Um projeto futurista

Tárik de Souza conta como Taubkin, Godoy e Cabral ateiam beleza e complexidade aos timbres e texturas de Um Silêncio Extraordinário

Para ser lido ao som de João Taubkin em Um Silêncio Extraordinário

Foto: Acervo João Taubkin

Um disco instrumental denominado Um Silêncio Extraordinário é para ser ouvido com lupa. Cada detalhe conta e merece ser observado. O conceito manifesto idealizado pelo protagonista, o baixista paulistano João Taubkin, ao formatar o trio com o pianista Zé Godoy e o baterista e percussionista Vitor Cabral, foi de afrontar “o barulho e a superficialidade da modernidade”. A obra se propõe a desvelar “o encontro da tradição – sem buscar tradução ou purismo estético – com o contemporâneo”. E o resultado é um incessante intercâmbio de linguagens estéticas que se mesclam e dissociam ao sabor da dinâmica intensa da performance do trio. O repertório de nove faixas assimétricas, com durações de 3 minutos e 28 segundos a 9’38, resulta segundo Taubkin, “da fusão do jazz contemporâneo, da música clássica europeia, das raízes rítmicas brasileiras e latinas, e flerta com a música asiática”.

Tal amplidão de parâmetros só poderia surgir da caligrafia de músicos poliglotas, com extensa e multifacetada trajetória, como os reunidos neste projeto futurista. Filho do renomado pianista e produtor Benjamim Taubkin, o compositor, baixista, arranjador e produtor João Taubkin atua profissionalmente desde o início dos anos 2000. Já tocou e gravou com ases do porte de Paulo Moura, Theo de Barros, Mônica Salmaso, Virginia Rodrigues, Itamar Doari, Lucia Pulido, Mehdi Nassouli, Kholwa Brothers, Madhup Mudgal, tendo se apresentado em países como Polônia, Áustria, Suiça, Marrocos, Israel, Coréia do Sul e Espanha. Sua discografia autoral anterior parte de Tribo (2013), Taubkin & Bahule (2018) e Kândra (2019) a When the answer is a question (2021) e Coreografia do Encontro (2022).

Pianista, compositor, produtor e arranjador, Zé Godoy, bacharel em composição, tendo estudado com mestres como Ricardo Rizek, Naomi Munakata e Abel Rocha, atualmente dedica-se ao mercado de trilha sonoras para cinema, teatro, balé, exposições e publicidade. Num espectro eclético, dividiu palcos e estúdios com artistas como Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhotto, Maria Bethânia, Chico César, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Frejat, Fernando e Sorocaba, Jorge e Matheus, Dani Black, Vinicius Calderoni e Tó Bradileone.

Iniciado aos sete anos no piano erudito, Vitor Cabral depois cursou bateria e percussão como bolsista da FASCS (Fundação das Artes de São Caetano do Sul). Tem vinte anos de carreira e também alista trabalhos ao lado de artistas diversificados, a exemplo de Dominguinhos, Alaíde Costa, João Bosco, Nelson Sargento, Gal Costa, Mano Brown, Marcelo Camelo, Simone, Ed Motta, Criolo, Banda Black Rio. Como produtor e diretor assinou projetos nacionais e internacionais com Rashid, Black Alien (Planet Hemp), Izzy Gordon, Honey Larochelle e Akua Naru (ambos dos EUA).

 Um Silêncio Extraordinário principia em Cada Começo, num retumbar surdo nos couros, que abre alas para digressões de piano e baixo pulsante. Os três planos musicais desenvolvidos por cada instrumento de forma autônoma, estabelecem uma transversalidade capaz de casar o lirismo do samba canção ao free jazz frenético. Um tango marcado que evoluiu para o bolero cubano, rodopia no Ballet Negro, com rufos de bateria e chiar de pratos sob protagonismo do piano e alicerce do baixo.  Entre o samba de roda do Recôncavo baiano e os requebros da cumbia colombiana, a enigmática Bubula (“palavra com vários significados em diversas culturas espalhadas pelo mundo”, anota Taubkin) investe nos glissandos e picotados do piano frente aos gingados de baixo e bateria.

Homenagem a Milton Nascimento, Rei e Menino, sob percussão ecoante, visita o congado mineiro, pautado pelas balizas do autor, que exalta no celebrado “a majestade de um rei e a pureza do menino”. O piano goteja e esmigalha notas, o baixo desliza e sola escalas e as percutidas na caixa e nos pratos não cessam sua azáfama. A faixa título, Um Silêncio Extraordinário brotou, segundo Taubkin (autor de todas as composições), de um intervalo de silêncio profundo dentro de uma sala vazia rodeada pela Mata Atlântica. Rotação de baixo e piano soerguem um pedestal de índole erudita ao piano na melodia discursiva, ditada, anota o autor, “por uma flauta barroca imaginária”. Não por acaso, o baixo conduz as veredas de O Jardim de Benni. Taubkin inspirou-se no talvez maior baixista do jazz (e um de seus criadores mais ousados) o americano de Nogales, Arizona, Charles Mingus (1922-1979). O piano ciranda dissonâncias e a bateria rebate no tema circular, que também alude à destrutiva personagem Benni, de apenas 9 anos, do sombrio filme alemão System Crasher, da diretora Nora Figscheidt.

O baixo repete um motivo recorrente e o piano fraseia leve nas amplidões de Montanha Amarela que percorre latitudes extremas, do ritmo dos índios nativos da América do Norte a homenagens ao luminar harmônico carioca Ivan Lins e o americano de Passaic, New Jersey, Donald Fagen, tecladista e fundador da perfeccionista banda Steely Dan. Escudada no ritmo pernambucano Cavalo Marinho, Komuso (também referenciada aos budistas errantes japoneses) é uma das duas faixas atravessadas pelos sopros irrequietos do virtuose paulista, nascido em São Simão, Alexandre Ribeiro (clarinete e clarone). O percurso denso e complexo desagua no onirismo de A Cor da Infância (a outra com intervenções de Alexandre). Trata-se de uma abordagem cromática do intenso trio da inquietude rejuvenescedora dos primeiros passos – e compassos – da existência. 

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