Atualizando a correspondência

Memórias de um intruder-writer, ao som de “Doralinda”, de João Donato e Cazuza, na voz de Nana e Emílio 

“Você ataca Lobão mas livra a cara de Nana”, escreve espumando inbox “amigo fcbkiano” a propósito de minha despedida da cantora aqui na AmaJazz. Tem explicação. Inconsequente, doidivana, ela meio que replicou ideias  da filha e biógrafa de Dorival (em livro que procurou diminuir as posições progressistas do avô, que teria apenas procurado agradar ao amigo  comunista Jorge Amado). Esta, uma olavista de primeira hora, influenciando até a Caetano, que, não só percebeu o erro como acabou processando o sujeito. 

Nana foi revolucionária em muitos momentos da vida e da carreira, enfrentou o machismo, gravou praticamente só o que quis e deixa obra que vai continuar enquanto a Humanidade andar pela Terra. Mas, em seus arroubos, também sempre falou muita besteira, ofendeu amigos, plateias. Temperamental ela era. E passou os últimos nove meses de vida internada, sem chance e espaço para autocrítica. 

Já o mestre dos factoides, agora posa de iconoclasta, além da esquerda e da direita. Mas, embarcou no antipetismo doentio, apoiou ostensivamente bostonauro, visitou-o no hospital durante a convalescença pós-fakeada, fez campanha e a cabeça de muitos roqueiros analfabetos políticos. Se juntou à maré orquestrada por conglomerados de mídia, ogronegócio, farialimers, empresariado e demais, que continuam tramando contra a democracia.

Voltando àquela, merece atenção, mesmo quando cedeu a alguma pressão da indústria da música (daí o “praticamente” do segundo parágrafo) Nana fez com talento e verdade. Nas três últimas décadas de carreira podem ter sido raras as incursões no repertório de novos compositores, mas sobraram grandes álbuns, como provam os de bolero ou aqueles focados nas obras do pai, de Jobim,  Vinicius ou Tito Madi – este, em 2002, fundamental para quem quiser conhecer um mestre do samba-canção, cantor e compositor que antecipou e depois se juntou à bossa nova.

Como no bolero contemporâneo “Resposta ao tempo” (Cristóvão Bastos e Aldir Blanc), tema da minissérie “Hilda Furacão” que, quase na virada do milênio, deu novo fôlego à carreira de Nana, a melhor resposta é sua obra. O que me lembra de ato falho que cometi como editor-assistente mas que acabou bem. Era um artigo de opinião sobre a obsolescência dos boleros no século 21 e, sem consultar o autor, que já não estava na helldação, enfiei enunciado que não constava no texto original. Algo como, “Resposta ao tempo” é rara exceção à regra. Na manhã seguinte, em conversa reservada, meio chateado (com razão, por não ter sido consultado) e também grato, o autor contou-me que descobrira minha intervenção após um telefonema de Blanc, agradecendo pela menção.

Com duas décadas de atraso, percebo que poderia ter acrescentado à lista de boleros contemporâneos “Doralinda”, a parceria de João Donato e Cazuza, lançado pelo pianista em álbum de 1995, “Coisas tão simples”. E  regravado três anos depois por Nana (em dueto com Emílio Santiago) no mesmo álbum “Resposta ao tempo”. Faixa 8 no CD editado pela EMI, mas, que ficou de fora nas versões para streaming, tanto em Spotify quanto na Apple Music.  Ou mesmo no YouTube (a versão que pesquei não é oficial). Por sinal, duas outras faixas (e belos encontros) do álbum original dançaram nas plataformas, “Não se esqueça de mim” (com Erasmo Carlos) e “Até pensei” (com Chico Buarque). Pauta para correr atrás, já que há muitos outros casos similares, que me fazem manter os mais de dez mil CDs e LPs transbordando nas prateleiras.

Publicado em ...
Avatar de Desconhecido

Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

2 pensamentos

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.