barítono Harry Carney solava na canção que Duke compusera sob medida para ele, Sophisticated Lady.

Sophisticated Lady mostra o lado mais subestimado de Ellington. Notável por suas composições instrumentais, suítes, óperas e oratórios, era pouco lembrado como autor de canções, com seu parceiro Strayhorn, comparáveis às de gigantes como Cole Porter, os Gershwin, Irving Berlin, Rodgers & Hart, Jerome Kern. Fui conferir no ranking dos jazz standards e me surpreendi. Sophisticated Lady ocupa o 31º lugar, mas, antes dela, tem Caravan (17), In a Sentimental Mood (19), Take The A Train (23), e depois Lush Life (36), Satin Doll (45), Prelude to a Kiss (46), Perdido (58), It Don’t Mean a Thing (If It Ain’t Got That Swing) (84) e Things Ain’t What They Used To Be (92). Ou seja, dez canções entre as dez mais, nem Cole Porter nem George e Ira Gershwin chegam perto.

Last but not least, um detalhe que me intriga muito até hoje. Seria eu o único a conhecer e divulgar uma artimanha tipicamente britânica do Duke? Das centenas de páginas de livros e matérias que li sobre ele e suas relações com os britânicos, jamais vi qualquer coisa sobre o que passo a relatar. Os quatro concertos a que assisti eram a última apresentação da noite. É de rigueur, no Reino Unido, que o último espetáculo da noite (cinema, teatro, ópera, musical) seja encerrado com os primeiros acordes do hino da Rainha. Sabedor disso, Ellington, pressionado pela plateia a dar bis após bis, simplesmente acenava para a banda e aquele naipe fabuloso de saxofones entoava um maravilhoso God Save the Queen – podem imaginar? O público, até então indócil, se punha de pé, ereto, alguns com a mão no peito, e homenageava sua soberana. Depois, não havia mais nada a fazer, O inglês, amante do jazz e da realeza, agradecia de coração ao Duque e partia para casa com a alma lavada.

Nenhum pensamento

  1. Invejo você, Muggiatti, pelas histórias maravilhosas e por ter feito na vida escolhas que o levaram a estar no lugar certo na hora certa! Daria tudo para ver um concertozinho desses, somente! Mas você e eu sabemos que o Duke, por mais genial que fosse (e era!) gostava de por o seu nome na música dos outros, pagando uma graninha e faturando alto depois. Sophisticated Lady é do Lawrence Brown, Caravan e Perdido são do Juan Tizol, Things Ain’t é do Mercer Ellington. Mas é claro que, se não fosse o Duke, talvez nem conhecêssemos essas maravilhas!!

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