Andando e se lixando para BC

Serie de documentários “O Som da Ilha” revisita carreira e obra de músicos de Florianópolis entre os anos 1940 e 2000

Para um nativo de Florianópolis é triste ver como Santa Catarina virou exemplo do pior na política brasileira. E o estado que, nas últimas eleições, mais votos garantiu a bolsonaristas e parças também abriga uma excrescência como Camboriú, a autoproclamada Dubai brasileira. Na infância, quando pegávamos a BR 101 em direção ao norte,  estranhávamos os prédios tapando a visão da praia. À la Copacabana, essa era a comparação naqueles anos 1960 do balneário agora adorado por playboys, neymares, bolsonaros, corruptos, estelionatários e tantas famílias de… bens.

Nunca teria ouvido o sucesso do momento, nem saberia da existência da  dupla paranaense (que, até agora, não gravei o nome) não fosse a repercussão na velha mídia – sim, ainda assistimos à TV aberta e consumimos imprensa escrita por aqui. Mas, após os 15 segundos de fama, “Descer pra BC” deverá sumir dos meus domínios mentais.

Nariz de cera que tem como contraponto e antídoto a música que Floripa também produziu, revista na série “O Som da Ilha – Época de Ouro”. Os seis documentários foram exibidos, entre o fim de novembro e dezembro, na NDTV Record e agora estão disponíveis por streaming no site da emissora:  Link para assistir a ‘O Som da Ilha’ .

Antes de mais detalhes, alerto que estou listado (trabalhei e fui pago) entre os consultores musicais do projeto idealizado pelo cineasta Zeca Nunes Pires em parceria com a cantora Claudia “Zininha” Barbosa, sob a direção executiva de Maria Emília Oliveira de Azevedo. Zeca (amigo que herdei de meus pais, amigos e parceiros de seu pai, Aníbal Nunes Pires,  na criação em Florianópolis do que, a partir do fim dos anos 1940, ficou conhecido como o Grupo Sul) e Maria Emília também dirigiram dois dos seis episódios, respectivamente, “Zininho – O gentleman do samba” e “Neide Mariarrosa – A voz de mormaço”.  Ou seja, o que se segue é um misto de promoção, e autocrítica, do projeto.

Como o subtítulo entrega, essa primeira temporada cobre artistas que atuaram entre os anos 1950 e o início do século XXI. Elástica época de ouro, que, a grosso modo, passa por gêneros como o samba-canção (Neide Mariarrosa), a bossa nova (o cantor, compositor e violonista Luiz Henrique, direção de Isabela Hoffmann), o samba  (Zininho), o choro (Mestre Zequinha, direção de Alissa Azambuja e Marinha Naccari), o clássico (Aberlardo Souza, direção de Lelette Coutto) e as raízes afro-brasileiras (Gentil do Orocongo, direção de Iur Gomez).

Retrato de Cruz e Souza em lateral de prédio na Praça 15 de Florianópolis.

Sim, Florianópolis tem negro, como, no fim do século XIX, o poeta simbolista Cruz e Souza (1861-1898) já mostrara ao Brasil em seus breves 36 anos de vida. Após se destacar como jornalista e poeta em Santa Catarina, ele se mudou e foi reconhecido no Rio de Janeiro, onde também atuou como jornalista e abolicionista. Nas palavras de Antonio Candido, foi  “único escritor eminente de pura raça negra na literatura brasileira, onde são numerosos os mestiços”. Mas, essa é outra história.

Gentil do Orocongo / Divulgação: Iur Gomes

Na ilha que foi dos Carijós (ramo da nação Guarani) antes de os portugueses desembarcarem, há também morro e escolas de samba. Até o Golpe de 64, quando viemos para o Rio, assistíamos no carnaval (“o terceiro melhor do Brasil!” como alardeavam então os manezinhos) aos desfiles da Embaixada Copa Lord e  da Protegidos da Princesa, duas das escolas que continuam.  Entre os personagens mais curiosos  da série está exatamente o de “Gentil do Orocongo – O cancioneiro da Ilha”. Gentil Camilo Nascimento Filho (1945-2009), que viveu no Morro da Caixa,  e foi o responsável pela recuperação do “orocongo”, um instrumento de origem africana, de Cabo Verde,  que lembra a rabeca, e que conhecera na infância. Morto aos 69 anos, cedo para os padrões do Brasil atual, foi o mais longevo entre os seis perfilados na série.

Zininho / Divulgação: Norberto Depizzolatti

Outro personagem interessante, Zininho (Claudio Alvim Barbosa, 1929-1998) pode ser apresentado como uma espécie de Noel Rosa de Florianópolis. Branco, de classe média, que subiu o morro, também compondo para as escolas de samba. Em 1994, um álbum ao vivo, “Jamais algum poeta teve tanto para cantar” (nas plataformas de streaming), reuniu cerca de duas dúzias de suas composições, entre sambas, marchas-rancho, valsas. No lugar de mais palavras, aqui uma delas: ‘Preconceito racial’.

 Além do compositor, há o Zininho radialista, pesquisador, sonoplasta, técnico e um parceiro da cantora Neide Mariorrasa (1936-1994). 

Neide Mariarrosa / Divulgação

Hoje cultuada entre as cantoras e o movimento negro da ilha, esta também locutora e atriz de rádio novela,  no início dos anos 1960, foi assistida em Floripa por Elizeth Cardoso, que a convenceu tentar a carreira no Rio. Entre 1964 e 1970, Neide viveu no apartamento de Elizeth; frequentou as reuniões e os shows do movimento Musicanossa, coordenado por Hermínio Bello de Carvalho, no Teatro Jovem; foi intérprete de uma canção de Edu Lobo e Capinam (“Canto de Despedida”) no II Festival Internacional da Canção, da TV Globo, em 1967; no ano seguinte, defendeu na Bienal do Samba uma parceria de Pixinguinha e Hermínio (“Protesto, meu amor” / Link para “Protesto, meu amor” no YouTube); e por um ano estrelou com Haroldo Barbosa um show no Golden Room do Copacabana Palace. De volta a Florianópolis, permaneceu nos palcos até sua morte, em 1994. Em autocrítica, falhei nas tentativas de marcar as entrevistas com Edu (que, através de assessor, revelou não se lembrar mais de nada) e Hermínio (após longa e  cordial sequência de mensagens, e dois telefonemas, aceitamos a negativa).

Luiz Henrique / Divulgação

Quem voou mais longe foi o cantor, compositor e violonista Luiz Henrique Rosa (1938-1985). Como o produtor Armando Pittigliani conta em detalhes no documentário,  Luiz Henrique chegou ao Rio em 1961 já como profissional. Tocou no Beco das Garrafas com Elis Regina, Os Cariocas, Tamba Trio, Flora Purin,  Jorge Ben. Em 1964, contratado e produzido por Pittigliani, lançou na Philips o álbum “A bossa moderna de Luiz Henrique”, com arranjos de J.T. Meirelles e Dom Salvador.  No ano seguinte, foi para os Estados Unidos, onde viveu até 1971, lançando discos solo ou em dupla com Walter Vanderley (“Popcorn”) e Oscar Brown Jr. (“Finding a new friend”: ‘Barra Limpa”). Ainda trabalhou  (e namorou) com Liza Minelli, e Hermeto Pascoal, Airto Moreira, Flora Purin – estes, também foram procurados, mas, por motivos de agenda ou saúde, não puderam dar depoimento.

Reprodução

Quanto à filha de Judy Garland, mesmo após retornar à Florianópolis, até 1985, quando morreu em um acidente de carro, volta e meia Luiz Henrique era convocado pela cantora e atriz e para acompanhá-la em suas turnês. O que me permite bisar história que já lembrei aqui em AmaJazz.  Em 1992, escalado pelo jornal “O Globo” para entrevistar Liza no aeroporto, a conversa rolava morna até contar que não só nascera em Floripa como conhecera Luiz Henrique. Ela esqueceu o cansaço das nove horas do voo de Nova York ao Galeão Tom Jobim e desandou a falar do amigo e da Floripa que conhecera nos braços de Luiz Henrique.

Os outros dois nomes da série ficaram mais restritos às fronteiras catarinenses, no entanto, também são personagens curiosos. “Abelardo Sousa – O músico cronista” (1920-1986) apresenta o músico, compositor,  maestro, professor, cronista e um estudioso do “Volapük”. Este foi a tentativa frustrada de um idioma universal, que antecedeu o atualmente também esquecido Esperanto.

Abelardo Sousa / Divulgação

Enquanto o episódio “Legados do Mestre Zequinha” (José Cardoso, 1930-1990) traz o violinista,  cavaquinista, violonista, compositor, professor que formou diversas gerações de músicos. Compensava a visão deficiente com ouvido absoluto. Nos anos 1980, o Regional do Zequinha acompanhou muita gente que passou por Santa Catarina, incluindo  Paulo Moura e  Arthur Moreira Lima. Feitas as introduções, muito mais pode ser conhecido em “O Som da Ilha”.

Mestre Zequinha / Divulgação

PS: percebo que estão entrando anúncios de sites de apostas aqui no AmaJazz. Não tenho controle sobre isso, mas, se não conseguir parar pretendo pular fora, tirar do ar todos os meus textos.

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

5 pensamentos

  1. Antonio, muito boas as tuas impressões da nossa realidade e história musical e política. Abraços do Zeca Pires

  2. A única parte que descordo desde incrível texto ‘Nariz de Cera’, expressão que aprendi na faculdade de jornalismo e que, me fez delirar de orgulho emocionado em cada palavra, trazendo a vida, a alma e a arte, através de músicos de Florianópolis em suas incríveis criações que, ganham voz e reconhecimento devido, através de cineastas, como o diretor do longa-metragem, A antropológa, Zeca Pires que, colocou Santa catarina, no circuito nacional e internacional.

    Para finalizar, a única discordia em relação a este incrível texto, é quando você diz que “falhou”, nas tentativas de entrevistas que, lhe foram negadas, entre as quais, com o compositor ‘edu lobo’, através de assessoria, dizendo não lembrar de mais nada.

    Não, você não ‘FALHOU’, fez e continua fazendo o melhor, para mostrar a essa nova geração que, nossa linda Florianópolis, está muito além das paradisíacas praias, conhecidas em todo mundo.

    Nossos artistas e músicos, também merecem voar como águias, bem alto e por outros continentes, como continua fazendo, O Aviador e escritor Francês, Antuine the Saint Exuperry, do livro Best Seller, O pequeno Príncipe.

    Sim, perpetuando a vida através da memória, exemplo, esses seis documentários, dos quais, assisti o epusódio dirido pelo cineasta Zeca Pires, idealizador dessa magnífica série, ‘O SOM DA ILHA, ÉPOCA DE OURO’.

    Diante desse texto e do incrível episódio dirigido pelo Cineasta ZECA PIRES, me encorajo a assistir, os outros 5 episódios da série exibida na TV catarinense.

    Parabéns pelo texto, pela maturidade de esclarecer sua participação, sobretudo, pelo teu trabalho e comprometimento com a cultura.

    texto, me

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