Ramsey Lewis me faz balançar

Fabiano Maciel escreve sobre um pianista do balacobaco que coloca o povo do jazz para sacudir o esqueleto

Para ser lido ao som de Ramsey Lewis em The In Crowd

Foto: Tomas Forgac Bratislava/CC BY 2.0/Wikimedia Commons
Foto: Tomas Forgac Bratislava/CC BY 2.0/Wikimedia Commons

Fim dos anos 90, fim de festa na casa da minha amiga Vanessa. Poucas pessoas na sala e todas, como manda o protocolo, para lá de Marrakesh. Alguém coloca pra rodar o CD com a trilha sonora do filme Cassino, de Martin Scorsese. Tudo segue na normalidade enquanto as faixas com Moody Blues, Roxy Music, The Staple Singers, Louis Prima  e muitos outros que frequentam as saladas que o Scorsese sabe muito bem como temperar (isto é tema pra outro texto inclusive) se sucedem. Até que começa a rolar um balaco chamado The In Crowd, com um tal de Ramsey Lewis. Desaboletamos das poltronas e começamos a dançar imediatamente. A faixa acabou, colocamos novamente. E repetimos pelo menos umas cinco vezes até sermos enxotados. Cheguei em casa peguei o CD que eu tinha em casa e enquanto me perguntava como tinha deixado esta faixa passar sem dar a menor pelota, fiquei ouvindo o “na multidão” até o sol raiar. Cada bêbado com a sua mania,  fui fazendo pontos no papel a cada nota dedilhada por Mr.Lewis. Parecia um telegrafista alucinado. Quando acordei tinha umas dez páginas de caderno cheias de tracinhos e de tum tum tuns. Acho que qualquer ser humano normal, bêbado ou não, já teve seus momentos de ouvir obsessivamente a mesma música. Eu já tive estes momentos pelo menos umas cinco mil vezes. Memories of You, com o Thelonious Monk por exemplo, eu já perdi a conta de quantas vezes ouvi. (também tema pra outro texto se o Marcio Pinheiro continuar me aturando por aqui).

O fato é que resolvi correr atrás pra saber quem era o Ramsey Lewis, começando obviamente, pelo disco do The In Crowd. Descobri que ele foi gravado ao vivo em 1965, na Bohemian Caverns, um clube de Washington. O nome da boate faz justiça à atmosfera toda do álbum, e sabiamente a mixagem não tentou esconder ou limpar as conversas, risadas, barulhos de copos, de gelo tilintando, e é uma pena que a fumaça de cigarro não venha embalada junto com o disco. Vendeu mais que liquidação do Guanabara, faturou uma série de grammys e a música-título, gravada inicialmente por Dobie Gray teve uma cacetada de versões no mundo pop. Os Mamas & Papas gravaram no seu disco de estreia (o do California Dreamin), Bryan Ferry também abriu seu primeiro disco solo de 74 com ela e Joe Jackson fez uma versão matadora num medley com Down To London, em seu disco ao vivo de 2000.

Mas Ramsey Lewis tem outros discos do balacobaco. Gravou uma versão arrepiante do hino gospel Wade in The Water com Marlena Shaw e poucas semanas após o Álbum Branco dos Beatles chegar nas lojas, gravou especialmente para o mercado japonês um disco com versões “eletrônicas” de Sexy SadieCry Baby Cry e Rocky Raccoon. No final dos anos 60 trocou o piano pelo fender rhodes no álbum Another Voyage. Sempre no swing. Tanto que a dupla que o acompanhava no The In Crowd – obaixista Eldee Young e o baterista Isaac Holt – formou a dupla Young-Holt Unlimited. Você, ou os seus pais, pelo menos, certamente já sacudiram o esqueleto com Soulful Strut. Agora chuta quem Mr.Lewis colocou no lugar do baterista? Um tal de Maurice White, que logo depois também abandonaria o trio para formar seu grupo, um tal de Earth, Wind & Fire. Em 1974 Ramsey Lewis gravou com eles o álbum Sun Goddess, um pé no fusion, outro no funk, mas sempre, só no sapatinho. Ramsey Lewis segue firme até hoje em sua cidade natal, Chicago, onde comanda um programa de rádio, é curador (para usar uma palavra da moda) de um festival de jazz e ainda dá suas canjas no piano.

Se Thelonious Monk me deixa tenso, se Bill Evans me tranquiliza, Horace Silver me faz trabalhar animado, Ramsey Lewis me faz balançar. Seu piano beira a pilantragem, e não por acaso, me remeteu de imediato ao Nem Vem Que Não Tem do Simonal, com as palmas e o pandeiro acompanhando o sacundim. É jazz. É blues. É R&B. E é pop. No melhor sentido do termo. Ramsey Lewis tem este grande mérito, de colocar o “cerebral povo do jazz” para dançar. Com fez na festa da minha amiga Vanessa, naquela enlouquecida noite de final dos anos 90.

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