O retrato de Brian Jones enquanto um perdedor
Para ler ao som de “Ruby Tuesday”, composição de Jagger & Richards, mas que tem nos contrapontos de Brian Jones na flauta um de seus trunfos
Para stonemaníacos, principalmente aqueles que idolatram o sócio fundador do Clube dos 27, “The Stones & Brian Jones” pode ser colírio para os olhos. O filme de Nick Broomfield, lançado em 2023 na Inglaterra e em exibição no Festival do Rio – depois de já ter passado pelo In-Edit Brasil esse ano -, traz dezenas de raras filmagens dos primeiros anos do grupo. E ainda, do arquivo da família de Lewis Brian Hopkin Jones, com imagens da infância e da adolescência.

Mas, o conteúdo desse documentário também interessa a quem quer saber mais sobre a cultura pop do início dos anos 1960, quando a juventude parecia romper de vez com os padrões do establishment. E, passados os 93 minutos, com os depoimentos quase sempre em off de duas dezenas de contemporâneos, o retrato que fica é o de um perdedor. O jovem dândi, vindo de classe média ascendente, que virou ídolo em proporções beatlenescas e caiu nas graças da realeza hedonista. Até, em 3 de julho de 1969, morrer afogado na piscina de sua mansão nos arredores de Londres. Já no século XXI, levantou-se a hipótese de ter sido morto por um empreiteiro que trabalhava em reformas na residência. O filme de Broomfield, no entanto, acompanha o laudo oficial divulgado na época, acidente, de uma vida que, nos últimos três anos, era uma sequência de porres sem fim e muita anfetamina para se manter de pé.

Sim, ele foi o primeiro líder, o cara que batizou a banda (a partir de uma música de Muddy Waters) e conhecia tudo de blues. Mas, quando os Rolling Stones, instigados pelo empresário e produtor Andrew Loog Oldham, começaram a produzir material próprio, Brian Jones não mostrou trabalho. Enquanto Mick Jagger e Keith Richards não só aprenderam as lições passadas por Lennon & McCartney (que escreveram “I wanna be you man” praticamente na frente deles), como souberam encontrar um estilo original. Na verdade, num primeiro momento, Jones foi contra, queria que o grupo continuasse fiel ao repertório dos velhos e autênticos bluesmen. Curiosamente, como conta uma das 500 ex-namoradas, em casa, Brian ouvia sem parar os discos dos também rivais , e nada dos Stones.
O retrato do artista enquanto um rolling stone é pintado por muitas vozes. Dos ex-companheiros, Bill Wyman, que, em 1993, saiu do grupo por decisão própria, foi o único entrevistado, aparecendo pontualmente através do filme. Sem passar pano para o lado autodestrutivo, exalta a musicalidade excepcional de Jones, que, mesmo sem compor, contribuiu nos estúdios para a sonoridade que os Stones vieram conseguir. O baixista dá dois exemplos de composições de Jagger & Richards que cresceram no estúdio graças a Brian, os contrapontos de flauta em “Ruby Tuesdauy” e a guitarra com clima arabesco em “Paint it black”.
As falas em off de Jagger e Richards, provavelmente, vêm de pesquisa, e também frisam tanto méritos quanto pisadas na bola do ex-companheiro. Algumas das muitas namoradas dão pinceladas para o perfil de um sedutor, irresistível e inseguro jovem (complexado pela baixa estatura), que, em seus 27 anos de vida fez pelo menos cinco filhos de cinco diferentes relacionamentos. O pai, Lewis Jones, que tanto se opôs à opção pela música de Brian, é outro narrador fundamental para se conhecer o homem por trás do mito.
Talvez os Rolling Stones não tivessem existido sem ele, mas, sobreviveram e cresceram muito mais. Brian Jones acabou sendo vítima de suas fraquezas e, lamentavelmente, é mais lembrado pelos excessos que o fizeram ser o primeiro ídolo do rock morto aos 27 anos. Depois, seguido por Jimi Hendrix, Janis Joplin, Alan “Canned Heat” Wilson, Kurt Cobain, Amy Winehouse…
