Tárik de Souza exalta a permanência da bossa nova nas vozes de Roberto Menescal, Luiza Sonza, Nara Leão e Fagner
Para ser lido ao som de Raimundo Fagner em Bossa Nova

No prefácio do meu livro João Gilberto e a Insurreição Bossa Nova – Outros Lados da História (L&PM Editores), lançado no final do ano passado, assegurei que ele continuava sendo escrito enquanto o leitor o singrava. Mas não podia imaginar uma espécie de reflorescimento da bossa, principalmente em torno de um baluarte sobrevivente, o capixaba Roberto (Batalha) Menescal, de 88 anos. Ele que, como anoto no livro, teceu colaborações com a cantautora baiana de Vitória da Conquista Analu Sampaio, então com 14 anos, e gravou seu clássico O Barquinho com Sofia (a neta de João) Gilberto, de 10, agora divide palcos com o músico Théo (filho do apresentador Pedro) Bial, 27, mundo afora. Já foram ao Japão, preparam um disco de inéditas, um show no Blue Note, de São Paulo (A Nossa Bossa Nova, com o Massatrio) e inauguram no Teatro Riachuelo carioca o projeto Bossa Nova Hoje e Sempre. Clássicos do movimento serão revisitados por eles e mais outra lendária pioneira, a cantora e compositora Alaíde Costa, do alto de seus portentosos 90 anos, Wanda Sá (81) e a Orquestra Sinfônica Villa Lobos, regida por Adriano Machado.
Próxima da efeméride dos 70 anos de fundação, a serem comemorados em 2028, há uma exposição imersiva prevista com o nome da música inaugural, Bossa Nova Chega de Saudade e um site com informações históricas, Bossa Nova Sempre. Parceira de Menescal durante uma vida, Nara Leão (1942-1989) teve um álbum recém-lançado com inéditas do fundo do baú do produtor Raimundo Bittencourt. Ele foi sócio de Menescal no selo Albatroz, restaurou as fitas e deu um trato modernizante nas oito faixas emblemáticas de A Bossa Rara de Nara (Universal). Além do samba, então dito “de morro”, de Ze Keti (e Hortêncio Rocha) que ela bossanovizou com enorme sucesso, Diz que Fui por Aí, há o supracitado clássico O Barquinho, Manhã de Carnaval (Luis Bonfá/Antonio Maria), o também já referido Chega de Saudade (Tom Jobim/ Vinicius de Moraes), Você e Eu (Carlos Lyra/ Vinicius de Moraes), Tristeza de Nós Dois (Durval Ferreira/Mauricio Einhorn/Bebeto Castilho) e as jobinianas Wave e Fotografia.
Depois de uma estreia espontânea e um tanto tumultuada no gênero com sua ode ao namorado da vez, Chico, a estrela pop Luiza Sonza, gaúcha de Tuparendi, de 27 anos, multiplicou a aposta no álbum Bossa Sempre Nova (Sony Music). E quem ela convidou para produzir 8 das 14 faixas? Ele mesmo, Roberto Menescal. As seis restantes ficaram com o violonista e compositor paulistano Antonio Pecci filho, o Toquinho (79), que foi parceiro de Vinicius de Moraes e aluno de violão de outro bossanovista ilustre, Paulinho Nogueira. Sonza se sai surpreendentemente à vontade, econômica nos vibratos, improvisando até scat singings, tanto no mencionado Diz que Fui por Aí quanto em Triste (Tom Jobim). Claro que O Barquinho volta a zarpar, ao lado de outros clássicos da dupla Menescal e (Ronaldo) Bôscoli, Nós e o Mar e Ah, Se Eu Pudesse.
Ainda de Jobim, Sonza escalou a para-jazzística Só tinha de ser com você (com Aloysio de Oliveira), e Águas de Março, seduzida pela espetacular gravação em dupla do autor com uma conterrânea, a gaúcha Elis Regina. Os irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle entram com a solar e suingada Samba de Verão, mas o outro autor protagonista das escolhas é Vinicius de Moraes. É dele com Toquinho a sarcástica anti-ode, Carta ao Tom 74, onde escancara a decadência da cidade (“lembra que tempo feliz, ai que saudade/ Ipanema era só felicidade/ era como se o amor doesse em paz”), o raro bolero do um fugaz parceiro, Onde anda você (Hermano Silva) e o afro samba Consolação, com Baden Powell.
Enquanto finalizava a Insurreição, soube que o cantor cearense Raimundo Fagner estava gravando um disco de bossa nova. Consegui informações preliminares e tasquei no livro. E quem fez a produção, arranjos e violão do álbum Fagner-Bossa Nova (Biscoito Fino)? O próprio, o infatigável Roberto Menescal. Aparentemente, o rascante e agreste Fagner nada tem a ver com o suingue urbano do mainstream da bossa nova, estampada na capa com caracteres gráficos em preto e vermelho, que evocam a estética do designer Cesar G. Vilela, no selo Elenco. Mas como ele detalha em entrevista ao jornalista Julio Maria (biógrafo de Elis Regina), autor do release, quem o acolheu em seu desembarque no Rio, em 23 de junho de 1971, foi o pessoal da bossa. De Vinicius de Moraes e Nara Leão, a Tom Jobim e o próprio Menescal, mas principalmente seu parceiro Ronaldo Bôscoli. Ele foi um dos mentores iniciais do cearense que o chamava de “padrinho”. Como outro adepto dos vibratos de voz portentosa, Tim Maia, que gravou dois discos do gênero, Amigos do Rei ao lado do grupo vocal Os Cariocas e “Interpreta clássicos da bossa nova’ (onde conseguiu fazer estourar Folha de Papel, uma obscura composição de Sérgio Ricardo), Fagner converteu-se de cara ao ouvir “Chega de Saudade, na voz microfônica de João Gilberto. “Fiquei com essa música na cabeça por anos”, confessa ele no texto de apresentação. E não por acaso é a faixa com que ele abre o disco, escudado por Adriano Souza (piano), Adriano Gifone (baixo), Otávio Castro (gaita) e João Cortez (bateria).
No afro samba Canto de Ossanha (Baden Powell/Vinicius de Moraes) Fagner tira partido de seus graves, assim como dramatiza outra composição da mesma dupla Samba em Prelúdio, (a mais longa faixa do disco, contabilizando quase cinco minutos) contracantada com uma das musas da bossa, Wanda Sá. O grupo instrumental é outro: Itamar Assiere (piano), Jorge Helder (baixo), Claudio Jorge (violão), Adelson Viana (sanfona) e Jurim Moreira (bateria). Puxando a brasa para seu lado lírico, Fagner revisita a Dolores Duran de Por Causa de Você, música de Tom Jobim que Vinicius ia letrar, mas rendeu-se à inesperada rival. A mesma Dolores deixou um agudo poema (“tem homem que briga pela bem-amada/ tem mulher maluca, que atura pancada”) com Carlos Lyra que a transformou após a morte da parceira, num sambossa de sucesso, O Negócio é Amar”, aqui relido com picardia por Fagner.
E para quem duvida que ele possa balançar na ginga da bossa, três faixas tiram a teima. Rio (Menescal/ Bôscoli), onde ele escancara o sotaque cearense , nas “lindas flores que nascem mórenas”, o mencionado Samba de Verão, onde sua interpretação mais confidente ganha a adesão vocal do co-autor Marcos Valle (com Paulo Sérgio Valle) e Wave (Tom Jobim), perfumada pela gaita do craque Rildo Hora. Surpresa do repertório é a repescagem do atrevido samba canção pré-bossa Teresa da Praia (Tom Jobim/Billy Blanco), de 1954, com arranjo de Antonio Adolfo, que antecipa em oito anos a atmosfera de ménage à trois do filme da nouvelle vague Jules et Jim – Uma Mulher para Dois, de François Truffaut. Contracena com Fagner, replicando o dueto original de Dick Farney e Lucio Alves, seu amigo, o maranhense Zeca Baleiro, com quem já dividiu shows e gravações.
Também com inserção da gaita de Rildo Hora, o megaclássico Águas de Março, de Tom Jobim, que Fagner navega com densidade, remete a seu início de carreira. No pujante disco de estreia de 1973, Manera Fru Fru Manera, na faixa Canteiros, além da adaptação do poema de Cecília Meirelles, e um trecho de Na Hora do Almoço, do parceiro conterrâneo Bechior, Fagner desagua numa citação de Águas de Março. A extraordinária música, de 1972, por sinal, acaba de ganhar um livro inteiro de acurada exegese, Águas de Março – Sobre a canção de Tom Jobim (Editora 34). Reúne densos ensaios de Augusto Massi (Mestre de obras, obra de mestre), Arthur Nestrovski (O samba mais bonito do mundo) e Walter Garcia (A construção de Águas de Março). Em entrevista a Luiz Fernando Vianna (O Globo, 28/3/2026), Garcia insurge-se contra a utilização da obra de Tom como “jingle das classes economicamente superiores, ou do Rio de Janeiro turístico, ou de programas de televisão sempre apaziguadores”. Argumenta: “Perceber que Águas de Março se equilibra entre a ‘promessa de vida’ e a melancolia da morte, do ‘resto de toco’, do ‘desgosto’, da ‘lama’, é se contrapor a essa imagem hegemônica”. E aduz: “Quando estudei a estrutura musical de Águas de Março entendi que ela é um tipo de moto-contínuo. (…) E quem escuta vai ouvindo uma passagem fragmentada, ao mesmo tempo exterior e interior, que passa e retorna. Sobretudo a interpretação de João Gilberto no seu disco de 1973 (o chamado álbum branco). (…) A pessoa começa a escutar, embarca no fluxo e, de repente, não sabe em que ponto está: se João recomeçou a cantar a letra, se está no meio, se está próximo do final. Parece um redemoinho ou uma travessia sem fim”, descreve.
Parafraseando célebres temas do movimento, as águas de março não fecharam o eterno samba de verão da bossa nova, para a qual o fim do caminho ainda está muito distante.
